Os sapos
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira (3º da esquerda para direita em pé), Alceu Amoroso Lima (5ª posição) e Dom Hélder Câmara (7ª) e sentados (da esquerda para direita), Lourenço Filho, Roquette-Pinto e Gustavo Capanema - Rio de Janeiro 1936.
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- “Meu pai foi à guerra!”
- “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas cépticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”
Urra o sapo-boi:
- “Meu pai foi rei!”- “Foi!”
- “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo”.
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”.
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…
Manuel Bandeira (3º da esquerda para direita em pé), Alceu Amoroso Lima (5ª posição) e Dom Hélder Câmara (7ª) e sentados (da esquerda para direita), Lourenço Filho, Roquette-Pinto e Gustavo Capanema - Rio de Janeiro 1936.
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
- “Meu pai foi à guerra!”
- “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.
Parnasiano aguado,
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Em críticas cépticas:
Mas há artes poéticas…”
- “Meu pai foi rei!”- “Foi!”
- “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo”.
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”.
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…

4 Comments
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