JAIRO PEREIRA

Jairo Pereira nasceu em Passo Fundo (RS) em 1956, mas reside hoje em Quedas do Iguaçu. Publicou vários livros de prosa e poesia, entre eles O Artista de Quatro Mãos (1992), O Antilugar da Poesia (1995), O Abduzido (1999) e Capimiã (2002).

 

POEMA ABSTRATO 

Fiz um poema abstrato 
de não se ver não pegar com 
as mãos poema tipo sopro no 
escuro vento miúdo nos pés 
flagelo de sons no tempo poema 
de flanar :lúmino: 
nos espaços dúbios do dizer 
inventar sonhar fiz um poema 
inconcreto suspirado pra dentro 
poema neopictórico para enganar 
Kandinsky poema hígido de eus 
obscuros fiz um poema 
regurgitado de sementes falsas 
pólens esporos aéreos :um poema 
mnemônico: filmes gravados na 
memória projetados no futuro 
garatujas sobre garatujas no 
papel fino da mente fiz um poema 
abstrato :cesto trançado de vozes 
idas e revividas: fiz um poema 
abstrato de comer suspiro de 
vento e beber água no vapor da 
cachoeira do tempo. 


O INFERNO DO SIGNO 

uma vez me fiz um favor 
escolher meu próprio caminho 
outra vez me fiz outro 
refletir sozinho no espelho 
outras vezes me fiz tantos: 
entender-me com minha poesia 
evitar os livros inobscuros 
:cartas desembaralhadas: 
mergulhos incegos na filosofia 
uma vez aderi a outros mundos 
sensações imagens em trânsito 
percepções & outra vez as coisas 
vinham e me cercavam 
vinham e espiritavam como queriam 
:redemoinhos de ventos doidos: 
o inferno dos signos. 

POEMA DO TEMPO & 
DA NÃO-PROPRIEDADE 
DAS COISAS 

Nada há em vida que seja de minha 
exclusiva propriedade 
:vida: nada tenho de meu neste 
mundo sequer a posse de alguns 
objetos :matéria na matéria 
acúmulos: apenas tive teus signos 
profusos quereres vertigens sonhos 
que sonhamos juntos 
:porções do melhor alimento: 
os sonhos sonhados ao relento 
nada no mundo tenho além 
pensamentos depois do tudo que 
tivemos sonhamos 
relembro teus tricôs :áreas planas de 
labor: dicionários construídos com 
linhas verbetes de coloridas 
significações 
um alento lembrar tuas palavras 
construções verbais de improviso 
:expedientes de muita poesia: 
sonhos sonhados juntos que sonhamos 
um fazer sobre todas as coisas 
belas expressões imagéticas 
no tecido-vida e por acaso 
gestos desmedidos palavras soltas 
no vento crescidas de tempo 
gravações espontâneas no tecido- 
vida :vida: aventuro criar agora uma 
floresta permitida do futuro só pra 
nós teço silêncios dramas sagrações 
invento trabalhos novos opções de 
lazer um mundo diferente aos nossos 
olhos mundo de tocar com as mãos 
os pés sentir com todos os sentidos 
mundo de vivermos sonharmos 
juntos os sonhos que vivemos 
sonhamos pela primeira vez 
minhas palavras poemas gestos 
vertidos 
de verdes-limos 
tomados de espaços livres no 
crescer do tempo teus tricôs 
:finos tecidos: obras de arte 
flores nativas sopradas de 
ventos. 

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Extraído de: http://www.revistazunai.com/poemas/jairo_pereira.htm

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