CONTUMÁCIA [de Nauro Machado]

Contumácia

 

Nauro Diniz Machado (São Luis, 2 de agosto de 1935) é um poeta e escritor brasileiro. - É casado com a também escritora Arlete Nogueira da Cruz. Poeta autodidata com vasto conhecimento em artes e filosofia. Também exerceu diversos cargos em órgão publicos entre eles DETRAN e EMATER e tambem na Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão. Nauro Machado sempre viveu em São Luis, ausentando-se apenas por breves periodos, sobretudo para o Rio de Janeiro para publicar boa parte de suas obras. No entanto, grande parte de sua vida Nauro dedicou à sua grande paixão, a poesia. Recebeu diversos prêmios, dentre eles Academia brasileira de letras e da União brasileira de Escritores; teve varias de suas obras traduzidas para o alemão, francês e inglês.

Nauro Diniz Machado (São Luís, 2 de agosto de 1935) é um poeta e escritor brasileiro. - É casado com a também escritora Arlete Nogueira da Cruz. Poeta autodidata com vasto conhecimento em artes e filosofia. Também exerceu diversos cargos em órgão publicos entre eles DETRAN e EMATER e tambem na Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão. Nauro Machado sempre viveu em São Luís, ausentando-se apenas por breves periodos, sobretudo para o Rio de Janeiro para publicar boa parte de suas obras. No entanto, grande parte de sua vida Nauro dedicou à sua grande paixão, a poesia. Recebeu diversos prêmios, dentre eles Academia brasileira de letras e da União brasileira de Escritores; teve varias de suas obras traduzidas para o alemão, francês e inglês.

Maldita a vida me seja, 

três vezes maldita seja 

a vida que me desastra 

e que por ser-me finita, 

três vezes seja maldita 

e amaldiçoada madrasta.

 

Quem me fez como um qualquer, 

dormindo aonde estiver, 

saiba deste desprazer, 

para sempre e desde saiba, 

para que o seu Ser não caiba 

na pequenez do meu ser,

 

que eu não pedi para estar 

com minhas pernas no andar, 

com minha emoção a sentir 

este universo que tapa 

a minha boca num tapa 

e a minha língua sem Ti,

 

essa coisa que fede a iodo, 

como a água do mar ou do 

envelhecimento o rim, 

essa coisa que derrama 

seu púbis velho de chama 

a extinguir-se quase ao fim,

 

corpo de Deus! Corpus Christi! 

Viste-O algum dia? Tu O viste 

sequer um dia como tu? 

Integral e à dor exposto, 

desde o cio ao suor do rosto, 

desde impotente até nu?

 

Os meus membros são crepúsculos! 

São sangue e iodo os meus músculos, 

é iodo e sangue a minha cruz. 

Por que não nasci não sendo? 

Por que, ao amanhecer, acendo, 

noutra treva, cega luz?

 

Se além da terra existe ar, 

se além da terra ainda há 

por menor que seja, um seja, 

como à noite volta o dia, 

como, ao corpo, o que o procria, 

como, em mim, meu ser esteja!

 

Dentro ou fora, qual gaveta, 

para que, em mim, o ser meta 

quem, em mim, é este meu ser, 

olho, em volta, à minha volta, 

e olho nada — só o que solta 

de qualquer um: quem ou o quê?

 

Nada é, pois tudo se sonha. 

E se alguém me falar: ponha 

tudo o que lhe resta, e resta 

no que, ao pôr-se, se me põe, 

para que em mim meu ser sonhe, 

vivo morto — e a morte empesta!

 

Como dar à vida pôde 

o nada ser que sou de 

outro feito pelo ser?

De outro ser, igual a mim,

mas de outro início a outro fim, 

noutra vida até morrer?

 

Ó envelhecer do meu estar! 

Da leitura de Balzac, 

de La Comédie Humaine, 

se passaram tantos anos 

nos malogros desenganos, 

sem disfarce ou mise-en-scène.

 

Bela Eugénie Grandet:

sois lembrança a anoitecer 

pelas tardes do meu Carmo, 

quem me traz a quem não sou 

na usura do pai Goriot 

que me a mim dá, para dar-mo

 

no meu duplo a ser mais dois, 

quais búfalos que são bois, 

ao mar meu a ser mais mar de 

ontem que ao ser-te, alma, foi-te, 

nas noites que são mais noite, 

nas tardes que são sem tarde.

 

Só me lembro das andorinhas, 

que hoje são luas-vinhas 

que iam e vinham às seis, 

só me lembro das sequazes 

na imprecisão de alguns quases, 

na distância de vocês!

 

Róseas ruas da memória, 

róseas ruas hoje escória 

que a soçobrar mais me sobe, 

afundai-me na lembrança 

hoje cravos da criança 

que meu cadáver descobre.

 

Como, à noite, acendo a lâmpada, 

para imitar (rampa da 

noite) uma inútil manhã, 

como o como que mais como, 

assumo, na idéia, o pomo 

da primitiva maçã.

 

Assumo o dia original.

Nascimento à morte igual, 

nascimento em morte assumo 

nesta página onde, em branco, 

minha vida inteira arranco 

do nada em que subi. E sumo.

 

E sumo a sós. Mas prossigo:

“na idéia é bem maior o trigo

que na boca o próprio pão, 

na idéia janto a sós, comigo, 

o pão real que mastigo 

feito de imaginação”.

 

Azul manhã em contumácia! 

Negra noite, azul, te amasse 

a idéia sem pensamento, 

te amasse a própria Idéia 

reduzida a uma hiléia 

sem ar, floresta, rio, vento.

 

Locador de um condomínio 

frustrador de um hímen híneo, 

frustrador de um hímem são, 

locador que loca um louco, 

de carne e ossos sou reboco 

deste barro em maldição.

 

Tudo é farsa, menor dor. 

Sou, em mim, o que me sou 

desde o ventre que me fez. 

E contemplo a arraia, e raia 

dela, como de uma praia, 

a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

 

andaime, sucata, ferro, 

vagido, vagina e berro, 

viatura e papelório, 

passa tudo, e é a viatura 

conduzindo à sepultura

meu ser morto. E sem velório.

 

Pois viu a terra e além bebeu-a, 

pois viu o tempo e disse: é meu, à 

solidão cerzindo a roupa 

onde, se me dispo, visto 

o sexo nu de algum Cristo 

que, despido, não me poupa.

 

Dez anos de coito cego 

são as metáforas que lego 

à solitária da escrita, 

aonde não chega ninguém 

exceto o vazio que vem 

de uma montanha infinita.

 

Ao ouvir da tarde: fracasso!, 

conquanto, vergando, os braços 

dissessem: pára, enfim finda! 

e morre, ó alma desgraçada, 

eu ousei retornar do nada, 

ousei retornar ainda.

 

Abandona, ó rei, abandona 

o abono de qualquer cona 

além do sangue e da queixa. 

Cerca a tua casa e a mura 

com o suor da tua estatura, 

e deixa o remorso, deixa-o!

 

Senhor do teu sofrimento, 

vai-te com o diabo e o vento, 

vai-te com a noite e o monte. 

E fala, ainda que mudo, 

que, do nada, igual a tudo, 

sobre ambos nasces. E põe-te!

 

Elimina todo se

da pretensão de existir 

na existência que é demérito, 

e no não haver nascido 

elimina-te existido, 

elimina-te pretérito!

 

Eliminar o talvez.

Não saber dia, hora ou mês, 

não saber até o minuto 

em que me vim sendo feito 

plantando a morte no peito 

e o espinhaço no meu fruto.

 

Por que o vemeversoverbo

da herbívora erva que eu erbo 

no meu plantio masculino, 

inverte o chão do seu galho 

arrancado do assoalho 

repicando como um sino?

 

Ter olhos-Deus! olhos-sóis

tem-no o Deus que cego a sós, 

tem-no o horizonte a pôr-se 

como colírio em dordolhos, 

tem-no quem me olha nos olhos 

como se cego eu já fosse!

 

Ah!, se a pedra me fizesse 

fazer-me cobrir quem desce 

à região do ser meu se, 

para não haver nascido 

ou o houvesse enfim já sido 

sem que eu dissera: nasci!

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