RODRIGO GARCIA LOPES

 

Rodrigo Garcia Lopes nasceu em Londrina (PR), em 1965. Publicou os livros de poesia Solarium (1994), Visibilia (1997) e Polivox (2001), além de volumes de tradução de Sylvia Plath e Rimbaud, entre outros titulos. É um dos editores da revista de literatura e artes Coyote.

Rodrigo Garcia Lopes (Londrina, PR, 2/10/65) é formado em Jornalismo, tendo trabalhado em jornais e veículos literários em São Paulo e Curitiba. De 1990 a 1992 viveu nos Estados Unidos, onde realizou mestrado na Arizona State University com tese sobre os romances experimentais de William S. Burroughs. Neste período, reuniu material para seu livro Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte Americanas Hoje (ensaios e 19 entrevistas com escritores e artistas como John Ashbery, William Burroughs, Marjorie Perloff, Allen Ginsberg, Nam June Paik, Charles Bernstein and John Cage). Em 1990, Sylvia Plath: Poemas apresentava a poesia da poeta norte-americana ao público brasileiro. Em 1994 lançou Solarium (Iluminuras), reunindo sua produção poética desde 1984. Em 1996 lançou uma nova tradução das Illuminations de Rimbaud, Iluminuras - Gravuras Coloridas (também pela editora Iluminuras) No ano passado, seu segundo livro de poemas, visibilia, foi lançado pela editora Sette Letras (RJ). É membro do conselho editorial da revista Medusa (Curitiba) e, com bolsa da CAPES, realiza pesquisa de doutorado na Arizona State University sobre a poesia modernista norte-americana e Laura Riding. Participou das antologias Artes e Ofícios da Poesia (Artes e Ofícios, 1991), Outras Praias (Iluminuras, 1998) e Esses Poetas (Aeroplano, 1999). Prepara Polivox.

RIZOMA

 

 

Você deixou os instrumentos sob o sol rachando o som que penetrava rochas de cores escritas com o tato, você delirava considerando asteriscos num céu de areia hostil.

 

Os halos seguiram com os corpos, quebras de esquinas com o vazio do tempo nas narinas mornas do nômade, rimas taliban se dublam e enroscam como ramos, e se multiplicam em rajadas acordes que pastam solitária lucidez.

 

Durou o espaço de uma brecha o dia com pressa de partir e sede no cérebro luz árida exílio areia hostil.

 

Inóspita. A palavra habita um lugar que lhe é impossível. Não representa nada a não ser um estalo no . Devora as margens com a precisão dos grandes rios, mas vomita seu nada e seu devir, vácuo visível.

A razão negra desabrocha numa agulha. O próprio movimento interroga o espaço que cria atrás de si, sim.

 

Avança. Mais diz quanto mais se distancia.

 

Foi então que começaram as desaparições.

 

 

 

* * *

 

uma palavra salta da árvore do vazio

onde um gnomo nomeou 

o invisível

 

soletra, lenta, seu proceder:

sempre o atalho mais surpresa

nunca do significado presa

 

e no retorno a si mesma

marca seu corpo na brancura:

seu som é sua nua criatura.

 

 

* * *

 

 

ORGANICISMO

 

 

Lótus obtusa, broto do Uno, idéia de duna às 3 da tarde, água ensurdece para que a blusa da brisa respire: nada mais claro, muralhas de açúcar se dissolvem na língua que sua pelo corpo (visto de cima): nenhum corpo nem palavra é sua, seu, epos se repete até que os ecos, sólidos como socos, impeçam seu trajeto de fronteira. Floresta significa estar fora disto, forasteiro, mas nenhuma rocha comenta seu mal-estar, fragmentos de conversas humanas, mal estando. Da semente um anagrama, a forma cava sua cova rasa, frestas tectônicas deslizam. Galhos (afrescos) recolhem tudo no caminho, como se, enquanto vicejam no vácuo destes estames pensamentos

 

* * *

 

 

 

A mulher passa correndo com seu cão, 

e além dela o sol

entre pinheiros bastardos falha

em sua comunicação. Há

neblina, sim, mas na vidraça suja 

de tempestade: mas isso já passou.

 

Depois que nada o corpo se completa:

a água o ensina a pensar. Mas noite,

sem dúvida, descreve 

sua lenta aproximação

 

embora não tenha palavras transparentes

que garantam que nenhum ruído soe

como uma verdade em seus ouvidos.

 

Até lá, o sono virá, e com ele uma

interrupção: na espessura da espuma

O som do vidro é colorido.

 

 

* * *

 

 

Há algo espantoso no jeito como, de repente, luzes se fixam nas cores, fazendo os objetos, antes que escorressem para as margens nos chamando, se animarem. É como se confrontássemos com algo que, ao contrário de nós, não consiste em fugir. Cercá-lo para ver todas as narrativas deste minimundo. Agora telefone toca, e não penso nela ou em Cathay ou da vez em que, cai uma folha, a cadela me observa, novo momento sem memória, como se tudo fosse começar, começar e começar. Miopia amnésica. Gravura granulada. Estilhaços pássaros mudos luz da manhã que não é mais. Este espelho que se ergue entre os dendritos, sólido como uma lagoa em dia sem vento nem legendas, precisão que não passa de quimera, mero reflexo de idéia? O corpo se move entre interrupções, detritos, tem sido assim, sua sina e seu destino, desde o começo do sentido.

 

 

* * *

 

escreviver na sombra

do muro

 

com todas as letras

tensas

 

do teu nome

era

 

não deixar pedra

sobre perda

 

tampouco perder 

o prazer

 

no limite das forças

e apesar

 

escreviver

 

 

##########

 

Extraído de: http://www.revistazunai.com/poemas/rodrigo_garcia_lopes.htm

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