Tonicato Miranda

 Meu curriculo, faz-me rir. Não tenho curriculo, tenho culhões de ferro para enfrentar o Sol. Não tenho curriculo, tenho escudos para as maldades calmas dos homens. Não tenho livros publicados, tenho amigos que guardam meus poemas na memória e assim me brindam com essas lembranças. Não gosto dessas referências curriculares. Sou um pouco avesso a essas informações passageiras. Prefiro ser o motorista, não o passageiro. Mas às vezes me apraz apenas assistir a passagem do ônibus serpenteando numa estrada morro abaixo.

Meu currículo, faz-me rir. Não tenho currículo, tenho culhões de ferro para enfrentar o Sol. Não tenho currículo, tenho escudos para as maldades calmas dos homens. Não tenho livros publicados, tenho amigos que guardam meus poemas na memória e assim me brindam com essas lembranças. Não gosto dessas referências curriculares. Sou um pouco avesso a essas informações passageiras. Prefiro ser o motorista, não o passageiro. Mas às vezes me apraz apenas assistir a passagem do ônibus serpenteando numa estrada morro abaixo.

 

 

 

 O olhar me sorriu

para Ângela, perdida na minha infância

 

não, não me quero mais assim

cara de infeliz, com lenço e atchim

arranca de dentro a minha carranca

inverta-me a cara e a caveira branca

as bobas pernas em jeans ancoradas

precisam destravar, pedalar caminho

a camiseta e os cabelos em desalinhos

braços e tronco precisam suar a camisa

construir utilidades, ao corpo dar trabalho

movimentar esta alma, espírito e músculos

mudar para rugosa a pele que jaz muito lisa

preciso me tirar daqui, do meio deste baralho

estou quase concha, fazendo meus moluscos

não, não me quero mais assim

preciso criar novas guerras, para isto vim

cinzas no capim e ali, nos verdes da mata

vejo na porta do olhar muita gente de lata

mais do que as nuvens de tempestade no céu

e sou o mais metálico, porém o rasgador do véu

único capaz de abduzir os dois coringas da carta

fazê-los bailar aqui, rindo à beça, bebendo à farta

e eles dançando-me, rodopiando o velho coração

e nossos pés riscam o chão, agulhas na emoção

teu sorriso passou aqui, na cantiga que embalava

te vi criança, e quando tu sorrias tudo se calava

já posso sentir e dizer que me quero bem assim

fecha a cortina já voltei para a vida, este é o fim


Blumenau, 25/10/2008

 

———-

 

MENSAGEM  DO  TINHOSO

 

O ônibus saiu da Rodoviária às oito horas em ponto. Durante vinte e dois minutos ficou a olhar a paisagem, como num filme de Godard, onde tudo se vê e em nada se fixa. O dia caminhava feio. Tudo cinza abaixo e acima da garoa fina e da névoa intensa que ora mostrava o topo da morraria próxima, ora descortinava osmontes mais altos no horizonte. Dia feio e frio. Dia em que perro não sai de cima do jornal na soleira da porta, gato não desenrola do rabo e do canto do sofá, pernilongo não voa, besouro não zumbe. Dia pra beber chimarrão e chupar muita xícara com café fumegante.

 

Cansado da leitura da paisagem e das viagens mentais abriu a mochila, sacou o livro, retomando a leitura da noite anterior. Grande Sertão e Veredas. Estava ele ainda pela página 45, apesar de 13 dias de leitura, quando o telefone disparou. Disparou e parou antes que pudesse atendê-lo. Voltou à leitura e mais uma vez o telefone esganiçou no seu bolso. Tentou ler a mensagem, mas nada havia. Quem ligou não concluiu a primeira frase – “E ai mano…”. Com o olho novamente na paisagem ficou mirando o rendilhado das lavouras de arroz alagadas e algumas que ensaiavam brotar as plantas para fora da água, mas que se mantinham cinzas pela ausência de luz. Estava assim, viajando na viagem, quando o telefone apitou com grunhido doido, insistente. Acelerou o gesto para tentar interromper o barulho incômodo para ele e para os outros passageiros.

Desta vez a mensagem chegou inteira:

_ E ai mano desejo boa sorte pro wil que vá pra ganhar eu estou em uma reunião por isso não estou ai pastor Gelson

Intrigado e chateado com aquela interrupção da sua leitura e da viagem do olhar no interior da paisagem resolveu respondê-la, mesmo não sabendo quem, onde, ganhar o quê, Wil, Gelson, sorte, ganhar, perder, pastor…

Passou os próximos trinta minutos construindo no celular a mensagem-resposta para aquelas palavras vindas do hiperespaço celulante da telefonia mundial. Por estar lendo Guimarães foi influenciado na construção do texto. Foi difícil apertar com precisão aquelas teclas tão pequenas com seu dedo gordo. Mas foi em frente…

_ Pastor Gelson, acho que nos desigualamos. Não sou seu mano. No momento estou no sertão de Santa Catarina, que apesar de santa, se hoje viesse pousar aqui, tinha de vir armada, com bala nos dentes, porque a gente daqui é tanto ruim, como um outro ruim dia um. Mas venha. Venha com sua carantonha. Se não prestar, outra cara a ela nois empresta. Causo ela fique muito furada, disminuimos as balas. Não tenha receio, o medo da morte só bate no bobo do corpo, não no interno das coragens. Pois venha.

Enviou a mensagem e, satisfeito com a missão cumprida, retornou ao livro se misturando com Riobaldo, Diadorim, a jagunçada, o tinhoso, a piriquitada e as veredas mineiras de histórias, estórias além de muitas sabedorias “Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato…”

Tonicato Miranda

Curitiba, 15/Setembro/2008.

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