DOIS BOTÕES DE CAMISA E UM PATUÁ [de Tonicato Miranda]

 

Meu curriculo, faz-me rir. Não tenho curriculo, tenho culhões de ferro para enfrentar o Sol. Não tenho curriculo, tenho escudos para as maldades calmas dos homens. Não tenho livros publicados, tenho amigos que guardam meus poemas na memória e assim me brindam com essas lembranças. Não gosto dessas referências curriculares. Sou um pouco avesso a essas informações passageiras. Prefiro ser o motorista, não o passageiro. Mas às vezes me apraz apenas assistir a passagem do ônibus serpenteando numa estrada morro abaixo.

Meu currículo, faz-me rir. Não tenho currículo, tenho culhões de ferro para enfrentar o Sol. Não tenho currículo, tenho escudos para as maldades calmas dos homens. Não tenho livros publicados, tenho amigos que guardam meus poemas na memória e assim me brindam com essas lembranças. Não gosto dessas referências curriculares. Sou um pouco avesso a essas informações passageiras. Prefiro ser o motorista, não o passageiro. Mas às vezes me apraz apenas assistir a passagem do ônibus serpenteando numa estrada morro abaixo.

DOIS BOTÕES DE CAMISA E UM PATUÁ

 

preciso de você para coisas simples

tomar café às 6 da tarde com pão fatiado

contar como fui idiota de manhã

e como posso ser um adorável tolo ao seu lado

preciso de você para pedir a toalha

após o banho, após o amor

coisa simples e tão essencial

coisas que não sobem de elevador

 

preciso de você para comentar com o olhar

todas estas paisagens pintadas de cinzas

e sonhar apagado porque no meu cinzeiro

já não mais se põem dos cigarros as cinzas

 

preciso de você para correr ladeira abaixo

puxando-a pelo meu pescoço e pela correia

alegria de cachorro solto na alegria em estar

aqui, ali, no rio, no sol, na chuva, sem cadeia

 

preciso de você para ser dor e o amor

cortina balançando ao vento na janela

lençóis macios amarfanhados

seu beijo sabor de madrugada e siriguela

 

quem mais precisa mais gasta a caneta

não produz versos econômicos ou haikais

a paixão consome horas e papéis

cem folhas para um solitário dó e muitos ais

 

guardo muitos tarecos numa latinha amarela

dois botões de camisas, moedas antigas, um patuá

contas e miçangas formando estrelas para esquecer

um retrato velho seu que teima em não amarelar

  

gaivotas passam sobre mim

conduzindo minha memória prisioneira

vou das montanhas às lembranças do capim

atravesso a baía na barca da Cantareira

 

preciso de você para abrir estas caixinhas

bem cedinho de manhã, comer bolo com café

aos passarinhos lançar muitos miolos de pão

à minha alma um só sentido para ainda estar de pé

 

preciso de você para sobreviver

mas também para dar gargalhadas

mas se isto não for possível

preciso de você para construir novas jornadas

 

TM

Julho/2008

One Comment

  1. marilda confortin
    Posted 1 novembro, 2008 at 12:51 pm | Permalink

    Que bonita declaração poética amorosa, Tonicato! Um dia, quem sabe, quando a paz voltar a reinar em meu coração cansado de guerra, serei assim romântica e terna como você.
    Um grande abraço de sua amiga e admiradora
    Marilda


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