Sobre certas dificuldades atuais [de Affonso Romano de Santana]

Sobre certas dificuldades atuais 

Não está nada fácil ser poeta nestes dias. 

Não falo das vendas de livros de poesia 
– que se poesia é isso que aí está, 
o público tem razão 
– nem eu mesmo compraria. 

De um lado, 
um bando de narcisos desunidos, 
ressentidos, 
com vocação noturna de suicidas, 
de outro, 
os generais com seus suplícios 
pensando que comandam os industriais, 
que, comandados, 
comandam os generais 
de que precisam. 

Não, 
não está nada fácil ser poeta nestes dias. 
Seja 
palstino, 
libanês, 
argentino, 
chileno, 
sul-africano, 
ou irlandês, 
não está nada fácil ser poeta nestes dias. 

Sem dúvidas, é mais fácil e inútil 
ser poeta americano e francês, 
com muito sanduíche e vinhos 
e muito prazer burguês. 

Não, 
não é nada fácil ser poeta índio nestes dias. 
Tão difícil quanto ser poeta polonês e afegão. 
Não, não é nada fácil 
ser um poeta, dividido, alemão. 

Na Rússia, talvez haja poeta proletário 
contente com o recalcado medo 
e seu profissional salário. 
De qualquer jeito 
nunca foi fácil ser poeta 
num regime autoritário. 

Não está nada fácil ser poeta nestes dias. 
Não está nada fácil ser poeta noite e dia. 
Não está nada fácil ser poeta da alegria. 
Não, 
não está nada fácil ser poeta 
e brasileiro 
nestes dias. 

Affonso Romano de Sant’Anna 

Mais sobre Affonso Romano de Sant’Anna em 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Affonso_Romano_de_Sant%27Anna

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