Daily Archives: novembro 5th, 2008

CONTUMÁCIA [de Nauro Machado]

Contumácia   Maldita a vida me seja,  três vezes maldita seja  a vida que me desastra  e que por ser-me finita,  três vezes seja maldita  e amaldiçoada madrasta.   Quem me fez como um qualquer,  dormindo aonde estiver,  saiba deste desprazer,  para sempre e desde saiba,  para que o seu Ser não caiba  na pequenez […]

INFÂNCIA [de Paulo Mendes Campos]

Infância   Há muito, arquiteturas corrompidas,    Frustrados amarelos e o carmim  De altas flores à noite se inclinaram  Sobre o peixe cego de um jardim.  Velavam o luar da madrugada  Os panos do varal dependurados;  Usávamos mordaças de metal  Mas os lábios se abriam se beijados.  Coados em noturna claridade,  Na copa, os utensílios […]

FIM DO MUNDO [de Mário Quintana]

Fim do Mundo Ponho-me às vezes a cismar como seria belo o fim do mundo,  Antes de Cristo…  Nos campos verdes  Decorativas ossadas  Brancas geometrias.  Na cidade morta  Colunas. O azul, imóvel, sonha  A última asa.  A folha,  Graça infinita,  Se desprende e tomba  No tanque: leve sorriso da água…  Porém, quando este mundo cibernético […]

CANÇÃO [de Joaquim Cardoso]

Canção     Venho para uma estação de águas nos teus olhos;    Ouves? É o rumor da noite que vem do mar.  Meu amor.  Perto de mim o teu corpo cheirando a flor de cajueiro.  Que saudades do sol. Do mar de sol.  Do nosso mar de jangadas.  Escuta:  A noite que vem cantando  […]

LUAR DO RIO [de Mário de Andrade]

Luar do rio   Olha o balão subindo!   Mas quem foi o louco varrido Que em novembro se lembrou de o soltar!   – É o luar, é o luar!   E este céu cor-de-cinza, E este mar cor-de-prata, E o Cristo do Corcovado! Olha! parece um palhaço, Parece um filósofo, parece até Cristo […]

CRISTO REDENTOR DO CORCOVADO [de Jorge de Lima]

Cristo Redentor do Corcovado   O avô de minha avó Morreu também corcovado Carregando um cristo de maçaranduba Que protegia os passos vagarosos da família. Arranjei velocidade. Virei homem de cimento armado. Adoro esse Cristo turista De braços abertos Que procura equilíbrio Na montanha brasileira. Os homens de fé têm esperança n’ Ele, Porque Ele […]

CANTADORES DO NORDESTE [de Manuel Bandeira]

Cantadores do Nordeste     Anteontem, minha gente,    Fui juiz numa função  De violeiros do Nordeste.  Cantando em competição,  Vi cantar Dimas Batista  E Otacílio, seu irmão.  Ouvi um tal de Ferreira,  Ouvi um tal de João.  Um, a quem faltava o braço,  Tocava cuma só mão;  Mas, como ele mesmo disse  Cantando com […]