UM DIA [de Rodrigo de Souza Leão]

 

Um dia


Hoje me botaram numa jaula 
Eu fiquei andando 
De um lado para o outro

Feito um bêbado que via 
Muitos dedos num só 
Que eram tantos assim

Mas não tinha dedo algum 
A me enforcar só eu mesmo 
E a ficção de que amei

 


Bula


Até que enfim veio a paz 
Pude dormir sem tremer

Pude temer sem dormir 
Pude urinar em mim

Enfim pude fazer o que quis 
Pelo menos uma vez

Foram comigo daqui 
Leram-me a minha bula

 


Considerações sobre o pop


Acho que as pessoas tristes vivem mais 
Elas tomam mais remédios

Os doidos só não tomam mais remédio 
Por que os laboratórios não querem

Governos preferem habitar algum planeta 
Do que habitar algum remédio e alguma mente

È tão perigoso falar da loucura 
Podem achar que eu sou louco mesmo

 


Mentes cartesianas


Vou mandar um livro pra você 
Um livro que diga como fazer pra não ter vontade 
De se matar

Um livro que dê vontade de tomar banho 
E que me faça acordar todo o dia as seis horas 
Da nova manhã

Um livro que o coloque em linha reta 
E acabe com o seu paralelismo que alterna 
Alguns graus pra lá

Um livro que te solucione 
Pois você é um problema difícil 
Para todo mundo

 


Certeza sem nuvens e estrelas


Nunca saio de mim 
Por isso sou só

Tenho uma camada de pó 
Tomo remédios coloridos

Escuto com três ouvidos 
E vejo com um olho só

Agora me olha e me diz 
Se estou certo

Se sou mesmo este céu deserto

 

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ZUNÁI – Revista de poesia & debates

One Comment

  1. Posted 31 outubro, 2008 at 8:52 am | Permalink

    Dos cinco, adorei o considerações sobre o pop. É a primeira vez que entro aqui (sou um fuçador de blogs alheios notório) e gostei muito do que vi. Pretendo voltar mais vezes.


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