- Poeta e ensaísta Ana Cristina César
CRONOLOGIA
1952 – Ana Cristina Cruz Cesar nasce em 2 de Junho, filha de Waldo Aranha Lenz Cesar e Maria Luiza Cesar.
1958-1959 – Primeiras poesias publicadas. No Suplemento Literário da Tribuna da Imprensa (Rio, 14-15 de Novembro de 1959) é apresentada ao mundo literário por Lúcia Benedetti.
1971 – Ingressa no Curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.
1970-1974 – Professora de língua inglesa no Instituto de Cultura Anglo-Brasileira.
1974 – Monitora da cadeira de Teoria da Literatura 1 no Departamento de Letras da PUC, no Rio.
1974-1979 – Professora de língua inglesa na Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa, Rio.
1975 – Licenciada em Letras (Português-Literatura) pela PUC, Rio.
1976 – Textos seus (poesia e prosa) integram a antologia 26 Poetas hoje, coordenada por Heloísa Buarque de Holanda (Editora Labor, Rio).
1975-1977 – Intensa atividade jornalística e editorial: consultora do Conselho Editorial da Editora Labor; colaboração da seção cultural do Semanário Opinião e do suplemento “Livro” do Jornal do Brasil; coeditora e colaboradora do jornal Beijo (1977); colaboradora eventual, entre outras publicações culturais, do Correio Brasiliense, revista Malazartes, jornal Versus, revista Almanaque, revista Alguma poesia, “Folhetim” da Folha de S. Paulo; resenhista de livros para Veja, Isto é, Leia Livros.
1975-1978 – intensa atividade como tradutora. Entre outros traduz três ensaios de Du Sens, de A. J. Greimas, Editora Vozes, Rio, 1975; El Tarot, o La máquina de imaginar, de Alberto Cousté (Labor, 1976); Hite Report, de Sara Hite (Difel, 1977); poemas de Silvia Plath, para a antologia de poesia norte-americana Quingumbo Ed. Kerry Shaawn Keys, Escrita, 1980); poemas de Emily Dickinson, publicados no “Folhetim”, Folha de S. Paulo, 1982; Antologia da nova poesia polonesa (em co-tradução com Grazyna Drabik), publicada na revista Religião e Sociedade, Rio, n°. 11/1, julho 1984) e no livro Polônia, o Partido, a Igreja, o Solidariedade, org. de Grazyna Drabik e Rubem Cesar Fernandes, Editora Marco Zero, Rio, 1984.
1978 – Pesquisa sobre “A literatura brasileira no cinema documentário”, projeto financiado pelo Conselho Nacional de Direito Autoral, através da Fundação Nacional de Arte (FUNARTE) Rio.
1979 – Mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
1979-1981 – Segunda viagem à Inglaterra, com bolsa de estudos pela Rotary Foundation. Recebe o título de Maste of Arts (M.A.) em Theory and Practice of Literary Translation (with distinction) na Universidade de Essex (1980). Imprime, na Inglaterra, o livro Luvas de Pelica (edição da autora, 1980).
1980 – Publicação de Literatura não é documento, como resultado da pesquisa encomendada e editada pelo MEC/FUNARTE, Rio.
1981 – Retorno ao Brasil (janeiro). É contratada pela Rede Globo de Televisão como analista de textos do Departamento de Análise e Pesquisa.
1982 – Lançamento, no Rio, de A teus pés (poesia/prosa) reunindo inéditos e publicações anteriores, pela Editora Brasiliense, São Paulo.
1983 – Em fevereiro viaja a Santiago, Chile, em visita a seus pais. Em princípios de outubro publica-se a segunda edição de A teus pés. Morre no dia 29 de outubro.
A POETA (do livro A teus pés – Ed. Brasiliense, 1983, 2ª. Ed.)
1º. Poema
(s/título)
Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera
LÁ FORA
há um amor
que entra de férias.
Há um embaçamento
de minhas agulhas
nítidas diante
dessa boa bisca
de mulher.
Há um placar
visível em altas horas,
pela persiana deste hotel,
fatal, que diz: fiado,
só depois de amanhã
e olhe lá,
onde a minha lâmina
cortante,
sofrendo de súbita
cegueira noturna,
pendura a conta
e não corta mais,
suspendendo seu pêndulo
de Nietzsche ou Poe
por um nada que pisca
e tira folga e sai
afiado para a rua
como um ato falho
deixando as chaves
soltas
em cima do balcão.
A POECRONISTA (do livro A teus pés – Ed. Brasiliense, 1983, 2ª. Ed.)
GUIA SEMANAL DE IDÉIAS
Segunda
Não achei a Távora mas vi o King Kong na
pracinha. Análise. Leu-se e comentou-se que o
regime não vai cair. Clímax alencariano das Duas
Vidas.
Terça
Parque Lage com Patinho. Yoga. Sopa chez avó.
Di do Glauber. Traduzi 5 p de masturbação até
encher o saco.
Quarta
Fingi que não era aniversário. Almoço em
família. Saidinhas à tarde com e sem Tutu. Não
me aclamaram no colégio como se esperava. Saí
deixando pistas com a psicóloga.
Quinta
Passei para os alunos redação com narrador
sarcástico. Último capítulo de Duas Vidas.
Encontro PQ na portaria e vamos ao chinês.
Conversa de cerca-lourenço, para inglês não ver.
Sexta
Bebericamos depois do filme polonês. Quarto
recendendo a chulé e sutiã. Guardados. Voltei no
aperto, mas não tão mole.
Sábado
Cartas de Paris. Disfarcei-me de nariz para
enganar PQ. Casas da Banha. Cheguei cedo,
parei em frente à banca das panelas.
Domingo
Lauto café à beira-mar. Mímicas no ônibus.
Emoção exagerada, demais, imotivada. Dildo
ligou, pobre. Darei bola? Anoto no diário
versinhos de Álvares de Azevedo. Eu morro, eu
morro, leviana sem dó, por que mentias. Meu
desejo? Era ser… Boiar (como um cadáver) na
existência! Mas como sou chorão, deixai que
gema. Penso em presentinhos, novos
desmentidos, novos ricos beijos, sonatilhas.
Contínuo melada por dentro.
A TRADUTORA (do livro Escritos da Inglaterra – Ed. Brasiliense, 1988)
WORDS
Axes
After whose stroke the Woods rings
And the echoes!
Echoes travelling
Off from the centre like horses
The sap
Wells like tears, like the
Water striving
To re-establish its mirror
Over the rock
That drops and turns,
A white skull,
Eaten by weedy greens
Years later I
Encounter them on the road
Words dry and riderless,
The indefatigable hoof-taps.
While
From the bottom of the pool, fixed stars
Govern a life.
Sylvia Plath
PALAVRAS
Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope
A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas
bater de cascos incansável
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
(trad. Ana Cesar)
