DEBATE: Como está a poesia brasileira hoje?

Como está a poesia brasileira hoje?

 

 

Claudio Daniel: qual será o papel da poesia num mundo unipolar, regido pelo império da tecnologia, do mercado e da mídia, que exilou o sentido utópico, presente nas vanguardas do início do século passado? Acredito que há, no mínimo, três atitudes que os poetas podem tomar, respondendo ao desafio da esfinge: a) aceitar a nova visão de mundo, ingressando no coro dos contentes, já bem afinado por tantas vozes que buscam o sucesso antes mesmo de terem realizado uma obra literária válida (para estes, o que importa é o marketing, não a estética ou a mudança do mundo); b) conformar-se à criação poética pura, fazendo do exercício rigoroso da linguagem a sua ética pessoal, sem concessões à facilidade nem retrocesso a formas gastas; e c) manter a atitude inconformista, de denúncia e rebelião solitária, unindo a experiência da linguagem à consciência crítica. A terceira atitude é a mais arriscada, numa época em que a revolução comportamental iniciada nos anos 60 foi consolidada, e transformada em objeto de consumo, e os projetos alternativos para a mudança social foram arquivados, pelo consenso relativo em torno da democracia liberal e da economia de mercado. A própria idéia de vanguarda foi colocada em xeque pelos formuladores do conceito de pós-modernidade. Essa aparente apatia é questionada, no entanto, pela própria realidade, que em Chiapas, Oaxaca, La Paz e outras localidades, não só na América Latina, aponta os resultados nocivos da globalização econômica, como a redução dos direitos sociais para favorecer a acumulação de capital. Ainda é cedo para sabermos se os novos movimentos aglutinados no Fórum Social Mundial apontarão uma saída viável. O fato concreto é que surgem vozes dissonantes, inclusive na intelectualidade norte-americana, denunciando a agressão imperial a outros países, a limitação da liberdade individual e de imprensa, a pretexto de combater o terrorismo (medidas autorizadas pelo Ato Patriota) e a agiotagem financeira internacional. Nesse contexto, o poeta pode assumir uma posição de consciência crítica: assumir sua cidadania, seu inconformismo intelectual, sua participação num processo, ainda incipiente, de mudança de valores, aceitando pagar o preço pela dissidência.

 

A revista Sibila, editada por Alcir Pécora e Régis Bonvicino, busca referências literárias diferentes daquelas presentes no cânone literário recente (que vai de Bandeira e Drummond a Cabral e à Poesia Concreta). Essa jornada parte de uma reflexão crítica sobre a vanguarda e avança no sentido de ampliar o repertório, por meio da atividade crítica e da tradução de autores estrangeiros contemporâneos como Robert Creeley, Michael Palmer, Charles Bernstein e Claude-Royet Journaud (escolhas mais inteligentes do que as realizadas pela revista carioca Inimigo Rumor, que se contentou com autores de dicção tradicional, como Adília Lopes, Nicanor Parra e Antônio Cisneros, que em nada contribuíram para a renovação das formas poéticas). O diálogo brasileiro com a poesia norte-americana divulgada por Sibila (e antes dela, pela extinta revista Monturo), no entanto, merece um comentário mais atento. A tradição minimalista, prenunciada talvez por Emily Dickinson, no final do século XIX, teve o seu momento de expansão na década de 1920, com a obra seminal de poetas como William Carlos Williams, Louis Zukofski, cummings e outros, em geral ligados ao Objetivismo. Esta é uma poesia concentrada, de imagens rápidas, fragmentárias, que exploram ao mesmo tempo a sonoridade e o pensamento, pela maneira como articula o discurso. Gertrude Stein adotou estratégia diversa, transformando palavras e fonemas em matéria plástica e sonora, sem um sentido preciso (os “tender buttons”, aliás uma gíria para designar o clitóris). A influência combinada dos objetivistas e da autora da Autobiografia de Alice B. Toklas foi decisiva para a chamada Language Poetry, surgida nos Estados Unidos na década de 1970, que podemos considerar uma síntese da tradição da vanguarda norte-americana. O trabalho tradutório de Bonvicino foi importante para a divulgação desses autores entre nós, e influenciou a fase inicial de poetas como Tarso de Melo e Kleber Mantovani. Com o passar do tempo, no entanto, essa abordagem do minimalismo criou um novo beco sem saída, pela excessiva repetição de processos. O uso exclusivo de minúsculas, em espaço duplo, com abundância de substantivos e poucos verbos (sempre no infinitivo) tornaram-se cacoetes, assim como a descrição de cenas e situações em linguagem fragmentária e elíptica e o uso não-gramatical da pontuação, bem como o uso de palavras imprecisas como alguém, ninguém, algo, talvez, outro, quando. A reverberação das técnicas mais evidentes da Language Poetry, que não pode ser reduzida a esses recursos, acabou estabelecendo um padrão que não causa mais surpresas.

 

A Poesia Concreta, diga-se aqui, desde a década de 1950 já realizou uma síntese radical da herança das vanguardas, ainda não plenamente assimilada por nossos poetas e críticos literários. Se alguns aspectos do Plano-piloto envelheceram, permanece o desafio de buscar uma solução para a crise histórica do verso, sem o retorno acrítico a fórmulas exauridas. O próprio Haroldo de Campos, em obras como Galáxias, Crisantempo e nos ensaios sobre o pós-utópico buscou uma outra vereda, que podemos situar na tendência chamada neobarroca, que se desenvolveu, sobretudo, nos países de língua espanhola da América Latina, a partir de 1970, tendo como expoentes autores como o cubano José Kozer, o argentino Nestor Perlongher e o uruguaio Roberto Echavarren (e poderíamos acrescentar a essa lista os brasileiros Wilson Bueno, Horácio Costa, Josely Vianna Baptista e o Leminski do Catatau, além do próprio Haroldo). O neobarroco não é uma escola; não tem princípios normativos como o verso livre ou as “palavras em liberdade”. Podemos caracterizá-lo, em termos gerais, como uma estética da miscigenação, da quebra de fronteiras entre repertórios culturais, mesclando o erudito ao popular, o neologismo ao arcaísmo, o ocidental ao oriental, o poético ao prosaico, num deliberado hibridismo, que incorpora ainda a tradição do Século de Ouro (com sua rica imagética e proliferação de metáforas) e da vanguarda internacional. Divulgado no Brasil por Josely Vianna Baptista (Caribe Transplatino) e por mim (Jardim de Camaleões), e ainda por revistas como Coyote, Oroboro e Et Cetera (todas editadas no Paraná), o neobarroco teve presença discreta em nossas letras, mas é visível sua influência em autores mais jovens, como a paulista Adriana Zapparoli e o cearense Eduardo Jorge.  Se a dicção neobarroca ou hermética é uma das respostas possíveis à crise do verso, outro caminho, pouco explorado entre nós, é o da poesia eletrônica, que permite a interação entre som, imagem, idéia e movimento, em suportes digitais (que facilitam ainda a permutação de signos, a mobilidade e a interatividade, multiplicando as rotas de leitura e a geração de significados). Esse campo de experimentação, que não abole o livro ou a escrita, mas amplia as potencialidades da palavra, com certeza nos surpreenderá, em futuro breve. Na internet, podemos acessar algumas experiências nesse sentido nas revistas Artéria, de Omar Khoury, Errática, de André Vallias, e Popbox, de Elson Fróes.

 

A revista Inimigo Rumor, editada no Rio de Janeiro por Augusto Massi e Carlito Azevedo, realizou em seus primeiros números (que contaram com a colaboração editorial de Júlio Castañon Guimarães) um mapeamento criterioso da poesia brasileira contemporânea, publicando autores como Augusto de Campos, Duda Machado, Régis Bonvicino, Claudia Roquette-Pinto, Antônio Risério e Arnaldo Antunes, entre outros nomes estabelecidos, além de poetas jovens, com pouca oscilação de qualidade. Num segundo momento, a revista assumiu contornos mais ecléticos e tornou-se porta-voz de uma dicção coloquial e cotidiana, que reivindica a herança do Modernismo de Bandeira e Drummond e de autores da década de 1970, como Cacaso e Francisco Alvim. Os elementos centrais dessa vertente são o lirismo, a subjetividade, a temática prosaica, inspirada na crônica de jornal, e o humor (por vezes opaco ou ingênuo, sem a contundência de Glauco Mattoso e Sebastião Nunes). É uma poesia que não investe na renovação léxica ou sintática, respeita o discurso e a lógica linear e não busca novos processos de criação. A defesa do lirismo contra a vanguarda, feita por poetas desse grupo, causa certa surpresa, e merece breve comentário. Lirismo e subjetividade estão presentes, em maior ou menor grau, em toda a poesia moderna, inclusive na vanguarda (lembremos aqui o Poetamenos, de Augusto de Campos, ciclo de poemas coloridos de temática amorosa, inspirados na “melodia de timbres” do músico austríaco Anton Webern). A revolta da modernidade, desde seus primórdios, foi contra o eu lírico narcísico, de efusão sentimental, dominante na época romântica e ainda na simbolista. Ao reduzir a presença do eu, focando a atenção no mundo objetivo e na linguagem, a modernidade deu um novo sentido ao lirismo, que foi reinserido na dimensão social e histórica (lembremos aqui de Paul Celan, autor de rigoroso artesanato lingüístico e não menos intenso do ponto de vista emocional, e ainda o Rilke dos Novos Poemas). 

 

Propor uma antinomia radical entre o lírico e o lingüístico parece-nos uma desculpa para justificar poéticas frágeis, assim como a tática diversionista de apelar a um suposto “conteúdo” ou “urgência de dizer” que não raro se limita à descrição banal da frase escrita numa camiseta. Outro ponto que carece de discussão é o relativo ao enfoque crítico da realidade. Talvez pela excessiva influência do método sociológico de Antonio Candido na universidade, esse debate ainda está atrasado entre nós. O retrato ácido, caricatural do mundo urbano e fabril está presente em Baudelaire, Cesário Verde, Ezra Pound, Drummond, Décio Pignatari. Não há conflito entre consciência social e consciência da forma (discussão já travada na Rússia na década de 1930 entre os cubo-futuristas e os adeptos do realismo socialista), ao contrário: a denúncia é ainda mais expressiva quando apoiada num texto poético forte e eficaz.  No poema Nós, de Cesário Verde, para ficarmos num único exemplo, podemos ver a antecipação do futurismo pela temática urbana, concisão e estilo telegráfico de certas passagens: “cidades fabris, industriais,/ De nevoeiros, poeiradas de hulha” / (…) “condados mineiros! Extensões/ Carboníferas! Fundas galerias!/ Fábricas a vapor! Cutelarias!/ E mecânicas, tristes fiações! / (…) Mas isso tudo é falso, é maquinal, / Sem vida, como um círculo ou um quadrado, / Com essa perfeição do fabricado, / Sem o ritmo do vivo e do real”. Não encontramos essa fúria rebelionária, social e semântica, na poesia defendida pelo grupo da Inimigo Rumor, que se limita, muitas vezes, ao registro de pequenas cenas corriqueiras, com palavras singelas, às vezes pueris, como os diminutivos, sem a força de impacto de Cesário Verde, Brecht, Maiakovski ou Drummond (aquele das peças mais consistentes, como Nosso Tempo: “Os lírios não nascem / da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se / na pedra. (…) / Tenho palavras em mim buscando canal, / são roucas e duras, / irritadas, enérgicas, / comprimidas há tanto tempo, / perderam o sentido, apenas querem explodir”).

 

O uso da ironia e da sátira na poesia de temática urbana é uma conquista que remonta ao século XIX, especialmente a Jules Laforgue e Tristan Corbière, autores valorizados por Ezra Pound, que via no humor uma forma de crítica não apenas social, mas também da linguagem.  O humor é subversivo, corrói as fórmulas gastas do discurso, as pérolas da retórica, as metáforas vazias, e acrescenta ao vocabulário poético termos considerados chulos, obscenos ou de mau gosto, pour épater le bourgeois. Recordemos aqui alguns versos de Corbière, em tradução de Augusto de Campos: “Não nasceu por nenhum lado / e foi criado como mudo,/ tornou-se um arlequim-guisado, / mistura adúltera de tudo. / Tinha um não-sei-que, — sem saber onde; / Ouro, — sem trocado para o bonde; / Nervos, — sem nervo; vigor sem ‘garra’; / Alma, — faltava uma guitarra; / Amor, — mas sem bastante fome. / — Muitos nomes para ter um nome. / Idealista, — sem idéia. Rima / Rica, — sem matéria-prima; / De volta, — sem nunca ter ido; / Se achando sempre perdido.” Comparemos essa peça com o poema-piada Parque, de Francisco Alvim, que o crítico Manuel da Costa Pinto incluiu em sua Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século XXI: “é bom / mas / é muito misturado”. Enquanto o texto de Corbiere, a cada releitura, permite a investigação de novos sentidos, o texto de Alvim esgota-se na primeira leitura, pela banalidade. Esse estilo ingênuo de humor, que deriva dos versos de circunstância de Manuel Bandeira, não pode competir com os mestres do sarcasmo e da irreverência de nosso idioma, como Gregório de Matos, Bocage, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Glauco Mattoso; é um humor bem-comportado, tímido, funcionário público, de óculos e gravata, incapaz de atingir a força expressiva dos clowns de que falava o próprio Bandeira (“O lirismo difícil e pungentes dos bêbedos / O lirismo dos clowns de Shakespeare”). Acredito que nossa literatura só teria a ganhar com uma poesia, ou antipoesia, coloquial-cotidiana de alta elaboração formal, mas este não é o caso de muitos poetas valorizados pela revista Inimigo Rumor, cuja qualidade literária não está no mesmo nível de sua divulgação publicitária, não apresentando nenhuma aventura intelectual.

 

“A arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos à nossa consciência.” Este pensamento de Pedro Juan Gutiérrez, que serve de editorial ao n. 14 da revista Coyote, define de maneira lapidar a linha seguida pela publicação, dirigida pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes. Não se trata aqui de um grupo articulado em torno de uma proposta exclusivamente literária, já que a literatura não é concebida como mera representação do mundo, mas como algo que nos permite pensar e modificar o mundo. Coyote investe na atitude crítica para manifestar o seu desconforto perante uma sociedade cada vez mais acéfala, construída à imagem e semelhança da indústria de consumo, cujos ícones, na realidade brasileira, são programas de televisão como Big Brother ou os shows de auditório de Gugu Liberato, Faustão e assemelhados. Como antídoto à lavagem cerebral, a revista ataca em várias frentes, publicando desde textos experimentais de alta elaboração formal, como a prosa poética do escritor João Filho, até a tradução de autores estrangeiros pouco conhecidos no Brasil, de diversas épocas e países, como o coreano Yi Sáng, o sírio Adonis, o chinês Po Chu I, o escocês Edwin Morgan ou o dominicano León Félix Batista. Em seus dossiês, a publicação privilegia autores que além da invenção verbal têm uma visada crítica de repúdio à massificação e à banalidade, como a chilena Cecília Vicuña, o mexicano Heriberto Yépez, o brasileiro Roberto Piva.  Coyote também publica obras de fotógrafos e artistas visuais, incentivando o diálogo entre a poesia e outras artes. É uma publicação bem-informada, que tem aberto espaço a poetas e prosadores da novíssima geração, com critério na escolha de autores e textos — e cabe aqui destacar o trabalho de Simone Homem de Mello, autora que reside hoje na Alemanha, que publicou em 2005 o importante livro Périplos, pela Ateliê.  

 

Não poderíamos concluir este ensaio sem mencionarmos a produção de autores jovens que vêm publicando poemas e traduções de qualidade em blogues e revistas virtuais, com destaque para o Papel de Rascunho, de Virna Teixeira (autora dos livros de poesia Visita e Distância), Caderno V, de Daniela Ramos, Folhas de Girapemba, de Ana Maria Ramiro e Uri Geller, de Leonardo Gandolfi, além das revistas Mnemozine, Germina, Confraria e Zunái. A internet hoje é o veículo mais atualizado para quem deseja conhecer o que se faz de mais qualitativo na poesia contemporânea, furando o boicote dos cadernos culturais da imprensa diária, cada vez mais reduzidos à condição de folhetos publicitários. A questão básica, hoje, não é discutir onde está a poesia, mas onde está a crítica.

 

Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, publicou, entre outros títulos, Figuras Metálicas (poesia, 2005), Romanceiro de Dona Virgo (contos, 2004) e a antologia Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil (2002, em parceria com Frederico Barbosa). Escreve no blog cantarapeledelontra.zip.net.

 

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Tanussi Cardoso: algum tempo atrás, o escritor Philip Roth, autor de O complexo de Portnoy, falou coisas muito graves sobre o futuro da literatura, que me deixaram apreensivo. Vou abrir aspas: “Em 10 anos, ninguém mais vai se interessar por literatura. Isso já é verdade hoje. As pessoas têm muitas outras distrações, que lhes dão muito mais prazer. Elas usam aquelas coisas nos seus ouvidos, vêem televisão, filmes, coisas na tela do computador. Os livros estão em via de desaparecer, leitores com concentração estão desaparecendo. O número desses leitores vai ficando cada vez menor. Acho que uma sociedade sem literatura é uma das boas coisas da civilização. Mas as pessoas vão ficar bem sem livros, aliás elas não querem mais livros.” E continua: “Não acho que o papel da literatura na sociedade atual é menos importante do que antes, acho que é sempre importante, o fato de as pessoas não estarem interessadas é outra questão. A literatura sempre parece ter sido parte da existência humana e das civilizações mas não está tendo um papel na vida das pessoas educadas. Não acho que os escritores estão desaparecendo: o público é que sumiu. Não quero dizer que a literatura está morrendo, morreu o público para a literatura”.

 

É uma afirmação assustadora, apesar da postura de marketing que possa estar por trás da entrevista. Entretanto, é algo para se pensar. E, por mais sonhadores que possamos ser, há um pingo de verdade nela. E foi feita por um autor de best-sellers, que não deveria estar reclamando da venda de seus livros e da falta de público. 

 

Enquanto isso, sabemos que a luta do poeta e do escritor brasileiro é a de sempre. A busca para ver sua obra exposta, analisada, lida. Novos ou desconhecidos, poetas e escritores que a mídia não leu, que não interessam aos grandes jornais e revistas, sofrem com o pouco interesse dos editores, que preferem apoiar os já consagrados, os que já têm público leitor, os best-sellers, os livros-de-ajuda, os estrangeiros. Praticamente, todos os poetas pagam para ter seu livro editado. E esta situação vem de sempre. Entre vários exemplos, lembro que Manuel Bandeira vendeu sua máquina de escrever para editar seus livros. Contam que, depois, o poeta ia todos os dias à loja para olhá-la, já que ela fazia parte de sua própria vida, era sua alma e sua poesia.  

 

Numa entrevista concedida por Salgado Maranhão à Luiza Viana, publicada há algum tempo no Jornal Panorama, do Rio de Janeiro, editado por Helena Ortiz, o poeta dizia o seguinte: “Vivemos hoje, no Brasil, o primado da superficialidade. Quase tudo é aparência, afirmação do simulacro. Uma pessoa que se coloque na postura essencial de valorizar o que tem mérito tem que pagar o preço da quase invisibilidade. Boa parte de quase tudo que envolve dinheiro, prestígio e poder é fraudado. A maioria é instigada pela mídia, que se transformou em um grande supermercado e está enlouquecida e enlouquecendo com essa questão do dinheiro. É um verdadeiro orgasmo de consumo. As pessoas estão se esquecendo de si mesmas e nadando apenas na direção do ter. Nesta hora é o momento do poeta chamar para o equilíbrio, que começa na estética e se funde com a ética. Não importa quantos o ouçam. A poesia é para todos, embora muitos não a procurem”.

 

Grande Salgado! Está aí, em suma, o cerne da discussão. O artista em busca de ver sua obra publicada, descoberta. Contra o poder do dinheiro, contra o poder daqueles que só visam ao lucro. O artista contra a mídia, contra o jabá, contra a maioria da crítica que serve apenas ao mercado e ao sistema; somente para reforçar os clichês dominantes; uma crítica que, por covardia ou preguiça, foge dos autores novos e desconhecidos, tranformando-se num mero vendedor do objeto-livro.   

 

E é sob esse retrato que o mundo editorial se apresenta a todos nós. Dizem eles, os editores, que a literatura (leia-se poesia) não tem a resposta exata e imediata do disco, do vídeo, de qualquer hobby da moda. Ora, mas por que as grandes editoras não tratam a poesia como um bom produto de vendas? Resposta: por erro de visão e burrice secular.

 

Criou-se o mito da dificuldade – um barco furado em que muitos acreditam e afundam. Poesia não vende? É claro! Não há distribuição adequada, não há publicidade, não há espaço como o destinado a outros artistas. Nas livrarias, é no andar de baixo que os livros de poesia se escondem. Nos grandes jornais, é preciso humilhar-se para se obter uma nota de qualquer espécie. Os editores repetem que a literatura, e a poesia, principalmente, não trazem dividendos lucrativos em grande escala.

 

É preciso, com urgência, reverter-se esta posição: escritores, poetas, livreiros, editores, jornalistas. 

 

A poesia é, sim, um produto como qualquer outro. Há mercado para ela. Vejam a quantidade de público que lota os eventos poéticos, os festivais de poesia, congressos, bienais etc. Ora, num mundo do markerting como o nosso, basta investir em publicidade que a poesia venderá tanto quanto qualquer produto. 

 

Mas enquanto isso não acontece, diante do fato triste e melancólico dessa imagem de uma cultura distorcida e deteriorada, onde a qualidade não importa, onde os preconceitos assolam, onde a ditadura do poder imola, onde jornalistas pressupõem-se donos da informação e ditam as regras gerais, só divulgando os nomes e as notícias que lhes interessam, o que resta a nós outros, pobres e tolos escritores, acreditando ainda que tudo pode mudar? O que resta ao poeta a não ser criar seus próprios meios para desenvolver seu sonho literário? Que caminhos alternativos ele tem?

 

Ao mesmo tempo, como culpar a imprensa por desdenhar tão inútil objeto – o livro – se ela é um órgão mercantilista e colonizado; se sabemos que poder econômico significa poder literário?

 

Eu comecei a escrever nos anos 70. Algumas coisas melhoraram, outras nem tanto. Vamos tentar examinar alguns tópicos:

 

1)    Se a quantidade de jornais literários independentes diminuiu, a qualidade da impressão, a estética melhorou muito. A profissionalização sob o aspecto gráfico chegou, foi muito bom, veio pra ficar. Mas ainda é ínfimo o número de jornais e revistas que publica poesia, tendo em vista a grande quantidade de poetas (independente de sua qualidade) existente nesse país, ainda mais sabendo-se que mesmo nessas publicações o espaço para poesia é sempre menor.

 

2)    Nos anos 70/80, havia um certo prazer lúdico ao fazermos nossos livros, que vendíamos de bar em bar, de mão em mão, pelo simples direito de resgatarmos um pouco de algo já implícito: o lugar da sobrevivência. Hoje, fazemos um livro pelo direito único de podermos mostrar a nossa arte a um público que queremos conquistar. E pagamos caro por sermos poetas. Editoras menores e independentes vêm surgindo nos últimos anos, construindo com coragem um certo lugar no mundo editorial (não vou citá-las aqui). Infelizmente, quase sempre, cabe ao autor a tarefa de promover o seu livro e a sua divulgação. O poeta torna-se ele mesmo um vendedor de seu nome e de sua obra.

 

Quanto às grandes editoras, elas não jogam no escuro e preferem os consagrados. É a linha editorial que não pensa a Cultura como um projeto maior e literário, mas somente como comércio e dinheiro.

 

3) Outro meio alternativo, atualmente muito em voga, são as sociedades de poesia, ou associações de poesia, ou organizações de poesia. Mas tenho muito medo da maioria dessas associações (felizmente, há sempre as exceções), que chamam de poeta a qualquer um que se filie as suas hostes. Esses grupos, na sua quase totalidade, não estão envolvidos com a linguagem, mas com o ego de seus participantes e com o dinheiro que se possa arrecadar para suas festinhas culturais.

 

4)    Concursos de poesia sempre existiram. É um meio mais do que válido para poetas mostrarem suas obras. Entretanto, está na moda concursos de poesia com taxas exorbitantes, onde os vencedores ganham medalhas e diplomas. Às vezes, publicam uma antologia que se paga através dos próprios poetas premiados. Infelizmente, em sua grande maioria, esses concursos são pura picaretagem, onde a boa poesia some em meio a dezenas de poesias horríveis, e onde meia dúzia de espertos se locupletam em nome da poesia, e do desejo de alguns ingênuos, que acham que assim conseguem mostrar o seu trabalho.

 

Os concursos de poesia, no Brasil, poderiam pagar, além do prêmio em dinheiro, o prêmio de publicação. Mas, igualmente, são raros os concursos que oferecem essa oportunidade.

 

5)    Nos anos 70/80, íamos às ruas, teatros e bares para gritarmos nossa poesia. Hoje, pelo menos no Rio de Janeiro, o grande barato poético são os eventos que há alguns anos inundam a cidade. Esses encontros poéticos são vias alternativas para os textos chegarem ao público, tendo o palco como saída. Publicar poesia é difícil e uma das válvulas para a poesia chegar mais facilmente ao leitor são os recitais. Existem várias maneiras de se encarar esses eventos: com olhar crítico e chato, ou com o olhar desabrido, do prazer e da benevolência. Depois, se perguntar se a poesia ganha ou não com eles. Ou mesmo os poetas. Cada um de nós terá sua resposta e todas elas, com certeza, conterão algumas verdades e contradições. A principal crítica aos recitais é que a qualidade poética fica aquém da quantidade de poetas. Concordo. Há muitos poetas –talvez a maioria- que se apresentam sem a mínima condição, tanto literária quanto de leitura de texto, ou de performance de palco. São egos inflados, muitas vezes. Narcisos sem pouso. Mas esses existem em todas as áreas, nas novelas, no teatro, nas artes plásticas. Aliás, está aí a nossa combalida MPB pra não me deixar mentir. É claro, esses poetas causam um certo desconforto ao ouvinte. É extremamente empobrecedor poeticamente, um desserviço à poesia, pois espanta o público, que tomará verdadeiro pavor de tais eventos e, de quebra, à poesia. Mesmo assim, acho que é um risco válido. Acredito que a quantidade levará à qualidade, e o próprio tempo se encarregará de fazer a escolha dos bons poetas. Afinal, não é só na poesia que a briga quantidade X qualidade existe. Como já disse, também na música, no cinema, no teatro e em toda a literatura existe essa diferença. Por que só a poesia deve carregar esse preconceito? Acredito que os lucros advindos desses eventos são maiores para a poesia do que os prejuízos.

 

Os recitais foram a grande vitrine poética da década de 90 e ainda hoje o são. De todos os níveis e qualidade, com leituras, performances, teatro, música, eles primam pelo respeito ao poeta, à poesia e ao público, que se torna cativo, que quer ouvir poesia, que se integra ao espaço poético, que vibra com seus poetas. De boca em boca, seus nomes vão-se alastrando e, assim, quem sabe, um dia, a mídia, as editoras, tão distantes deles, não lhes dará o devido valor? Quantos poetas começaram a escrever depois desses eventos? Quantos perderam a inibição de falar em público? Na verdade, existe uma platéia ávida, carente de poesia.

 

Entretanto, se existe alguma diferenciação entre o movimento poético do início dos anos 80 e o atual, creio que seja a organização. Aqueles anos construíram literatura e liberdade, atitude poética e política, no contato direto com as pessoas, nas ruas e praças, nos teatros e universidades. Havia algo anárquico e saudável, atrás do desejo comum da troca e do conhecimento, do aprendizado, da ruptura com o sistema vigente. O movimento poético atual baseia-se, principalmente, nos diversos saraus, como se o palco fosse a única saída. Por isso refuto muito a idéia de “movimento poético” atual, que julgo inexistente. O que vejo são “atos poéticos” de vários grupos e indivíduos isolados, sem uma organicidade objetiva, a não ser o desejo único do sucesso pessoal. Poucos estão, realmente, preocupados com a poesia, mas no reconhecimento do ser poeta. “Movimento”, como atitude grupal, nessa conjuntura, perdeu as suas forças, política e social.

 

Mas, com certeza, hoje, a “poesia falada”, ou a “palavra falada”, é tão viva e forte que podemos afirmar que ela se tornou uma espécie nova de modalidade de arte, uma nova linguagem literária, como se a poesia tivesse voltado à sua forma primeva, à oralidade. Esse é um fenômeno que a mídia nem os interessados em cultura podem deixar de considerar. Poesia para todos os gostos, convivendo democraticamente. É quase um gênero em si, com vários poetas lançando seus trabalhos em cd, que por si só, é uma outra alternativa para os poetas mostrarem seus trabalhos. Um outro veículo poético. Infelizmente, ainda tão caro quanto o livro.

 

6) Outra alternativa que vem aparecendo com vigor são os programas de literatura veiculados pelas Tvs a cabo e Tvs educativas. São informadores e formadores de opinião, porém, têm o mesmo pecado de outros veículos: só apresentam escritores renomados, de preferência ligados à grandes editoras.

 

7) E chegamos ao “cyber-mundo”. Ao mundo da internet. Talvez a “cyber-poesia” seja a verdadeira inovação. O ramo das publicações eletrônicas se desenvolve rapidamente, preferencialmente para trabalhos experimentais. Mas tudo me parece muito distante ainda da nossa realidade; é, na acepção da palavra, realmente virtual, de tão improvável para a maioria da população. Os tão falados e quase nunca vistos ou lidos e-books são dúbios, por que suas possibilidades ainda são praticamente desconhecidas. Se já é difícil publicar poemas em livros impressos, o que dizer num formato ao qual a grande maioria não tem acesso?

 

Os poetas unem-se em listas de discussões e chats, criam páginas na internet para mostrar seus trabalhos. Os sites culturais de literatura e poesia são uma grande alternativa para se difundir a poesia. Grande número de poetas está se fazendo conhecer e à sua obra, através da internet. O acesso é cada vez mais simples, e o escritor desconhecido tem a chance de tornar-se conhecido nos círculos literários, de link em link, de blog em blog. 

 

Mas será que é verdadeiro, real, que aqueles que abrem esses sites o lêem mesmo? Têm tempo de conhecerem sua obra? Não terão todos uma visão fragmentada e fragmentária dos poetas? Conseguem aprender, apreender o que lhes é passado através da telinha? Terão paciência para ficarem sentados diante de um computador lendo páginas e páginas de poesia e de textos, muitas vezes ruins e cansativos? Tenho minhas dúvidas…

 

Será que já fizeram uma pesquisa científica sobre o que lêem os internautas? Sobre quem é o leitor de textos literários da internet? São perguntas, creio, para serem pensadas. E, é claro, longe de mim desdenhar dessa forma de comunicação, válida e importante, pois, se, como em todos os outros veículos de comunicação literária, há, na rede da internet, muito joio, também há vida inteligente e excelentes iniciativas.

 

Sou do tempo em que os poetas trocavam. Tudo. Experiências, sucessos, frustrações. Do tempo em que havia uma comunidade poética real, viva, solidária. Nessa troca, havia crescimento, através das conversas, das reuniões, do ouvir-se o outro, de aprender-se com o texto do outro. Agora, apesar de estarmos muito juntos, estamos mais sozinhos. Cada um quer saber do seu caminho, do seu sucesso, da sua poesia. A globalização, essa espécie de totalitarismo, com sua instantaneidade, quebra as distâncias, une e nivela tudo. Ela chegou até nós da forma mais mesquinha possível: a de ver-se o outro como rival e não como parceiro. Como no Big Brother, cada um por si e todos por mim.

 

Sou do tempo em que se escreviam cartas, uma das alternativas de crítica, de conhecimento de outro escritor e de fazer seu nome circular por todo o Brasil. Trocavam-se livros, revistas e jornais. Um poeta publicava o outro em seus jornaizinhos precários, quase sempre em mimeógrafos, e assim nossos nomes circulavam pelo país. 

 

Agora, temos o imediatismo dos e-mails, falamos com todo mundo no mundo todo, e estamos mais sozinhos. Essa tecnologia e sua maneira fria de se fazer apresentar/representar. Sem rosto e, muitas vezes, sem alma. Sei que posso parecer retrógrado e romântico, mas é o que sinto… 

 

Em resumo, creio que mesmo com a alta tecnologia, com a internet, com os e-books, chats, blogs, enfim, apesar de todos os apelos virtuais, o livro, no papel, permanecerá vivo, como a grande via alternativa de cada escritor. A edição eletrônica não o substituirá por que são linguagens diferentes e, com certeza, o texto eletrônico e o livro impresso se desenvolverão paralelamente, cada um com sua linguagem específica.

 

Não acredito que o livro impresso corra o risco de ser extinto, no futuro. O livro traz um prazer lúdico, táctil, que não existe em nenhum outro meio. Da mesma forma que o cinema não destruiu a TV, a Tv não acabou com o rádio, nem o CD destruiu o LP (vide a febre dos Djs), o livro impresso será sempre o melhor veículo para a leitura de textos.

 

Certa vez, a nossa maior cantora, Elis Regina, disse numa entrevista, mais ou menos assim: “Eu faço shows, gravo vídeos, programas de TV, mas o palco é brilho efêmero. O que eu faço com maior prazer e orgulho é gravar meu disco, por que eu sei que é com ele que vou poder ficar para a eternidade. É com meu disco que minha voz será lembrada para sempre.”

 

Pois faço uma paráfrase do pensamento da Elis: “Poeta pode fazer performances, gravar CDs, ter sites na internet, mas o que fará dele um nome para o futuro é o seu trabalho com a linguagem, a sua técnica, a sua boa forma, a sua emoção. E o seu livro, lido no silêncio de um canto qualquer desse mundo”.   

 

Não há como se fazer um perfil completo e único da poesia brasileira contemporânea, pois ainda não temos a distância temporal necessária para exercer tal crítica. Entretanto, se existe uma característica, me parece ser a grande heterogeneidade de estilos e temas. Misturam-se poetas com tendência refinada e tradicionalista àqueles que preferem a modernidade dos versos livres. Escreve-se soneto, cordel, poemas com características orais, outros surrealistas, faz-se colagens, volta-se à arte-postal, faz-se poesia concreta, visual, embaralham-se temas de uma lírica atemporal à linguagens tecno-visuais, enfim, há poetas e poemas para todos os gostos e correntes, convivendo numa espécie de ecumenismo poético. Ou seja, uma literatura poética de estética heterogênea, multifacetada, dividida entre o experimentalismo e um poema elaborado em densidade, isto é, uma poesia que passeia por vários gêneros, vanguardistas e tradicionais, com experiências diferentes de conceito e forma.

 

Mas vejo, principalmente, um retorno aos grandes temas existenciais. A questão da morte e de Deus, as razões do fazer poético, encontram-se em Armando Freitas Filho, Ferreira Gullar, Afonso Romano, Ivan Junqueira, Carlos Nejar, Luis Cassas, Lêdo Ivo, Adélia Prado, Astrid Cabral, Eucanaã Ferraz, Alexei Bueno, Fernando Py, Salgado Maranhão, Gilberto Mendonça, Antonio Carlos Secchin, Carpinejar, entre outros… São perguntas que voltaram com força, nesses tempos niilistas.

 

Poderia dizer, também, que os poetas estão muito “sérios”, parece que perderam a alegria, ainda existente, por exemplo, em Glauco Mattoso, Nicolas Behr e Chacal. Creio que estamos levando muito a pau e ferro o  que chamamos de literatura, correndo o risco de fazê-la uma velha senhora chata e ranzinza, com gosto acadêmico e mofado. Com certeza, anda faltando humor na poesia atual.

 

Por outro lado, sinto que a quantidade é muita, mas a qualidade é pequena. A maioria dos poetas escreve de maneira muito parecida, além de ser extremamente presunçosa. Há um grande número de poetas falando sobre nada (e não falo sobre Manoel de Barros), poetas e poemas frios, matemáticos, calculados (e não falo de João Cabral), belamente ocos e sem emoção. Também existem os eloqüentes, catedráticos, falsamente filosóficos, que no fundo têm medo da exposição pessoal, e são igualmente ocos. Esses não me interessam. Só me interessam poetas e poemas que rasgam a alma e o verbo, que se desnudam. Como digo no poema Da esperança, do livro Exercício do olhar: Não quero escrever sobre paredes./ Paredes não sangram”. Ou, como queria Verlaine, em sua Arte poética: “Que teu verso seja um bom acontecimento / esparso no vento crispado da manhã / que cai florindo a hortelã e o timo… / E tudo o mais é só literatura.”

 

A que se deve o desinteresse pela leitura e pela literatura? O que poderia ser feito para divulgar mais a poesia? 

 

Essas perguntas dariam páginas para várias teses e poderiam ser respondidas por vários ângulos: o problema da globalização, a falta de interesse do poder público, a massificação televisiva, os jogos eletrônicos, a internet, a velocidade dos dias atuais, já que o livro necessita de um tempo específico e pacífico para se concretizar melhor enquanto entretenimento, etc e tal.

 

Alguém, talvez mais cínico ou realista, poderia perguntar se, afinal, precisamos, realmente, de livros, música, da arte em geral, para viver. Não acatando respostas do tipo “a arte é o alimento da alma”…, esse homem pragmático acredita que toda arte dá prazer, mas não é absolutamente vital. Vital é a comida – a que mata a fome física, não a espiritual. Daí a dificuldade de se cobrar ações efetivas de professores, alunos e família, quando sabemos que estamos todos, antes de mais nada, trabalhando e elaborando questões para solucionar sobre a nossa sobrevivência imediata, a nossa fome, o nosso vestir, o nosso teto.

 

Essa, me parece, a questão crucial de nossa cultura e educação. E é extremamente injusta para os artistas, escritores, poetas e para todos os que amam a poesia e a literatura. Para aquele homem pragmático, poderíamos responder com Borges: “Uma forma de felicidade é a leitura”.

 

Relativamente à poesia, seu ensino em sala de aula é fundamental para incutir nos alunos o prazer da sua leitura. Entretanto, o ensino de poesia, quando existe, vem somente como atividades e exercícios oferecidos pelos livros didáticos, quando os alunos, ao invés de usufruírem o prazer do texto, se vêem submetidos a discutir gramática e ortografia, esquecendo-se o professor de lhes mostrar o seu valor literário. E tome enquadramentos barrocos, modernistas, simbolistas etc. É como se lhes tivessem colocado uma camisa-de-força. Esse erro de visão é terrível e afasta qualquer aluno da poesia. É um desestímulo.

 

Ora, a poesia tem que ser vista como algo lúdico, sonoro, musical, não como uma obrigatoriedade de tarefa escolar. Esse prazer pelo poema deve começar na escola, pois a poesia necessita de leitor especializado, que deverá ser formado gradativamente, do maternal à universidade.

 

Há que se tentar tirar o mofo da poesia, ou melhor, tirar o mofo da maneira de ensiná-la, pois a literatura deve ser algo vivo e vibrante. E é do prazer que nasce a disciplina e o desejo do aprendizado.

 

Outro aspecto que me causa estranheza é que, em quase a sua totalidade, o ensino de poesia nas escolas e universidades, dificilmente ultrapassa o modernismo de 22. No máximo chega a Drummond, Cabral, à Geração 45. Quase nunca se estudam os poetas contemporâneos, como se todos os poetas brasileiros já estivessem mortos. Me lembro sempre do Gullar contando que quando saiu do Maranhão e chegou ao Rio de Janeiro, tomou um susto quando viu e conheceu um poeta vivo, já que ele só havia lido, até então, poetas mortos, e pensava que não existiam poetas vivos. Claro que há nessa narrativa do Gullar um exagero, que é muito peculiar ao seu humor, mas há, subjacente, uma crítica feroz que corrobora o que disse acima.

 

É óbvio que há muitas formas de se responder a essa questão: a preguiça intelectual do professor, a falta de estudos significativos existentes sobre os novos poetas, a falta de tempo para pesquisa etc. Por se tratar de produção muito recente, há dificuldade de se debruçar sobre ela, talvez por isso lidar com autores contemporâneos pode ser algo doloroso, devido, principalmente, a quase total ausência de fortuna crítica. Assim, os mestres preferem os velhos cânones acadêmicos, que já vêm mastigados e deglutidos. Os professores, em sua esmagadora maioria, não passam de técnicos de sala de aula, como se não dispusessem de liberdade para pensar por si mesmos e fazer pensar. Não deseja lidar com a responsabilidade e o pioneirismo de aplaudir ou execrar um escritor, já que o futuro poderá desmenti-lo. Daí, aceita passivamente o que o sistema lhe enfia goela a dentro, através da grade curricular. Prefere repetir a meia dúzia de autores sempre viciosamente estudados, aplicando a mesma fórmula, repetindo o já escrito por milhares de vezes. Virou um autômato. Escravo do método.

 

Voltando à quase ausência dos poetas contemporâneos em nossas faculdades, poderíamos fazer aqui, a grosso modo, uma síntese imperfeita de vários movimentos poéticos ocorridos na nossa literatura, nas últimas décadas, e que, praticamente, continuam sem serem lidos, estudados, ensinados em nossas Universidades. Me desculpando pela pressa da explanação, poderíamos resumi-los da seguinte maneira:

 

– em 1956, tivemos o início do movimento concretista, com Augusto, Haroldo de Campos e Décio Pignatari;

 

– em 1959, nasce o neoconcretismo, através do Suplemento Dominical do JB, com Gullar e Reinaldo Jardim;

 

– em 1957, em Minas, surge o Grupo Tendência, com Afonso Ávila;

 

– em 1962, aparece no Rio, a coleção de poemas do Violão de Rua, onde, para Affonso Romano, começa o encontro da MPB com a poesia literária; e em São Paulo, acontece a Práxis, do Mário Chamie;

 

– em 1967, o poema-processo, com a figura extraordinária de Wladimir Dias-Pino;

 

Se considerarmos, também, a explosão do tropicalismo, em 1968, como um movimento lítero-musical, onde se misturam Caetano, Oswald e concretos, o panorama poético não utilizado em nossas universidades aumenta muito.

 

E não podemos nos esquecer que, durante toda a década de 60 e 70, eclodiu o Movimento Marginal, ou da Poesia Independente, dos quais muitos dos que fazemos poesia atualmente fizemos parte, e que deságua nas chamadas Gerações 80 e 90.

 

Esse é um resumo tosco e nada didático do panorama de nossa poesia nas últimas décadas, infelizmente, passada despercebida pela maioria de nossos professores e acadêmicos.

 

Tanussi Cardoso  é formado em Jornalismo e Direito. Poeta, crítico, contista e letrista de MPB. Tem seis livros de poesia editados, entre eles, Exercício do Olhar, Ed. Fivestar, 2006. É o atual presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro (SEERJ).

 

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Sérgio Medeiros: a poesia brasileira hoje está assim: eu escrevo a minha poesia, tu escreves a tua, os outros escrevem a poesia que lhes compete etc.. Não tem mais um mestre, uma referência. Isso é coisa do modernismo, do passado. Porém, existem grupos, e esses grupos são comunidades de poetas que dialogam e se apreciam ou toleram. São comunidades precárias (quase sempre são comandadas por um cacique), mas são visíveis, de qualquer modo, na cena da poesia brasileira. É muito mais difícil sobreviver sem comunidade. A internet inclusive enseja a formação de novas comunidades on line. Não sei se todos conseguem escolher de fato a “sua” comunidade; parece-me que freqüentemente a escolha da comunidade é casual, não pode ser calculada, já que há grupos fechados, o que não quer dizer que sejam menos ecléticos ou arbitrários do que outros. Todos são tolerantes, a seu modo. Os caciques são voluntariosos. Essa é a regra de funcionamento das comunidades poéticas.

 

Um cacique interessante, hoje, é Douglas Diegues, que criou uma comunidade latino-americana, situada nas fronteiras dos corpos e das línguas, e lançou, inclusive, um tipo de movimento, o portunhol selvagem, algo visionário, irreal mas também efetivo, capaz de gerar produtos poéticos. Douglas consegue entrar em muitas comunidades e trazer para a sua gente de todos os lugares. Então o fluxo de idéias e produtos é muito bom, intenso às vezes, na comunidade dele. 

 

Para ser mais pessoal, direi que eu mesmo me considero um pequeno cacique, pois, através do site www.centopeia.net , que edito há dois anos com Dirce Waltrick do Amarante, estou tentando estabelecer um diálogo (nem sempre direto) entre a poesia e as artes plásticas, que hoje me interessam muito, mais até que qualquer outra arte. Conto com a colaboração de dois curadores, Fernando Broppé e Victor da Rosa, que mantêm no site uma galeria virtual. Essa tem sido a estratégia da nossa comunidade: poesia com artes plásticas (e aqui emprego uma idéia que me foi passada pelo crítico Raúl Antelo), uma ao lado da outra, as duas juntas, em fusão e/ou cisão etc. Uma não é modelo, paradigma para  a outra.  

 

Sérgio Medeiros, poeta e tradutor, verteu para o português o poema maia Popol Vuh

 

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Linaldo Guedes: A poesia brasileira vai muito bem, obrigado. A Internet conseguiu ampliar o raio de ação dos poetas contemporâneos, além de incentivar o intercâmbio entre eles. Isso faz com que todo mundo conheça todo mundo. Fica mais fácil saber o que anda acontecendo simultaneamente na Paraíba e no Mato Grosso, por exemplo. Uma prova dessa circulação da poesia contemporânea pelos quatro cantos do país hoje está nos eventos literários, tipo bienais, feiras de livros e festivais. Creio que nunca os jovens poetas foram tão valorizados nesses eventos.

 

O que atrapalha a poesia brasileira é a síndrome de metonímia. Chamo de síndrome de metonímia aquela história de trocar a parte pelo todo em nossa poesia. Funciona mais ou menos assim: João inicialmente gosta da poesia de José. Só que um dia, João conhece a ideologia (principalmente literária, mas não se descarta a ideologia política também) de José, totalmente contrária à sua, e só por isso passa a atacar a poesia de José. Ou seja, o personagem José passa a ser muito mais importante para João do que a poesia de José. Confunde a parte (o personagem) pelo todo (a poesia). Daí, nesta confusão metonímica, acaba se adaptando o poema “Quadrilha”, de Drummond, para a poesia contemporânea: João que odiava José, que odiava Maria, que odiava fulano…

 

É isso. A poesia brasileira contemporânea está virando um grande ringue de boxe, onde se observa muito mais as posições políticas, ideológicas e literárias do poeta do que propriamente a qualidade de sua poesia. E acabamos assistindo, em pleno século XXI, guerrilhas literárias que beiram ao ridículo, onde seu passe poético só passa a ter valor se você se alinhar e tomar partido por determinado grupo que exista em nossa cena literária.

 

Como não tenho nada a ver com isso, aprendi a gostar de poesia lendo Gregório de Matos e Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Drummond, Cabral e Oswald de Andrade, Vinicius de Moraes e Castro Alves, consigo perceber o quanto existe coisa boa na poesia brasileira hoje. Em todos os estilos, e cito alguns aqui, mesmo correndo o risco de omissão de um ou outro: Augusto de Campos, Ademir Assunção, Amador Ribeiro Neto, Astier Basílio, Fabiano Calixto, Antonio Risério, Sérgio de Castro Pinto, Rodrigo de Souza Leão, Manoel de Barros, Ana Ramiro, Ana Rüsche, Virna Teixeira, André Ricardo Aguiar, Cláudio Daniel, Édson Cruz, Frederico Barbosa, Alexei Bueno, Afonso Romano de Sant´Anna, Antonio Mariano, Lau Siqueira, Ferreira Gullar, Chacal, Nicolas Behr, Rodrigo Garcia Lopes, Marco Lucchesi, Francisco Carvalho, Neuza Pinheiro e outros, só para ficar em alguns contemporâneos. 

 

Pela diversidade de estilos nos nomes acima citados, percebe-se que temos muita qualidade na poesia brasileira contemporânea. Talvez, se deixarmos a síndrome de metonímia de lado e esquecer as guerrilhas literárias, percebamos essa riqueza e passamos a valorizá-la com mais intensidade. Não é admissível que em tempos de diversidade sexual e social, a diversidade poética não seja respeitada ainda.

 

Linaldo Guedes é poeta e editor do jornal Correio das Artes. Reside em João Pessoa (PB).

 

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Tavinho Paes: Identificar com precisão o que está acontecendo com a Poesia Contemporânea, multiplicada à exaustão de suas infinitas capacidades sensoriais e servida por um parque de diversões totalmente multimidiado, é como jogar dominó com pedras hiperfragmentadas, oferecidas a jogadores que não desejam restringir seus lances a nenhuma regra, nem submeter suas subjetividades egocêntricas a qualquer identidade factível de ser controlada por poderes que se estabelecem à revelia de seus desejos pessoais. Sem vencedores ou vencidos, sem começo ou fim e fora dos parâmetros das trivialidades domesticáveis, o que está em funcionamento neste território arredio à lógica não carece de conceituações, modelos ou metodologias acadêmicas; sem falar que o controle de seus conteúdos pode ser monitorado por índices ideológicos institucionais à mercê dos programas do estado, mesmo quando representado pelo viés do setor privado, receptor de incentivos pra lá de combinados.


O fato de rejeitar fundamentalismos tem a ver com as transformações ocorridas no cenário geopolítico do século passado, confirmando que este é um século que, apesar da inócua evidência dos pós-modernismos, ainda está por ser inventado. Já a tendência de tratar a história como se fosse um mero arquivo cumulativo de temporalidades fenomenológicas que se sucedem ao acaso; longe de ser atestado como vetor de uma revolução embrionária (capaz de aperfeiçoar tanto o mundo, quanto o homem que não para de modificá-lo), do ponto de vista estético, não passa de uma postura arrivista e conservadora, consubstanciada nos escombros das utopias deixadas ao relento pela Glasnost (do russo: transparência) e sua irmã gêmea, a Perestroika (do russo: reconstrução). O resultado deste desmonte é um paradoxo que não pára de se expandir: depois da guerra fria e do fim das ditaduras no cone sul das Américas, surgiu no falso conforto da democracia neoliberal, sustentada por sufrágio universal, uma liberdade sem sujeito, na qual o movimento das idéias concentra-se num sujeito cheio de liberdades. Investigar a produção de Poesia num universo em que as contingências sócio-dinâmicas submetem o engenho humano a forças tão anárquicas é quase similar a realizar uma autópsia num cadáver que acabou de ser integralmente cremado.


Um ambiente entrópico, no qual as liberdades parecem acomodadas num divã psicanalítico vomitando idiossincrasias e debochando da ética, não permite que sejam compatibilizadas as ofertas do tempo presente (com seus correlatos futuros e passados) com as demandas do dia-a-dia das sociedades civilizadas. Zombando com uma soberba inestimável das urgências e atrasos exigidos por uma realidade confusa que a tudo compacta e absorve, fica tão dramático quanto insólito insistir em exibir a intensidade das faltas e a insatisfação dos desejos através de ferramentas como um verso ou um texto em prosa.


Deve ser por conta desta mórbida esperança sem opções, absolutamente manipulada pelos meios de comunicação e pronta para ser digerida pelo lumpesinato de todas as camadas sociais, que a Poesia Contemporânea tende a traduzir em sua produção atualizada, uma objetividade que generaliza tudo que for para consumo imediato, tornando epifânica qualquer coisa que o mercado eleger como sucesso pragmático. Em circunstâncias como essas, a  fragmentação do óbvio supera qualquer posicionamento crítico; bem como a auto-crítica de quem está submisso às tais leis do mercado, sem recursos dialéticos e insuflada por uma busca de prazer a todo custo, vai acabar espelhando um Narciso que se identifica com o peixe que ele acha que vive no lago, apesar das águas poluídas e turbulentas que fazem seu espelho clássico parecer mais com um caleidoscópio do que com uma fotografia de sua cara descarada.

 

O neonarcisismo destes tempos vadios impõe uma beleza que está muito aquém das facilidades funcionais (quer oferecidas como entretenimento, quer incorporadas às múltiplas faces da cultura) que até ao olhar escapam, quando não o cegam com um cisco capaz de comprometer toda a maravilhosa operação das retinas. Ofertada com a gratuidade a que está condenada com uma produtividade quantitativa superior a qualidade dos conteúdos realizados, a Poesia Contemporânea tornou-se uma ineficaz anestesia para uma dor que superestima coisas tão passivas como a PAZ, contemplando-se a si mesma com se fosse uma violência, na qual há uma exigência por segurança que nenhuma utopia seria capaz de sustentar.


Acaso houvesse outra configuração para o território mapeado, o posicionamento dos poetas poderia ser bem diferente. Por exemplo: a insegurança, esse demônio associado à idéia de que todas as mazelas deste mundo estão submetidas à Lei de Murphy, instigaria a Poesia Contemporânea a se questionar quando visse seguranças contratados presentes em tudo que é festa ou acontecimento social relevante: como será que essa força de ataque, domesticada pela urgência de empregos e sub-utilizada para agir como uma falsa força de defesa, reagirá num momento de crise social? Você não acha que há algo de errado nisso, depois que o cidadão comum escolheu proibir a venda de armas nas ruas, votando sobre um assunto referendado sabe-se lá por quê?

 

Em meio a esse sórdido tiroteio de balas perdidas, algo me diz que a Poesia Contemporânea é uma criança que não gosta de estudar: já sabe tudo e nada mais quer acrescentar, comunicando-se como um hiper-ativo tão travesso que, brincando consigo mesmo, vê a vida como se ela fosse um brinquedo que, ao custo das depressões e do desassossego, só há de se quebrar quando lhe matar…

 

Politicamente falando, premente às coordenadas de tempo fixadas neste ano de 2008, a produção poética contemporânea, isenta das censuras da ditadura e da geopolítica da guerra fria, mesmo agindo num território de liberdades utilitárias e razoavelmente confiáveis, apresenta-se como o indicador de uma inquietação instigante que, apesar dos desconfortos, ainda é muito pouco percebida. Releve-se o fato de que a prática da dialética esteja temporariamente de molho e que a democracia em funcionamento seja satisfatória. Mesmo que à base de poemas frágeis e atitudes mais levadas à bagunça do que ao colapso de instituições repressoras, a produção poética dos dias de hoje, com toda a barafunda ideológica e muita desatenção aos fatos e acontecimentos, está pondo na berlinda justamente o ideal que levou muita gente à luta armada por justiça e igualdade: a LIBERDADE.

 

Não é à toa que todas as possibilidades disponíveis tornam quase impossível aumentar a capacidade do ser humano de desfrutar e alcançar a felicidade.

 

Parece inacreditável, mas a Poesia Contemporânea tem uma fome que cresce cada vez que é alimentada…

 

NOTA 1: na falta das utopias: um livro, um filme ou uma peça de teatro. Na falta das ideologias: uma idéia ou uma filosofia. Na falta da doutrina: a poesia …só a poesia!

 

 …ah, como será importante esta Poesia que vai aos livros, que se entrega aos microfones: como é sonsa e magnífica. No fundo, tende às imagens e ao exercício de uma rebeldia sem causa flagrante nos histéricos que, aos gritos, propagam sua existência como sinais de um sonar. A Poesia nunca foi uma técnica nem jamais há de se controlar: não adianta segurar que ela acaba dando um troço.

 

Desde os gregos que se sabe: na dor e na morte existe um filamento de vida tão incandescente que é capaz de lançar luz onde só há escuridão. Nem os deuses das mais primitivas religiões duvidam que viver é extremamente perigoso, e que o perigo está latente em tudo aquilo que se quer controlar.

 

O Poema Contemporâneo, mimesis contraditória de clichês românticos e clássicos, está sendo bem dito mesmo quando é maldito. Rejuvenesceu tanto que se infantilizou, externalizando opiniões sobre patologias transitórias, num tempo em que até o caráter tem seu preço fixado pelo mercado. Apesar de todas as suas deficiências e inaptidões morais, bem ou mal, em círculos bem restritos, os poemas têm contribuído para impedir que se propaguem diagnósticos para essas patologias inverossímeis que venham a inventar doenças para remédios que acabaram de ser criados. Drogas prontas para fazerem ações de laboratórios multinacionais subirem nas bolsas globalizadas, garantindo hipocritamente empregos e salários para um contingente de gente doida por trabalho…

 

O Poema Contemporâneo, escriturado como quem desenha bichinhos nas paredes de uma caverna, muda constantemente quando é falado; mesmo que os surdos os absorvam como ruídos incidentais de uma ligação telefônica grampeada. A Poesia Falada, constante na maioria dos saraus em curso em várias cidades, é um fenômeno global com a capacidade de editar conteúdos ao vivo, em pleno trânsito das leituras. E não é só essa particularidade estilística que potencializa sua presença nas sociedades contemporâneas. Já surgiram até os que fazem dos versos de outrem material de referência pessoal, transferido ao público laico como índices de capacitação individual. Mas, nada se compara a um pequeno detalhe: nos anos da guerra fria, era significativamente mínimo o números de mulheres tomando a palavra em saraus. Hoje, elas não só dividem meio a meio o espaço de atuação como são infinitamente mais enfáticas na difusão de idéias. Hoje, diante de certas poetas (poetisa é um termo que não serve mais para identificá-las), quem fica de saia justa é o Clube do Bolinha, incluindo os gays e suas catervas especiais…


Girando aleatoriamente a metralhadora cheia de lágrimas, pode-se afirmar que o Poema Contemporâneo é um cão danado que sai de todos os cantos da cidade abanando o rabo, apresentando o neném ao útero fecundado e a cova ao cadáver mumificado. É átomo submetido à fissão à frio, criando calores que podem endurecer um pênis e fazer uma vagina lubrificar-se com óleos e suores, fazendo o pecado esquecer sua culpa e desculpar aquele que o praticar de modo voluntário. Sexy como um gibi do Carlos Zéfiro (hoje vendido até em sebos de luxo), o Poema Contemporâneo, dependendo do freguês e da ocasião, é tão oral quanto anal…

 

A modernidade do Poema Contemporâneo é camaleão andando em arco-íris; vídeo caseiro no You Tube, podcast no iPod, texto num palm-top. Se virar livro, só publicará seu desejo velado de estar sendo publicado. Gosta de música, vai ao cinema, anda no teatro e, botando o galho dentro, dança sem perder o rebolado. Do jeito que a coisa vai, Poesia é algo que está se multiplicando na grande rede mundial à revelia dos puros e contando com a ingenuidade dos putos, na hora dos recreios das escolas.

 

O Poema Contemporâneo desembestou e está pondo fogo na lona do circo. É assim mesmo: esdrúxulo, metido, desaforado, profícuo, maluco, irado, besta, burro, endemoniado. Não quer fazer do poeta um artista, um intelectual. Nem guru nem mago. É pura cartografia de um mundo que demanda novos mapas, onde cidades inteiras estão para ser fundadas; países exigem novas capitais; rios desejam se atirar em cachoeiras e estradas necessitam ser traçadas, mesmo que saindo de lugar nenhum e chegando ao nada…


O Poema Contemporâneo é hiper-ativo, vagabundo, cheio de rimas pobres e versos que não valem sequer um tapa na cara. Não fornece dados empíricos para que nenhum saber possa assimilar seus conteúdos vagos, criando uma escola, na qual o mestre se supera sempre que pelo aluno é superado; colégio em que se mata aula e não se é reprovado. Está no olho do furacão com seu leme avariado, vendo as velas lhe levarem por um mar de sereias; qual moinho que vira dragão diante de um Quixote apaixonado. Não pensa e existe nem existe porque pensa: só existe quando o pensamento que, por séculos, o leu calado, sente seu bafo na orelha e escuta, aos gritos, seus palavrões sem palavras…

O Poema Contemporâneo não é só verso branco nem rimado: é língua que se dobra e, dobrada, se desdobra numa vertigem de fôlego e imagem; atropelando, sem papas na língua, a carne viva da linguagem…


O Poema Contemporâneo desses tempos infames é um vagamundo girando numa roda gigante, procurando Deus e o Diabo num carrossel de unicórnios alados. É um alienígena similar aos ventos solares, irradiando sofisticada energia sub-atômica, interrompendo a comunicação exagerada dos óbvios ululantes, descodificando o Cogito, lavando a alma e dando outra chance ao espírito excomungado.


Não é concreto nem parnasiano; nem simbolista nem modernista; nem lúcido nem mentecapto: aceita-se como se aceita um vício, seja ruim, inútil ou chato…

O Poema Contemporâneo é eterno enquanto dura sua inspiração homeostática: evapora como éter e desaparece no mesmo instante que desliga sua máquina… Maquinaria desejante de engrenagens mágicas que, ao poeta, promete um status tão importante quanto o de miserável…

 

NOTA 2: Não existem poetas bons ou ruins, nem poetas melhores ou piores; o que existe são poetas editados e não-editados e quem tem o poder de decidir sobre a edição ou não deste ou daquele poeta, fato teoricamente industrial e razoavelmente comercial, é responsável direto pela existência das duas categorias não existentes, criadas por razões única e exclusivamente políticas.

 

…de repente, o Poeta pulou o muro do hospício e notou que o sol que brilhava nas ruas era o mesmo que ele via no pátio da cidadela onde foi trancafiado (com a vantagem de que ele continua a ver este sol na lua). Subitamente, sem qualquer razão aparente, o Poeta tornou-se figurinha fácil e carimbada em reuniões em que estão presentes os mais diferentes segmentos sociais, gente de todas as idades, credos, sexos, raças, regionalismos e ideologias. Não chega a ser vulgar; muito pelo contrário, tornou-se VIP e freqüenta áreas de exclusão com pulseirinhas de acesso à mordomias de baixa qualidade…

Na onda que começou a se espalhar pela praia, junto com gente de muito talento, apareceram os doidos mais variados. Também entraram em cena: chatos de todos os níveis (incluindo os insuportáveis, os pegajosos, os invejosos e os vampiros anêmicos dispostos a sangrar otários); os oportunistas (mais marotos do que malandros); os vigaristas (há casos relatados de tipos que usaram o nome de eventos e dos poetas que deles participavam como organizadores para abiscoitarem patrocínios que nunca chegaram ao seu destino); os tarados (mais agoniados do que perversos); os drogados (e ex-drogados reformados pelo positivismo dos AAs e NAs); os malucos (sedados ou não); e os bêbados, cuja maioria se dá pelo simples fato de serem incentivados a doar o fígado em prol de um divertimento que acaba se tornando inútil, contraditório e bizarro…


…de repente, todo mundo se sentiu apto a ganhar o apelido de Poeta, falando de amores que nenhum Cupido entenderia, com versinhos de quem foi fodido e mal pago. Atores de escalões próximos às figurações mais ordinárias saíram das ribaltas para subirem degraus na nova escada disponibilizada, portando-se como Artauds de segunda classe e cometendo crueldades dignas da mais insuportável piedade. Problemáticos e desajustados conheceram nas rodas de poesia, amigos que jamais poderiam ter conhecido em outras searas e, em certos eventos, tal e qual acontece nos cultos protestantes, deram testemunho de viva voz de suas melhoras psíquicas com depoimentos emocionados (só faltou mesmo o brado de Aleluia!). 

 

Fato é que o Poeta Contemporâneo tornou-se suspeito de um crime a ser cometido muito antes de ter sido realizado. À sombra de papagaios ignaros, falando uma língua que parece ter sido criada como um dardo para uma zarabatana engasgada, o Poeta Contemporâneo protege o que diz na voz de quem o ouve calado. Escreve poemas como testamentos em que os bens a serem distribuídos após seu falecimento não podem ser mensurados em centavos. Como um bicho-da-seda atarefado, entrega seus casulos melados para que abelhas operárias produzam mel com o pólem das flores do mal que um moderno cultivou num jardim do passado.


O Poeta Contemporâneo pega a pedra que Drummond entreviu no meio do caminho e a instala numa funda capaz de derrubar Golias com a verve dos goliardos. É um Macunaíma com mais ética do que muitos deputados. Usa a camisa amarela de um russo para passear com americanos que caíram na estrada. É um antropófago que só come carne assada em fogueira de churrasco. Sabe que Rambo não é Rimbaud, apesar das armas que estão sendo traficadas a torto e a direito ao seu redor e ao seu lado. Traficante de ilusões, tornou-se um marginal que mimeografou seus lixos pseudo-literários na esperança de vê-lo política e corretamente reciclados num futuro capaz de constranger qualquer identidade com o passado. Desafia os pudores da academia com seu violento e coloquial funk suburbano, acintosamente sincopado e capaz de fazer com a gramática uma salada de alhos com bugalhos. Canta bossa-nova desafinado. Navega num navio negreiro de escravos alforriados.

 

O Poeta Contemporâneo não é um fingidor que finge ser dor a dor que deveras sente: é um agoniado que tenta se livrar de um carma para o qual nem seu corpo nem sua alma estavam preparados. Em muitos casos, afinado às tendências que o escravizaram no círculo de giz caucasiano do neo-narcisismo alienante das baladas noturnas de Poesia Falada, vaga num mundo de ilusões cheio de ciladas. Não tem certeza sobre nada, mas repete verdades como quem se livra de roupas usadas. Não tem garantias, direitos, cidadania, aposentadoria, plano de saúde nem um emprego estável com a atividade encantada pela qual labuta até os confins das madrugadas. Só sabe que o jogo em que está metido corre solto à sua volta e, mesmo com cartas marcadas, intimamente ele reconhece que o acaso estará do seu lado a cada novo lançamento dos dados…

 

NOTA FINAL: Os poemas conhecem a poesia de seus poetas. Os poetas conhecem a poesia de seus poemas. Já a poesia que os surpreende depois, independe totalmente do conhecimento dos dois. 

 

Tavinho Paes tem 111 títulos de poesia e prosa poética, publicados de forma independente, do mimeógrafo ao xerox. 249 músicas gravadas, como letrista. 14 eventos e festivais de poesia, como diretor e apresentador. 16 jornais, como articulista e editor. 13 sites e blogs ativos na web. 22 video-clips como diretor e roteirista. Em 2008,  publicou 5 DVD-books (livros escritos à luz) contendo 80 videopoemas audiovisuais e 9 livros de poesia.

 

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