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Cantadores do Nordeste
Anteontem, minha gente,
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste.
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista
E Otacílio, seu irmão.
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um, a quem faltava o braço,
Tocava cuma só mão;
Mas, como ele mesmo disse
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço:
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha,
Quer a rima fosse em ão,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do sertão.
A Eneida estava boba;
O Cavalcanti, bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida;
Enfim, toda a Comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação,
Como faz Dimas Batista
E Otacílio, seu irmão;
Como faz qualquer violeiro
Bom cantador do sertão,
A todos os quais, humilde,
Mando a minha suadação.
Manuel Bandeira
(1886-1968)
Mais sobre Manuel Bandeira em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Bandeira


2 Comentários
É verdadae. Isto que diz Manuel Bandeira é de fato o conceito de cantador nordestino. O poeta é um homem abençoado por Deus, por isto ele cria com facilidade seus versos, em harmonia com a exigência das normas da rima e da metrificação. Corroborando com os versos acima, pode-se afirmar que a força para versejar vem do coração, somada a um bom raciocínio. Como exemplo da arte de fazer versos, veja o mote a seguir.É um septassílabo rico em figura de linguagem, que diz assim: O sol avista abisbado / a serra mostrando os seios.
Numa manhã orvalhada
a garoa branca desce,
de longe a serra parece
uma princesa deitada,
uma réstia atravessada
divide o morro em dois meios,
para evitar arrodeios
procura um caminho errado
-O sol avista abismado
a serra mostrando os seios.
Ou mesmo de tardezinha
por trás de um monte dourado,
o dia se faz finado
e uma noite se avizinha,
esvoaça uma andorinha
dando inícios a seus passeios,
no auge dos galanteios
um arco-íris pousado
-O sol avista abismado
a serra mostrando os seios.
A barra cor de latão
anuncia o novo dia,
a neve mansa e macia
tocando os dedos no chão,
o vento sem direção
bate nos portões alheios
e os bons nevoeiros cheios
deixam o tempo encabulado
-O sol avista abismado
a serra mostrando os seios.
O tempo sai do pretume,
a nuvem forma um chapéu,
a lua opaca no céu
como quem sente ciúme,
a rama solta o perfume
atendendo os seus anseios,
superando os aperreios
o trovão dá seu recado
-O sol avista abismado
a serra mostrando os seios.
Logo após a escalada
o tempo muda de plano,
o dia passando o pano
no rosto da madrugada,
o silêncio não diz nada,
a brisa perde seus freios,
o orvalho faz asseios
num arvoredo enfolhado
-O sol avista abismado
a serra mostrando os seios.
(Pedro Ernesto Filho)
Infelizmente essa cultura tão rica, seja no seu aspecto histórico seja no seu caráter literato , não tem muito espaço nos que se consideram “letrados” e acadêmicos. Deveriamos lutar para que se criasse o curso superior de Poesia Sertaneja.