A estória de “Zé-meu-filho”, com que nem o diabo pode, caboco do sertão nordestino comedor de peixe-pedra com arroz-de-cuxá e farinha de puba
© DE João Batista do Lago
êta mundinho escrachado
mundinho do faz-de-conta
por lá não se tem vergonha
de enganar a nação inteira
virou o Congresso cocheira ?
Pelo sim; ou pelo não
êta desgraça brasileira
elegeram “Zé-meu-filho” !
vixe maria mãe de deus
enganaram os filhos teus…
Não é “coisa” do demo, não !
pode ser do bita barão:
terecô a noite inteira
mandinga de cumieira
das terras do pinheiro
ele veio lento e fagueiro:
primeiro mudou de nome
zé-de-riba num ía pegá
adotou um estrangeiro
pra pudê assim enganar
todo povo brasileiro
tava certo “Zé-meu-filho”
disso niguém pode duvidá
engabelou todo mundo
negando ser ribamá
daí atravessou a baía
foi se instalá na capitá
donde sua fama corria
moço, bonito, faceiro !
de nome pra ingrês vê
com verve de palavreiro
só num fazia chuvê
o povo então encantado
viu “Zé-meu-filo” crecê
dizendo acabá cum miserê
sabia ser bom sofista
chegou a ser comunista
depois foi bossa nova
e quando a casa caiu
e a dita cuja assumiu
abandonou a casa véia
logo traiu tudo e partiu
êta menino travesso !
bom de papo e poesia
cantô em prosa e verso
mesmo que controverso
a revolução da burguesia
a ele só importava
manter da croa a chefia
matutô… e matutô…
após muita matutação
resolveu o golpe aplicá:
tinha que vestir um fardão
pra lograr os milico
donos da revolução
pra chegá na croa da nação
tiro certeiro ele deu:
riu da engabelação
era hora de mais traição
e assim se escafedeu
urdiu a trama sem medo
vendeu a alma pro cão
acabou rei da nação
depois de ser coroado
intentou uma revolução
logo o povo descobriu
era tudo uma armação
mas então já era tarde:
saco de gato venceu
tudo que é rato apareceu
“Zé-meu-filho” foi caído !
enganou-se o opositor
feito a fênix se alevantô
sacudiu toda poeira
pr’acabar cum a oposição
fazer logo louvação
num tardô: veio a solução
agora tá de novo
depois de parir o ovo
da novíssima traição
sofista e prosélito
fala dum novo tempo:
dignidade e razão
- palavras soltas ao vento ! -
quem mais história quiser
não fale comigo não
pergunte lá pros cão
num me meta nessa não
“Zé-meu-filho” é tinhoso
capaz de invocar o barão
pediu pro pai-de-santo

Um Comentário
Eita João do Lago,
das lagoas, das águas limpinhas do rincão menos habitado do Maranhão.
Meu caro João, quando baixa teu momento de repentista, de tocador de viola, de embolada e de toada ligeira, tu, como tocador de farras e de farsistas, vai desfiando o chique chique das coivaras dos caminhos e açoitando o renque no lombo de tudo que vais vendo pela frente.
E é no lombo do Zé, do José; se rei e se de sá um nei, tá lá a marca do renque do João. Se de sar um rei se habita e se deasabita na imagem da filha, se rosa e ana é a rose aana; tudo e todos vão passando na ponta da sua chibata de palavras.
E quem é quem? É quem, qual rei sou eu? Perguntas tu de tu para ti. E estás certo. João do Lago e das lagoas de águas rasinhas em beira de areias fininhas, essas que o vento leva para a vergastada do pó torando as pernas de ti, rei de palavras. Tu sabes, João, e tu podes como poucos desfiar o sar do mar e do ney.
Teus repentes, como dizem os “bahianos”, são arretados, João. Como dizem os baianos, é coco puro, fórro de cem.
Grande Abraço “cumpanheiro”.
TM