A AULA DE GUITARRA [de Jorge Lúcio de Campos]

 

 AULA DE GUITARRA

a Balthus

1

Não me lanço 
à vida 
por acaso:

não existo, resplandeço. Não celebro 
o pranto que me oprime 
e esgota meus recursos

Por acaso 
um dinossauro, uma baleia – 
uma impressão de poucos dígitos

Num rappel à l’ordre faço a luz 
e o espaço 
constitui minha colagem – 
me acolhe num espelho 
incoerente



Paraliso minhas 
folhas de papel 
e o poema perde o cálculo, o metal, a 
urgência que o acordoa 
e meu corpo se desfaz – 
velado extrato 
a raptar o mundo

O que me resta 
rumoreja 
me leva pra fora 
despe 
agride 
sodomiza



Excluo apegos 
e de vez 
me torno em 
torno de mim

Se me falam 
não respondo 
Se me tocam 
me desvaio, devoro 
a língua –

sujo a tábua rasa 
de minha alma – 
pinto um pôr-do-sol 
e então fujo –

finjo que 
não ouço 
minha aula 
de guitarra

 

ZUNÁI – Revista de poesia & debates

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