TONICATO MIRANDA

A Voz da Rã

 

Começo o ano com Janis Joplin

começo o ano com saudades minhas

e da goela dela reverberando no meu peito

nos botões da camisa, nas pregas das linhas

fechando-me o sangue nas veias do coração

 

“Summertime” não é deste mundo

uma lápide de mármore dura e branca

Janis quase não canta, quase se encanta

Negra voz sibilante, em breve castidade

Sussurro rouco, bafejando-nos sua imortalidade

 

Mas todos os sobreviventes

ainda estão por aqui

querendo se despregar da cruz

morrendo no dia-a-dia, na ponta das espadas de luz

sob o sol que teima em furar o cerco das nuvens

 

Os sobreviventes são bandos de mentirosos

Calem-se, calem-se, façam-se mudos

nada mais quero ouvir além da canção

quero da voz de Janis, a sua benção

quero ouvir os porões da minha mente

 

“Summertime” don’t me “cry”

“Summertime” o amor chora-me um ai

porque o amor é uma forma de sofrimento

o corpo perdendo o movimento

quando toda a máscara arrancada da cara, cai

 

“Summertime” escorre em meu peito um verão de saudades

e já não me reconheço no turbilhão de fatos, anos depois

não sou eu chorando por meu passado, mas o retrato do que fui

e fujo como sapo ligeiro, nos charcos dos campos de arroz

fujo da rã cantora agonizando-me a dúvida da sobrevivência

 

“Summertime”

Ahhh! Por que já não me reconheço?

Onde enterrei meu passado?

Ahhh!! Janis!! Ahhh! Janis Jasmim!

Quantas ausências sinto dentro de mim!

 

TM, 2/Jan/2006

 

##########

 

O cantar do xexéu

 

nem todo poeta é triste

nem todo palhaço é palhaço

nem toda a música é canção

toda mulher merece um não

milhares de sim, algumas o véu

 

não está em todas tardes a luz

assim como não são

brancas as nuvens sobre mim

hoje a ameaça de chuva está

agarrada no cinza no céu

 

no rádio toca “Você”

de Menescal e Boscoli

no meu peito toca um Rio

onde já fui menos saudade

pois era simples pardal ao léu

 

Curitiba dos anos 80

era Cardoso e sua “troupe”

nós por ali como andorinhas ligeiras

de bar em bar, de rua em rua

quase prostitutas de bordel

 

ninguém sente saudades

do que nunca sentiu

mas queria sentir tristeza

de um futuro que não gestei

o coração como cavalos em tropel

 

sentir saudade de mim e de você

o meu corpo dolorido de ausências

dos amigos e dos perigos dos amores

tudo e todos que podem me colocar

como condenado no banco dos réus

 

nem todo poeta é triste

mas palhaço pode ser um dia

quando a tristeza molhar a boca

adoçando a palavra, brotando o gesto

beijando a abelha antes dela moldar o mel

 

nem todo pio na mata

e nos baldios da cidade aberta

vem do bem te vi ou da gralha preta

às vezes vem da andorinha

outras de um simples xexéu

 

TM, 11/10/2005

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