LÉGUAS DEL LENGUAS [de Eduardo Jorge]

 

Da série Serpes

Da indi in qua mi fuor le serpi amiche 
(serpes me foram desde então amigas)

Dante. Inferno: Canto XXV


LÉGUAS DEL LENGUAS


a língua foi crescendo: os lábios desencontraram-se num rasgão. ela foi ganhando corpo – sanfonada carnadura ofídia. os poros escamas. a boca aberta em círculo, se desenrolando num pergaminho pulsante. no chão: a queda. calçada abaixo serpenteando. sem desvio: atropelos, lambe-pés, oblonga sola assolando comida, palavra – ganhou as ruas, amassou os carros. lambeu semáforos vermelhos: léguas de língua na cidade, lambidelas em coberturas. para trás, rastros de peçonha como cobrança de posse. preso a ela, ia um corpo, do linguarudo engasgado, o seu antigo dono.


CONFIDENTE DESINTERESSADO


carrega túmulos 
– imperceptíveis – 
naquele riso covinha

sussurros de rápida 
passagem rasteira

ruidam


quantos relógios te 
calam a boca:

partem a língua 
calam o bote

embaralha: silêncio e rumor 
no regresso do jogo, a negação:

peçonha

– silencia – 
– faz-te encosto –


paralisa as presas ocas, 
rejeita as confidências:

sintetiza-te serpente

 

 

ENTRADAS GRATUITAS NO MINHOCÃO

 

quanta gente não digerida: 
aguarda no fogo 
gosto findável.

os riscos vermelhos – 
amarelos

é uma leitura,

das cobras que circulam nos ares 
mostrando pátinas 
em cobres úmidos

– de sinalizações mudas 
em funcionalidade lápide –

os carros correm mais que a velocidade 
permitida: o medo deixa lindos rastros 
luzentes, riscos.

no breu gentileza se quer da duração 
das chamas.

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