DEAMBULATORIUM [de João Batista do Lago]

Acordo num ofertório do dia

Onde a primavera solícita

Oferece-me o sorriso das flores

Ouço as palavras das rosas

Dizendo-me: “Bom dia!”

O sol oferece-me a luz

Translúcida de ternuras (e)

Banha meu corpo no

Delírio do deslumbramento

Matinal duma primavera única

Sinto o rio que corre dentro de mim

Levando meus pensamentos às

Profundezas rochosas do meu ser

Lavando as pedras ressecadas pelo tempo

Transformando num movimento alquímico

Meus sentimentos em pérolas de esperança

Assim amanheço no meu hoje

Renovando-me do meu divino caos

Recriando-me no ovário do sagrado

Espaço de todas minhas manhãs

Feitas de flores

                        De rosas

                                       De Primaveras

2 Comments

  1. Tonicato Miranda
    Posted 26 outubro, 2008 at 11:41 pm | Permalink

    O Sol, sempre ele. Não foi à toa que Maiakoviski travou fortes batalhas com o astro rei. Ele, senhor de todos os bens e males das vidas planetinas, em Terras e Martes alhures.

    Pois foi ele quem gestou a Primavera tardia, rompendo nuvens, rompendo o frio e até mesmo a carranquice do povo curitibano.

    E neste rasgar do húmus suspenso no ar, rompeu com toda a força no poeta do lago, no poeta João. O poeta que fez parceria com o Sol para conversar com as flores e delas receber um “Bom dia!” Muito bom. Mesmo se elas não falassem apenas o romper do olhar sobre a luz já seria razão para toda a alegria do poeta. Mas quem disse que rosas não falam? O poeta tanto sabe disto que é capaz de amanhecer duas vezes numa mesma manhã, pois “renovando-se no seu divino caos” renova a todos que acompanham o poema.

    Mais longe foi a pena de João ao transferir ao papel e ao olhar do leitor o fato de ser capaz de brotar seu próprio ovário (e vejam que não é o poeta o esperma, a lança vital do macho que de fato contém, mas o ovário),e se lançar ao espaço de todas as manhãs.

    E fecha JOão o poema com chave de ouro na alusão simples, vulgar, pueril até, mas inteiramente irmanada da sua fecundidade, porque “as flores”, “as rosas” e a sua/nossa “primavera” a partir de agora irão nascer em todas as manhãs. E mesmo que não saibamos quantas são estas manhãs, podem ser todas doravante, porque vieram do ovário fecundado do poeta João do Lago, que nos alegrou com a radiação do Sol e da sua própria invencibilidade. Isto porque somente ele pode fazer um poeta lavar com seu próprio rio as pedras ressecadas em seu interior.

    Belo poema, que o tempo transformará em canto de anunciação das primaveras brotantes.

  2. Charles Mallarmé
    Posted 31 outubro, 2008 at 3:58 pm | Permalink

    Obrigado, poeta Tonicato Miranda, você é o nº 1 na série dos comentários. E que excelente comentário feito.


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