“POR QUE CANTAMOS” [de Manoel de Andrade]


Rua Buenos Aires, 630 – Apto 804 - Batel – Curitiba – Pr. - Cep. 80250-070 – fone (41) 9983-0919.

Dados Biográficos: MANOEL DE ANDRADE é catarinense, radicado em Curitiba. Recém formado em Direito e procurado pela Ditadura pela panfletagem de sua poesia deixou o Brasil em 1969. Percorreu 17 países da América, dando conferências e declamando seus poemas. Expulso da Bolívia, do Peru e da Colômbia seu primeiro livro, Poemas para la libertad, foi publicado em La Paz em 1970 e reeditado no Equador, na Colômbia e nos EE.UU. Publicou Canción de amor a América em El Salvador e Nicarágua. Em 1998, com Mario Benedetti, Juan Guelman, Jaime Sabines e outros poetas integrou a antologia: Poesia Latinoamericana - Antología Bilíngüe, publicada em Bogotá em 1998. Participou, em 2002, da coletânea paranaense Próximas Palavras. Afastado 30 anos da literatura, voltou em 2007, com o livro Cantares, da Escrituras. Foi um dos 14 poetas participantes da NOITE DA POESIA, em 1965, no Teatro Guaira, ao lado Helena Kolody, Leopoldo Scherner, João Manuel Simões, Paulo Leminski e organizou em setembro de 2008 a 1ª Semana da Poesia Parananaense. Endereço: Rua Buenos Aires, 630 – Apto 804 - Batel – Curitiba – Pr. - Cep. 80250-070 – fone (41) 9983-0919.

 

 

 

“POR QUE  CANTAMOS”

 

                                   De Manoel de Andrade  para Mario Benedetti(*)

 

Se tantas balas perdidas cruzam nosso espaço

e já são tantos os  caídos nesta guerra…

Se há uma possível emboscada em cada esquina

e  temos que caminhar num chão minado…

 

“você perguntará  por que  cantamos”

 

Se a violência sitia os nossos atos

e a corrupção gargalha da justiça…

Se respiramos esse ar abominável

impotentes diante do deboche…

 

“você perguntará por que cantamos”

 

Se o medo  está  tatuado em nossa agenda

e a perplexidade estampada em nosso olhar…

Se há um mantra entoado no silêncio

e as lágrimas repetem: até quando, até quando, até quando…

 

“você perguntará  por que cantamos”

 

Cantamos porque uma lei maior sustenta a vida

e porque um olhar ampara os nossos passos.

Cantamos porque há uma partícula de luz no túnel da maldade

e porque nesse embate só o amor é invencível.

 

Cantamos porque é imprescindível dar as mãos

e recompor, em cada dia, a condição humana.

Cantamos porque a paz é uma bandeira solitária

a espera de um punho inumerável.

 

Cantamos porque o pânico não retardará a primavera

e porque em cada amanhecer as sombras batem em retirada.

Cantamos porque a luz se redesenha em cada aurora

e porque as estrelas e porque as rosas .

 

Cantamos porque nos riachos e lá na fonte as águas cantam

e porque toda essa dor desaguará um dia.

Cantamos porque no trigal o grão amadurece

e porque a seiva cumprirá o seu destino.

 

Cantamos porque os pássaros estão piando

e ninguém poderá silenciar seu canto.

Cantamos para saudar o Criador e a criatura

e porque alguém está parindo neste instante.

 

Pelo encanto de cantar e pela esperança nós cantamos

e porque a utopia persiste a despeito da descrença.

Cantamos porque nessa trincheira global, nessa ribalta,

nossa canção viverá para dizer por que cantamos.

 

Cantamos porque somos os trovadores desse impasse

e porque a poesia tem um pacto com a beleza.

E porque nesse verso ou nalgum lugar deste universo

o nosso sonho floresce deslumbrante.

 

 

Curitiba, maio de 2003

 

(*)  Escrevi  estes  versos motivado pelo belíssimo  poema

     “POR QUE CANTAMOS”  do poeta uruguaio MARIO BENEDETTI.

     Num tempo em que todos caminhamos sobre o “fio da navalha”

     me senti, como poeta,  implicitamente convocado a  também 

     testemunhar  por que cantamos.

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