CANTADORES DO NORDESTE [de Manuel Bandeira]

poematit

Cantadores do Nordeste

 

 

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Anteontem, minha gente, 

 

Fui juiz numa função 

De violeiros do Nordeste. 

Cantando em competição, 

Vi cantar Dimas Batista 

E Otacílio, seu irmão. 

Ouvi um tal de Ferreira, 

Ouvi um tal de João. 

Um, a quem faltava o braço, 

Tocava cuma só mão; 

Mas, como ele mesmo disse 

Cantando com perfeição, 

Para cantar afinado, 

Para cantar com paixão, 

A força não está no braço: 

Ela está no coração. 

Ou puxando uma sextilha 

Ou uma oitava em quadrão, 

Quer a rima fosse em inha, 

Quer a rima fosse em ão, 

Caíam rimas do céu, 

Saltavam rimas do chão! 

Tudo muito bem medido 

No galope do sertão. 

A Eneida estava boba; 

O Cavalcanti, bobão, 

O Lúcio, o Renato Almeida; 

Enfim, toda a Comissão. 

Saí dali convencido 

Que não sou poeta não; 

Que poeta é quem inventa 

Em boa improvisação, 

Como faz Dimas Batista 

E Otacílio, seu irmão; 

Como faz qualquer violeiro 

Bom cantador do sertão, 

A todos os quais, humilde, 

Mando a minha suadação. 

 

Manuel Bandeira 

(1886-1968) 

 

Mais sobre Manuel Bandeira em 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Bandeira

2 Comentários

  1. Publicado em 28 Fevereiro, 2009 às 8:12 am | Permalink

    É verdadae. Isto que diz Manuel Bandeira é de fato o conceito de cantador nordestino. O poeta é um homem abençoado por Deus, por isto ele cria com facilidade seus versos, em harmonia com a exigência das normas da rima e da metrificação. Corroborando com os versos acima, pode-se afirmar que a força para versejar vem do coração, somada a um bom raciocínio. Como exemplo da arte de fazer versos, veja o mote a seguir.É um septassílabo rico em figura de linguagem, que diz assim: O sol avista abisbado / a serra mostrando os seios.

    Numa manhã orvalhada
    a garoa branca desce,
    de longe a serra parece
    uma princesa deitada,
    uma réstia atravessada
    divide o morro em dois meios,
    para evitar arrodeios
    procura um caminho errado
    -O sol avista abismado
    a serra mostrando os seios.

    Ou mesmo de tardezinha
    por trás de um monte dourado,
    o dia se faz finado
    e uma noite se avizinha,
    esvoaça uma andorinha
    dando inícios a seus passeios,
    no auge dos galanteios
    um arco-íris pousado
    -O sol avista abismado
    a serra mostrando os seios.

    A barra cor de latão
    anuncia o novo dia,
    a neve mansa e macia
    tocando os dedos no chão,
    o vento sem direção
    bate nos portões alheios
    e os bons nevoeiros cheios
    deixam o tempo encabulado
    -O sol avista abismado
    a serra mostrando os seios.

    O tempo sai do pretume,
    a nuvem forma um chapéu,
    a lua opaca no céu
    como quem sente ciúme,
    a rama solta o perfume
    atendendo os seus anseios,
    superando os aperreios
    o trovão dá seu recado
    -O sol avista abismado
    a serra mostrando os seios.

    Logo após a escalada
    o tempo muda de plano,
    o dia passando o pano
    no rosto da madrugada,
    o silêncio não diz nada,
    a brisa perde seus freios,
    o orvalho faz asseios
    num arvoredo enfolhado
    -O sol avista abismado
    a serra mostrando os seios.

    (Pedro Ernesto Filho)

  2. Augusto Coelho
    Publicado em 29 Agosto, 2009 às 1:33 pm | Permalink

    Infelizmente essa cultura tão rica, seja no seu aspecto histórico seja no seu caráter literato , não tem muito espaço nos que se consideram “letrados” e acadêmicos. Deveriamos lutar para que se criasse o curso superior de Poesia Sertaneja.


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