A IMPOSSÍVEL PARTIDA [de Vinicius de Moraes]

 

Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980) foi um diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro. Poeta essencialmente lirico, o poetinha (como ficou conhecido) notabilizou-se pelos seus sonetos, forma poética que se tornou quase associada ao seu nome. Conhecido como um boêmio inveterado, fumante e apreciador do uisque, era também conhecido por ser um grande conquistador. O poetinha casou-se por nove vezes ao longo de sua vida. Sua obra é vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música. No campo musical, o poetinha teve como principais parceiros Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell e Carlos Lyra.

Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980) foi um diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro. Poeta essencialmente lírico, o poetinha (como ficou conhecido) notabilizou-se pelos seus sonetos, forma poética que se tornou quase associada ao seu nome. Conhecido como um boêmio inveterado, fumante e apreciador do uísque, era também conhecido por ser um grande conquistador. O poetinha casou-se por nove vezes ao longo de sua vida. Sua obra é vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música. No campo musical, o poetinha teve como principais parceiros Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell e Carlos Lyra.

 

A impossível partida

 

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes da cidade 

E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne indesejada?… 

Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos 

Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas colhidas 

E se a minha inquietação iria temer a tua eloqüência silenciosa?… 

Eu sonhei!… Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos 

Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável 

Os rios mortos… as sombras mortas… as vozes mortas… 

…o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na face… 

Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério 

Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos calmos 

Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua visão?… 

Eu sonhei!… Sonhei mundos passando como pássaros 

Luzes voando ao vento como folhas 

Nuvens como vagas afogando luas adolescentes… 

Sons… o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida… 

O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço… 

Imagens… a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das coisas… 

As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma 

Soprando de manso na boca vermelha dos astros… 

Como poder abrir no teu seio, oh noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo 

Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno 

E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos desconhecidas me arrebatem?…

 

Vinicius de Moraes

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