Monthly Archives: outubro 2008

“POR QUE CANTAMOS” [de Manoel de Andrade]

      “POR QUE  CANTAMOS”                                      De Manoel de Andrade  para Mario Benedetti(*)   Se tantas balas perdidas cruzam nosso espaço e já são tantos os  caídos nesta guerra… Se há uma possível emboscada em cada esquina e  […]

DOIS BOTÕES DE CAMISA E UM PATUÁ [de Tonicato Miranda]

  DOIS BOTÕES DE CAMISA E UM PATUÁ   preciso de você para coisas simples tomar café às 6 da tarde com pão fatiado contar como fui idiota de manhã e como posso ser um adorável tolo ao seu lado

LEITURA [de Adélia Prado]

  Leitura   Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras,  As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha  de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas  fora do seu tempo desejadas.  Ao longo do muro eram talhas de barro.  Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo  que lá fora o mundo havia parado […]

A ESPERA [de Ferreira Gullar]

  A espera   Um grave acontecimento está sendo esperado por todos.   Os banqueiros os capitães da indústria os fazendeiros ricos dormem mal. O ministro da Guerra janta sobressaltado, a pistola em cima da mesa.

POMBA-GIRA [de Sylvio Back]

  POMBA-GIRA   membranas de fogo em fodas insones   herdeiros inermes de gozos romeiros   corpos e prazeres reduzidos a haveres   traveste-se o que se foi do que fora e basta-se   dor rouca perverte pouco amor se indo linda o vindouro   lágrimas solas escorregando por dentro das aortas tolas   olhar […]

A MÚSICA DA MORTE [de Cruz e Sousa]

  A Música da Morte   A Música da Morte, a nebulosa, estranha, imensa musica sombria, passa a tremer pela minh’alma e fria gela, fica a tremer, maravilhosa…   Onda nervosa e atroz, onda nervosa, letes sinistro e torvo da agonia, recresce a lanciante sinfonia, sobe, numa volúpia dolorosa…   Sobe, recresce, tumultuando e amarga, […]

A MOÇA CAETANA A MORTE SERTANEJA [de Ariano Suassuna]

  A Moça Caetana a morte sertaneja Eu vi a Morte, a moça Caetana, com o Manto negro, rubro e amarelo. Vi o inocente olhar, puro e perverso, e os dentes de Coral da desumana. Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel, os peitos fascinantes e esquisitos. Na mão direita, a Cobra cascavel, […]

AO TEMPO [de Dante Milano]

  Ao tempo   Tempo, vais para trás ou para diante? O passado carrega a minha vida Para trás e eu de mim fiquei distante, Ou existir é uma contínua ida E eu me persigo nunca me alcançando? A hora da despedida é a da partida A um tempo aproximando e distanciando… Sem saber de […]

NOTURNO DE AMOR [de Cecília Meireles]

Noturno de amor Vem de manso…de leve…e suave e doce Como um silêncio estático de prece… Que a sua vida seja tal qual fosse Apenas a saudade que me viesse… Vem de manso…Na névoa da penumbra, Faze um gesto litúrgico de benção! A alta noite tristíssima deslumbra Dos meus olhos nostálgicos, que pensam… Sugere, mas […]

UM DIA [de Rodrigo de Souza Leão]

  Um dia Hoje me botaram numa jaula  Eu fiquei andando  De um lado para o outro Feito um bêbado que via  Muitos dedos num só  Que eram tantos assim

LÉGUAS DEL LENGUAS [de Eduardo Jorge]

  Da série Serpes Da indi in qua mi fuor le serpi amiche  (serpes me foram desde então amigas) Dante. Inferno: Canto XXV LÉGUAS DEL LENGUAS a língua foi crescendo: os lábios desencontraram-se num rasgão. ela foi ganhando corpo – sanfonada carnadura ofídia. os poros escamas. a boca aberta em círculo, se desenrolando num pergaminho […]

EPITÁFIO [de Virna Teixeira]

EPITÁFIO   ‘Here lies One Whose Name was writ in Water’   O molde, máscara  mortuária,   rosto. John   Keats,  25 anos

COVEIRO FILOSÓFICO [DE Antônio Mariano]

  Coveiro filósofo   “O coveiro é uma boa profissão, Mário.  Se aprende filosofia”.  Antonio Skármeta   Falar não é fácil,  diziam dos vivos, dos mortos.  É difícil erigir o discurso,  lápide que nunca os terá.

DESMESURADO HUMANO [de Reynaldo Damazio]

  DESMESURADO HUMANO A fúria que amiúde  Me fascina  Não é a do intelecto  Fescenina  Mas a do corpo  Anti-euclidiana  Feminina

NERVURAS [de Contador Borges]

  NERVURAS  (fragmentos)     O rosto, as faces, o brilho opaco,  o riso enfeixando lenhas  de sua fogueira  rosada; os olhos,  estrelas queimando o derradeiro  fôlego, o pacto  de gloriosa cera  corpórea, anímica  horrorizando o tempo  e seus intentos, um tira-gosto