Antônio Cícero

poemas

  

 

As atividades públicas de Antonio Cicero se repartem entre o dominio da poesia e o da filosofia. Embora escreva poesia desde a adolescência, essa produção não começou a aparecer em periódicos ou livros, mas sim na forma de letras de canções quando poemas seus foram musicados por sua irmã, Marina Lima, que, ao fazê-lo, dava inicio à sua própria carreira de compositora e cantora. A partir desse momento, sem abdicar de escrever poemas destinados a serem lidos -- muitos dos quais acabaram sendo publicados em periódicos -- ele passou também a escrever poemas feitos para constituirem as letras das melodias que logo passou a receber, inicialmente de Marina mas logo também de novos parceiros (entre os quais figuram Lulu Santos, Adriana Calcanhoto, Orlando Moraes e João Bosco, por exemplo).

As atividades públicas de Antonio Cicero se repartem entre o domínio da poesia e o da filosofia. Embora escreva poesia desde a adolescência, essa produção não começou a aparecer em periódicos ou livros, mas sim na forma de letras de canções quando poemas seus foram musicados por sua irmã, Marina Lima, que, ao fazê-lo, dava início à sua própria carreira de compositora e cantora. A partir desse momento, sem abdicar de escrever poemas destinados a serem lidos -- muitos dos quais acabaram sendo publicados em periódicos -- ele passou também a escrever poemas feitos para constituírem as letras das melodias que logo passou a receber, inicialmente de Marina mas logo também de novos parceiros (entre os quais figuram Lulu Santos, Adriana Calcanhoto, Orlando Moraes e João Bosco, por exemplo).

GUARDAR

 

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. 
Em cofre não se guarda coisa alguma. 
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por 
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por 
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, 
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro 
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, 
por isso se declara e declama um poema: 
Para guardá-lo: 
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: 
Guarde o que quer que guarda um poema: 
Por isso o lance do poema: 
Por guardar-se o que se quer guardar. 

A seguir, tradução para o alemão do poema Guardar, publicado originalmente numa revista chamada LAB, JAHRBUCH 1998 FÜR KÜNSTE UND APPARATE 

BEWAHREN 
Ein Ding bewahren heißt nicht, es zu verstecken oder einzuschließen 
In einem Safe bewahrt man nichts. 
In einem Safe verliert man es nur aus den Augen. 
Ein Ding bewahren heißt, es zu betrachten, es anzuschauen, es anzublicken 
um es zu bewundern, will sagen, es zu beleuchten oder von ihm erleuchtet zu werden. 
Ein Ding bewahren heißt, es zu bewachen, will sagen, um seinetwillen eine Nachtwache 
zu halten, will heißen, seinetwegen zu wachen, will heißen, seinetwegen wach zu bleiben. 
Deshalb bewahrt man eher den Flug eines Vogels 
als einen Vogel, der nicht fliegt. 
Deshalb schreibt man, spricht man, deshalb publiziert man, 
deshalb erklärt und deklamiert man ein Gedicht: 
Um es zu bewahren: 
Damit es seinerseits bewahrt, was es bewahrt:

Bewahrt, was vom Gedicht bewahrt werden soll: 
Deshalb wird das Gedicht veröffentlicht: 
Weil es bewahrt, was man bewahren will.

(Übersetzung aus dem brasilianischen Portugiesisch von Maralde Meyer-Minnemann) 

 

 

INVERNO

No dia em que fui mais feliz 
eu vi um avião 
se espelhar no seu olhar até sumir

de lá pra cá não sei 
caminho ao longo do canal 
faço longas cartas pra ninguém 
e o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu: 
onde foi exatamente que larguei 
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci 
que o destino 
sempre me quis só 
no deserto sem saudades, sem remorsos, só 
sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim 
só quer me lembrar 
que um dia o céu 
reuniu-se à terra um instante por nós dois 
pouco antes do ocidente se assombrar

(a Suzana Morais) 

 

 

CANÇÃO DA ALMA CAIADA

Aprendi desde criança 
Que é melhor me calar 
E dançar conforme a dança 
Do que jamais ousar

Mas às vezes pressinto 
Que não me enquadro na lei: 
Minto sobre o que sinto 
E esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar, 
Sem me poder vencer: 
Tento afogar no mar 
O fogo em que quero arder.

De dia caio minh’alma 
Só à noite caio em mim 
por isso me falta calma 
e vivo inquieto assim. 

Nota: Esta é a primeira letra que Marina musicou, feita por Cícero nos USA, “Canção da Alma Caiada”. 
Maria Bethania chegou a gravar a música em 77, mas foi censurada. Anos depois, Zizi Possi fez nova gravação. 
Embora Marina já tenha cantado essa canção em shows, nunca gravou-a em disco.
 

 

 

SIMBIOSE

Sou seu poeta só 
Só em você descubro a poesia 
Que era minha já 
Mas eu não via.

Só eu sou seu poeta 
Só eu revelo a poesia sua 
e à noite indiscreta 
você de lua. 

 

 

ALAR E DIZER a Waly Salomão

Não é possível que portentos não tenham ocorrido 
Ou visões ominosas e graves profecias 
Quando nasci. 
Então nasce o chamado 
Herdeiro das superfícies e das profundezas então 
Desponta o sol 
E não estremunha aterrado o mundo? 
Assim à idade da razão 
Vazei os olhos cegos dos arúspices e, 
Fazendo rasos seus templos devolutos, 
Desde então eu designo no universo vão 
As coisas e as palavras plenas. 
Só 
Com elas 
Recôndito e radiante ao sopro dos tempos 
Falo e digo 
Dito e decoro 
O cáos arreganhado a receber-me incontinente. 

A seguir, tradução para o alemão do poema Falar e Dizer, publicado originalmente numa revista chamada LAB, JAHRBUCH 1998 FÜR KÜNSTE UND APPARATE 

SPRECHEN UND SAGEN

Wunder können unmöglich ausgeblieben sein 
Oder befremdliche Visionen und ernste Weisagungen 
Als ich geboren wurde.
Da wird der berufene 
Erbe der Oberfläche und der Tiefen geboren, da 
Geht die Sonne auf 
Und es erbebt nicht zitternd die Erde? 
In reifem Alter 
Riß ich darum der Wahrsager blinde Augen heraus 
Machte ihre leeren Tempel dem Boden gleich, 
Benenne seither im eitlen Universum 
Vollständig Dinge und Worte. 
Allein 
durch sie
verborgen und strahlend im Atem der Zeiten, 
Spreche und sage ich 
Diktiere und behalte ich 
das zähnefletschende Chaos, das mich gierig empfängt.

(Übersetzung aus dem brasilianischen Portugiesisch von Maralde Meyer-Minnemann) 

A seguir, tradução para o inglês do poema Falar e Dizer. 

SPEAKING AND SAYING to Waly Salomão

It cannot be that no portent took place 
Or ominous visions and grave prophecies 
When 1 was born. 
Then the so-called heir 
Of surfaces and depths is born then 
The sun appears 
And is not the world startled from slumber in terror? 
Thus in the age of reason 
I ripped out the blind soothsayer’s eyes and, 
Laying flat their emptied temples, 
Since then I designate in the vain universe 
Things and words replete. 
Alone 
With them 
Recondite and radiant in the breath of time 
My speaking and saying 
Dictating with decorum 
The snarling chaos to receive me forthwith. 
(Translated by Charles A. Perrone)

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