POETAS DO MARANHÃO – Lília Diniz

Poeta e atriz Lilia Diniz

Poeta e atriz Lília Diniz

NASCI NO CRIOLI DO BINA

Lembrei dos fios que tecemos diariamente…
Urdiduras
Teço dia após dia
a mortalha que vestirei
Por enquanto
coloco botões
pequenos, grandes e coloridos
(caseio meus dias sempre antes de vivê-los)
Nos bordados já prontos
figuram borboletas
que levarão o melhor de mim
(restam duas ou três, não mais)
A minha mortalha escolhe sua cor
à medida que é tecida
um dia é amarela
no outro já é vermelha
(nunca escolheu ser branca)
E prego flores nos bordados intermináveis
Há noites que experimento
e sinto o gosto da morte
confesso que gosto e gozo
mas sou impelida a despir-me
pra terminar de tecê-la
(ainda hoje desmanchei um babado de cravos)

ARREMÊDO

Num sô fia de vaqueiro
nem fia de aboiadô
nem fia de repentista
ou de poeta emboladô
mas trago verso na língua
pro roceiro e pro dotô
Verso catado no chão
no pingo do meio dia
debaixo do sol rachando
queimando minha poesia
fundida com o sol a pino
que as letra se alumia
Sendo fia de roceiro
e quebradeira de coco
os meus versos são rasteiro
o que trago é muito pôco
nesse aboiar em lamento
o meu canto é muito rôco
Queima que nem cansanção
a minha alma brejeira
se não faço rimas, toadas
que me vêem na cumieira
do meu fogo pensamento
viro eu uma fogueira

TRAZ ESSE COCO MARIA

Faz a cocada
Que é pra mode
A gente comer
Traz esse coco Maria
Tira o leite
Rumbora botar no pexe
Pra gente comer
Meu babaçu que tanto quero liberto
Açaí e bacuri nós iremos liberto
Traz o macete o machado
Pega o cofo
Menina segura o coco
Rumbora o coco quebrar
Babaçuando nas brenhas do Maranhão
Desse coco quero o leite
O azeite e o carvão
O mesocarpo, palha, estrume, sabão
As filhas dessa palmeira
Resistindo a ambição

CRÔNICAS – Desafio ao leitor

Desafio ao leitor

Jamil Salloum Jr.

 

Jamil Salloum Jr é graduado em Jornalismo (UnicenP), Especialista em Comunicação e Cultura (UnicenP) e Mestre em Filosofia (PUC-PR). Professor, escritor e conferencista. Colunista dos Jornais Diário dos Campos e Jornal da Manhã, de Pontas Grossa-PR

Jamil Salloum Jr é graduado em Jornalismo (UnicenP), Especialista em Comunicação e Cultura (UnicenP) e Mestre em Filosofia (PUC-PR). Professor, escritor e conferencista. Colunista dos Jornais Diário dos Campos e Jornal da Manhã, de Pontas Grossa-PR

            Hoje proponho um desafio a você, amigo leitor. Terá coragem de aceitá-lo ou preferirá se acovardar? Como introdução ao desafio, cito um trecho da pena do notável fisiologista Charles Richet,  em:

            “Por que existes? Não és realmente curioso se nunca fizeste esta pergunta. Feliz negligência, não obstante bem singular! Pois jamais pediste para viver e a existência te foi imperiosamente imposta. Por quem? Para quê? Por quê? No entanto tens em parte o direito de o saber, ou pelo menos de interrogar o destino, interrompendo o curso do teu trabalho, dos teus prazeres, dos teus amores e de tuas inquietações. Mas não! Contenta-te com viver, antes vegetar, porque viver sem refletir sobre seu destino é lamentável. Andas, dormes, comes, bebes, amas, choras, ris, estás triste ou alegre e jamais te preocupas com a sorte que esperam teus bisnetos, nem com o universo misterioso que te cerca, universo esse estranhamente colossal, do qual não és mais que um átomo. Então nunca procuraste saber por que existes? Eis aí o que seria bom saber. Eis aí o que é justo aprofundar. Mas tu não és curioso.”

            Então, meu amigo, já o vejo sorrir zombeteiramente e dar de ombros, considerando as linhas acima mais uma pregação inútil de algum visionário. Realmente, é mais fácil parar a leitura aqui e voltar os olhos para outro assunto. De fato, é mais fácil voltar-se à rotina de todos os dias, feliz em supor que tudo vai bem assim. Mas se tem coragem, prossiga lendo.

            Se você acha que o homem deve ser mais do que alguns quilos de carne e jarros de água, destinados à podridão certa e inexorável algum dia; refeição para vermes, quando tudo o que você foi e fez será apagado para sempre, a não ser na memória dos poucos que o conheceram, os quais, também, terão o mesmo fim (você e os que amou se diluindo no nada), então considere por um momento a possibilidade de desviar o foco de sua atenção vacilante, das coisas do dia-a-dia (trabalho, comida, casa e diversão), para o propósito de você ser você, e nenhum outro, e do porquê de você estar aqui. Não se interessa? É melhor continuar dormindo, empurrando a vida com a barriga, ou melhor, sendo por ela empurrado?

            Há uma finalidade maior do que saturar algumas décadas com uma vida mecânica e inconsciente? De fato, se a existência aqui se limitasse a uma preparação para assar eternamente em um inferno de chamas, ou cantarolar eternamente com os anjos, em um paraíso localizado em algum lugar (mesmo diáfano), como pregam algumas religiões, seria melhor mesmo virar comida de vermes; seríamos mais úteis assim, à natureza. Adubo para a terra e para futuras formas de vida.   Mas será que toda a nossa engenhosidade, nossos feitos, nossas conquistas tecnológicas, científicas e culturais, se diluirão nesse propósito máximo de nossa existência, virar simples adubo para terra quando morrermos e apodrecemos?

            Incômoda questão, não? È mais fácil colocar a mente para dormir, fugir do questionamento, vendo novela, futebol, indo a festas, mergulhando no trabalho. ou fazendo qualquer outra coisa que não nos obrigue a enfrentar isso. “Mas quem sabe o fim de tudo, o porquê de tudo?”, você dirá. E complementará: “Se ninguém sabe, e os que dizem saber não passam de crédulos, não vale a pena se preocupar com isso e viver do melhor jeito que pudermos”.

            Pois aí está o meu desafio! E se houvesse algo sobre você que não lhe contaram? Não valeria a pena saber?  Hoje, agora, neste instante, decida de que lado você está: dos curiosos ou dos que não se importam. Se, por algum momento, uma ponta de curiosidade despertar em você, sobre você mesmo, e a respeito do universo, comparado ao qual você parece ser nada, então, por este mês apenas, tente pensar nisso, sem fugir das angústias que essa busca pessoal desencadeará.

A estória de “Zé-meu-filho”…

A estória de “Zé-meu-filho”, com que nem o diabo pode, caboco do sertão nordestino comedor de peixe-pedra com arroz-de-cuxá e farinha de puba

 

© DE João Batista do Lago

 

êta mundinho escrachado

mundinho do faz-de-conta

por lá não se tem vergonha

de enganar a nação inteira

virou o Congresso cocheira ?

Pelo sim; ou pelo não

êta desgraça brasileira

 

elegeram “Zé-meu-filho” !

vixe maria mãe de deus

enganaram os filhos teus…

Não é “coisa” do demo, não !

pode ser do bita barão:

terecô a noite inteira

mandinga de cumieira

 

das terras do pinheiro

ele veio lento e fagueiro:

primeiro mudou de nome

zé-de-riba num ía pegá

adotou um estrangeiro

pra pudê assim enganar

todo povo brasileiro

 

tava certo “Zé-meu-filho”

disso niguém pode duvidá

engabelou todo mundo

negando ser ribamá

daí atravessou a baía

foi se instalá na capitá

donde sua fama corria

 

moço, bonito, faceiro !

de nome pra ingrês vê

com verve de palavreiro

só num fazia chuvê

o povo então encantado

viu “Zé-meu-filo” crecê

dizendo acabá cum miserê

 

sabia ser bom sofista

chegou a ser comunista

depois foi bossa nova

e quando a casa caiu

e a dita cuja assumiu

abandonou a casa véia

logo traiu tudo e partiu

 

êta menino travesso !

bom de papo e poesia

cantô em prosa e verso

mesmo que controverso

a revolução da burguesia

a ele só importava

manter da croa a chefia

 

matutô… e matutô…

após muita matutação

resolveu o golpe aplicá:

tinha que vestir um fardão

pra lograr os milico

donos da revolução

pra chegá na croa da nação

 

tiro certeiro ele deu:

riu da engabelação

era hora de mais traição

e assim se escafedeu

urdiu a trama sem medo

vendeu a alma pro cão

acabou rei da nação

 

depois de ser coroado

intentou uma revolução

logo o povo descobriu

era tudo uma armação

mas então já era tarde:

saco de gato venceu

tudo que é rato apareceu

 

“Zé-meu-filho” foi caído !

enganou-se o opositor

feito a fênix se alevantô

sacudiu toda poeira

pr’acabar cum a oposição

fazer logo louvação

num tardô: veio a solução

 

agora tá de novo

depois de parir o ovo

da novíssima traição

sofista e prosélito

fala dum novo tempo:

dignidade e razão

– palavras soltas ao vento ! –

 

quem mais história quiser

não fale comigo não

pergunte lá pros cão

num me meta nessa não

“Zé-meu-filho” é tinhoso

capaz de invocar o barão

pediu pro pai-de-santo

O Perfeito Cozinheiro…

Diário coletivo da garçonnière de OSWALD  DE  ANDRADE

São Paulo – 1918  ( 1ª Parte)

por João Batista do Lago e Tonicato Miranda

* * * * *

 

Com muitas dúvidas – eis o mais intrigante livro publicado em língua portuguesa no Brasil.

Um livro de receitas de amores ao redor de uma personagem central? Um diário construído de forma anárquica ou sem pé nem cabeça? Um projeto de romance? Crônicas soltas e imagens? Palavras e fatos na frente e atrás das cortinas da Paulicéia Desvairada do outro Andrade? Loucuras antecipadas de João Miramar, de nome João? Sim, tudo isto e muito mais e + e + com cruzes de mortes e vida de um dos precursores da poesia moderna e do concretismo informal na língua portuguesa brasileira.

Trazemos para o deleite do leitor do “blog charles mallarmè” os primeiros rudimentos de um livro esquecido do Brasil, de um autor para o qual sua vanguarda ainda não foi consumida nem totalmente digerida. Neste País ainda Macunaímico; neste País ainda meio índio/meio autofágico, meio floresta/meio asfaltoselvagem, meio urbanóide/meio ruralista, meio crédulo/meio cético; neste País meio feijão-e-bife/meio caviar com caipirinha, meio carnívoro/muito pouco peixe, deixe pulsar os siris e caranguejos de João Miramar nas páginas da imaginação e nas praias dos devotos e dos descrentes, onde Iemanjá foi Pagu, onde Cyclone foi Deisi.

Para não mais nos estendermos e deixar de tantos canapés para irmos ao prato principal, resolvemos transcrever aqui alguns fragmentos da Introdução do Livro editado pela Editora Ex Libris, da edição de 1987, de autoria de Mário da Silva Brito.

É preciso estar claro que não a reproduziremos por inteiro, porque além de ser fastidiosa a leitura, faria do intróito ato superior à própria obra. Neste sentido, apresentamos neste momento a seguir fragmentos da Introdução e algumas páginas em fac-símile, do diário, acompanhadas de suas versões ou transcrições – mais fiel possível à edição de 1918, portanto 90 anos atrás.

Em 28 de Fevereiro voltaremos com mais um pouco da Introdução e mais cozimento de almas de Oswald. Por enquanto, vamos curtir um pouco do poeta genial e da sua intrigante obra.

 

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“O PERFEITO COZINHEIRO DAS ALMAS DESTE MUNDO”

por MÁRIO DA SILVA BRITO

 

“De 30 de maio a 12 de setembro de 1918, Oswald compõe, com amigos, O Perfeito Cozinheiro da Almas deste Mundo… Trata-se de um grande caderno de 200 páginas, medindo trinta e três centímetros de altura por vinte e quatro de largura, que se transforma num diário dos freqüentadores da garçonnière, provida de fonola e alguns discos, que Oswald mantém a Rua Líbero Badaró, 67, 3º andar, sala 2.

No enorme caderno, escrito a tinta roxa, verde e vermelha, ou a lápis às vezes, há de tudo: pensamentos, trocadilhos (inúmeros), reflexões, paradoxos, pilhérias com os habitués do retiro, alusões à marcha da guerra, a fatos recentes da cidade, a autores, livros e leituras, às músicas ouvidas (das eruditas às composições populares americanas), a peças em representação nos palcos de São Paulo, às companhias francesas em tournée pelo Brasil. Há mais porém: há colagens, grampinhos de cabelo, pentes, manchas de batom, um poema pré-concreto de Oswald, feito com tipos de carimbo, cartas de amigos grudadas em suas páginas…”

“A idéia do álbum partiu de Pedro Rodrigues de Almeida, literato raté que acabou delegado de carreira, espírito perfeito de académicien escrevendo o médio do bom gosto. Sob o pseudônimo de João de Barros é ele quem abre o caderno, onde diz: “Muito de arte entrará nestes temperos, arte e paradoxo que fraternalmente se misturarão para formar, no ambiente colorido e musical deste retiro, o cardápio perfeito para o banquete da vida”.

“Os colaboradores não se utilizam de seus nomes. Valem-se de pseudônimos ou apelidos. Sabe-se que frequentaram a garçonnière, entre outros, Monteiro Lobato (que lá um dia, esqueceu as provas de Urupês), Menotti del Picchia, Léo Vaz, Guilherme de Almeida, Ignácio da Costa Ferreira, Edmundo Amaral, Sarti Prado e Vicente Rao.”

“A figura dominante do Perfeito Cozinheiro é Deisi – novo amor de Oswald, misteriosa mulher com que depara ao sair de momentos sentimentais turbulentos, mulher que exerce grande fascínio não só sobre o jovem jornalista mas também sobre todos os que o rodeiam e fazem ponto na sua garçonnière. Há uma espécie de secreta paixão coletiva por Deisi, que é amante de oswald. “Todos declaram que amavam a Ciclone” – escreve ele.”

(fim da 1ª Parte da Introdução)

O  Perfeito  Cozinheiro…

(a seguir páginas do Cozinheiro em edição fac-símile) clique sobre as fotos para ampliá-las:

A Balança

A Balança

© DE João Batista do Lago

João Batista do Lago é um poeta e escritor maranhense

João Batista do Lago é um poeta e escritor maranhense de Itapecurumirim

Do palácio das Liberdades

Nascem carnes podres

Podres de direitos

Podres de justiças…

E então os direitos

Acasalados com as justiças

Geram frigoríficos

Onde suas carnes são depuradas

Para serem vendidas aos homens

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ANA CRISTINA CESAR

Olho muito tempo o corpo de um poema

 Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

Ana Cristina Cesar

(1952-1983)

CARLOS NEJAR

Laços

 

Carlos Nejar

Carlos Nejar

 

 

Não tenho parentes

tenho filhos

de amar o mundo

 

Sou um rio

entre o boi do chão

e as estrelas

 

Não estou só

o sangue secou

sou um companheiro

que partiu

 

Carlos Nejar

MURILO MENDES [1901-1975]

Poema passional

 

Fora do tempo eu assistia

Ao nascimento das tuas sensações,

Ao nascimento dos teus filhos no teu ventre

E ao diálogo entre o Criador e o Destruidor.

 

Foi permitido o sítio e o saque da tua alma,

Foi permitido o corte da tua cabeleira pesada,

Fizeram uma cicatriz nos braços que abracei.

Tentaram-te muitas vezes além do extremo limite.

E eu te amei ainda mais porque saquearam tua alma,

Porque te atribuíram o impudor das perdidas,

Porque golpearam teus braços, teus cabelos,

Porque te vi sem ânimo e sem cor na mesa de operação,

Porque és alternativamente soberba e resignada.

E eu te amei ainda mais pela centelha contínua

Que transparece nos teus atos, nos teus movimentos,

No teu corpo, nos teus gestos, na tua vida.

E eu te amei sem condições, por isso reinas

sobre minha alma incontida de poeta.

És, talvez sem querer, o laço enigmático

Que me prende à idéia essencial de Deus.

 

Murilo Mendes

(1901-1975)

VINÍCIUS DE MORAES [1913-1980]

Mensagem à poesia

Vinicius de Moraes foi um poeta brasileiro

Vinícius de Moraes foi um poeta brasileiro

Não posso

Não é possível

Digam-lhe que é totalmente impossível

Agora não pode ser

É impossível

Não posso.

 

Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao

seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar

Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo

Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte

do mundo

E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo

A saudade de seus homens: contem-lhe que há um vácuo

Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema: contem-lhe

Que a vergonha, a desonra, o suicídio, rondam os lares, e é

preciso reconquistar a vida

Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os

caminhos

Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso

Ponderem-lhe com cuidado – não a magoem… que se não vou

Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num

cárcere

Há um lavrador que foi agredido, há uma poça de sangue numa

praça.

Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus

Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem

Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens

E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto

Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento aos

Homens perplexos; digam-lhe que me foi dada

A terrível participação, e que possivelmente

Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias

Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.

Se ela não compreender, oh, procurem convencê-la

Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe

Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me

Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado

Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento

Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado

Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa

estrada

Junto a um cadáver de mãe; digam-lhe que há

Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem

Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia

Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande

Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações

Há fantasmas que me visitam de noite

E que me cumpre receber; contem a ela da minha certeza

No amanhã

Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite

Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso

Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora

Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde

De ter de abandoná-la neste instante, em sua incomensurável

Solidão: peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale

Por um momento, que não me chame

Porque não posso ir

Não posso ir

Não posso.

 

Mas não a traí. Em meu coração

Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa

Envergonhá-la. A minha ausência

É também um sortilégio

Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la

Num mundo em paz: Minha paixão de homem

Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha

Loucura resta comigo. Talvez eu deva

Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais

O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr

Livre e nua nas praias e nos céus

E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse

O meu martírio; que às vezes

Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas

Forças da tragédia abatem-se sobre mim, e me impelem para a treva

Mas que eu devo resistir, que é preciso…

Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência

Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática

Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela

Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo

A que foi dado se perder de amor pelo seu semelhante

A que foi dado se perder de amor por uma pequena casa

Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho

A quem foi dado se perder de amor pelo direito

De todos terem uma pequena casa, um jardim de frente

E uma menininha de vermelho; e se perdendo

Ser-lhe doce perder-se…

Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível

Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame

Que me espere, porque sou eu, apenas seu; mas que agora

É mais forte do que eu, não posso ir,

Não é possível

Me é totalmente impossível

Não pode ser não

É impossível

Não posso.

 

Vinícius de Moraes

(1913-1980)

CRÔNICAS: Convite à Mediocridade

Convite à mediocridade

 Jamil Salloum Jr.

Querido leitor, se você deseja uma cômoda vida de mediocridade, sem preocupações, desafios e crescimento, aceite esta receita que lhe oferecemos, que se mostrará, não tenha dúvida, um guia seguro:


1 – Antes de pensar, primeiro informe-se sobre o que deve ser pensado. Consulte a sociedade, de preferência as pessoas ligadas às “altas rodas”. Lembre-se sempre de pensar com a cabeça dos outros e nunca com a sua própria.


2 – Concorde imediatamente com tudo o que o professor, o padre, o pastor, o presidente, o chefe, o amigo… disser. Não reflita e não analise. Pode ser perigoso para a sua saúde.

3 – Em tudo o que fizer, pensar e falar, só procure agradar aos demais.


4 – Considere a sua cidade e a sua religião como tudo o que existe. Afaste-se dos perigos de novos horizontes culturais. Se alguém aparecer com outras idéias, que difiram das suas, combata-as com todas as armas e afaste-se como se fosse da peste.


5 – Seja um companheiro fiel da sua poltrona. Assista à televisão o mais possível e, em especial, programas dominicais das redes hegemônicas. As novelas da Globo deverão ser a sua segunda religião.


6 – Leia o menos possível. Mas se resolver ler, só assuntos da sua área de interesse. Cuidado com outras leituras! Podem deformar a cabeça.


7 – O que o Jornal Nacional disser será, de agora em diante, a tua lei e a tua bandeira.

8 – Não existe vida depois do futebol, lembre-se. É o único esporte e seus praticantes são mais que homens, são divindades.


9 – Não busque caminhos à margem da rotina geral. Siga o grosso do rebanho.

10 – A rotina é a lei e a lei é a rotina. De casa para o trabalho, dele para a casa e, uma vez nesta, televisão o mais possível.


11 – Declare guerra de morte aos que te disserem que vivem por um ideal que “não está no estômago, nem nos nervos, nem no sangue”, como dizia Huberto Rohden.


12 – Lembra da história de Fernão Capelo Gaivota? Viu o que aconteceu a ele? Quer um destino igual? Portanto, permaneça na segurança do bando, sempre.


14 – Se não está no teu livro religioso não existe. É besteira, ou pior, loucura.

15 – Teatro, música, balé, literatura, cinema, filosofia, escultura, pintura, ciência etc. são dispensáveis. O que vale é a cerveja e o futebol. Só isso constrói!


16 – Cuidado com a prática da caridade. Mas se a praticar, lembre-se de publicar seus feitos na mídia, para que os outros saibam o quão humanitário você é.


             Assim, caro leitor, você estará seguro de vôos incertos e perigosos, rumo a destinos desconhecidos. Sua mediocridade ficará assegurada, as mudanças não o atropelarão e você conhecerá, sempre, o caminho à sua frente. Por outro lado, se nossa receita não lhe apetecer e se você decidiu seguir o inverso de seus mandamentos, prepare-se! Você será crucificado – visto que o maior idealista da história o foi – e terá um árduo caminho. Mas em compensação, conhecerá uma coisa que nossos caros amantes da mediocridade jamais conhecerão: o significado da palavra “vida”.

O BOI NA PLATEIA [DE Tonicato Miranda]

O boi na platéia

para Vera Lúcia Gonçalves da Silva

você Sol, invencível astro

nosso amo e senhor

aquele que governa a luz

o que dita para todos o sono

somente a ti invejo neste mundo


vejo os rabos dos bois na campina verde

e para quem eles balançam senão para ti

ouço passarinhos de manhã a chilrear

e para quem fazem essa grande algaravia

se não para ti

os verdes dos relvados junto à rodovia

e os matos vista afora

até o rendilhado dos picos no horizonte

estão mais verdes

e me pergunto por que e para quem

vestem-se assim, se não é somente para ti

até as nuvens cinzas deram lugar

às brancas cumulus nimbus

todas em sinfonia em retumbante Sagração da Primavera

cuja anfitriã é a Terra, mas o provedor és tu, oh Sol


por isto mesmo te desafio para o duelo do milênio

venha tu das alturas com espadas de fogo

e bolas de pedra incandescentes

que te receberei com meus escudos

de palavras, versos de gelo e abrigos de argentum

venhas tu na velocidade incrível da luz

que aqui encontrarás um manto negro para apagá-la


vejo um boi sentado sobre sua cauda

na sombra de uma árvore

cabeça e chifres erguidos e imponentes

e me pergunto

quais pensamentos insólitos voejam em seu crânio

o que pensa desta minha digladiação com o Sol

certamente o boi é o mais sábio entre os três

pois que apascentado no frescor do flamboyant

pode escolher o que focar com seu grande olho de boi

a luta do Sol com o poeta ou a elegância das abelhas

transportando mel nos seus baldinhos

———-

Tonicato Miranda

BR-101, 27/10/2008

Ficha [DE Miguel Torga]

Ficha

Poeta sim, poeta…
É o meu nome.
Um nome de baptismo
Sem padrinhos…
O nome do meu próprio nascimento…
O nome que ouvi sempre nos caminhos
Por onde me levava o sofrimento…

Poeta, sem mais nada.
Sem nenhum apelido.
Um nome temerário,
Que enfrenta, solitário,
A solidão.
Uma estranha mistura
De praga e de gemido à mesma altura.
O eco de uma surda vibração.

Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.
Condição,
Profissão,
Identidade,
Numa palavra só, velha e sagrada,
Pela mão do destino, sem piedade,
Na minha própria carne tatuada.

Miguel Torga
(1907-1995)

Do desejo [DE Hilda Hilst]

Do desejo

I

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado,
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara.
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grande espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

III

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada a tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

IV

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Inpudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

V

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

Hilda Hilst
(1930-2004)

Madrigal muito fácil [De Manuel Bandeira]

Madrigal muito fácil

Quando de longe te vi,
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.

Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.

Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.

Quanto mais de perto, mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,
Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
– Dia ou noite que marcasses –
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!

Manuel Bandeira
(1886-1968)

8 Flores e a Canção Desesperada [de Tonicato Miranda]

8 Flores e a Canção Desesperada

 

para a mulher amada/

e tantas mulheres como você

 

Cronista e Poeta Tonicato Miranda

Cronista e Poeta Tonicato Miranda

Você,

rosa vermelha

e um punhal brilhante sobre a mesa

do corredor até a mim vem

uma canção desesperada

Você,

um lírio branco

e vinte lírios brancos sobre a mesa

que nada rivalizam ou contêm

dos acordes da canção desesperada

Você,

meu amor perfeito

a caneta e a carta sobre a mesa

tudo a escrever ao meu bem

dentro da canção desesperada

Você,

minha violeta quase preta

há na tarde reflexos sobre a mesa

tudo que o sol vai levar para além

da tarde, junto à canção desesperada

Você,

cacho de acácia

desfolhando-se sobre a mesa

meus dedos tristes, sem

dedilhar pianos na canção desesperada

Você,

um ipê amarelo

pintando o papel sobre a mesa

mesmo vindo a noite qual um trem

embarque-me na canção desesperada

Você,

rosa branca

derramada sobre a mesa

derrame fragrâncias em mim, mais de cem

para perdurar-me nesta canção desesperada

Você,

manacá da serra

decorando meu sangue sobre a mesa

anhagatirão é teu nome também

o branco e a violeta juntos na canção desesperada

Tonicato Miranda

Curitiba, 29/12/2008.