INFÂNCIA [de Paulo Mendes Campos]

Infância

 

Gabriela e Daniel.

Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 — Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991) foi um escritor e jornalista brasileiro. - Nascido em Minas Gerais, era filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Começou seus estudos na capital mineira, prosseguiu em Cachoeira do Campo, onde o padre professor de português lhe vaticinou: "Você ainda será escritor", e terminou em São João del-Rei. Começou os estudos de Odontologia, Veterinária e Direito, não chegando a completá-los. Seu sonho de ser aviador também não se concretizou. Diploma mesmo, ele gostava de brincar, só teve o de datilógrafo. Muito moço ainda, ingressou na vida literária, como integrante da geração mineira de 1945, a que pertencia Fernando Sabino e pertenceram os já falecidos Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, João Ettiene Filho, Carlos Castello Branco e Murilo Rubião. Em Belo Horizonte, dirigiu o suplemento literário da Folha de Minas e trabalhou na empresa de construção civil de um tio. Foi para o Rio de Janeiro em 1945, a fim de conhecer o poeta Pablo Neruda, e acabou ficando. No Rio já se encontravam seus melhores amigos de Minas — Sabino, Otto, e Hélio Pellegrino. Passou a colaborar em O Jornal, Correio da Manhã (de que foi redator durante dois anos e meio) e Diário Carioca. Neste último, assinava a Semana Literária e, depois, a crônica diária Primeiro Plano. Foi, durante muitos anos, um dos três cronistas efetivos da revista Manchete. Admitido no IPASE em 1947, como fiscal de obras, passou a redator daquele órgão e chegou a ser diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Em 1951 lançou seu primeiro livro, A palavra escrita, de poemas. Casou-se, nesse mesmo ano, com Joan, de descendência inglesa, tendo tido dois filhos: Gabriela e Daniel.

Há muito, arquiteturas corrompidas, 

 

Frustrados amarelos e o carmim 

De altas flores à noite se inclinaram 

Sobre o peixe cego de um jardim. 

Velavam o luar da madrugada 

Os panos do varal dependurados; 

Usávamos mordaças de metal 

Mas os lábios se abriam se beijados. 

Coados em noturna claridade, 

Na copa, os utensílios da cozinha 

Falavam duas vidas diferentes, 

Separando da vossa a vida minha. 

Meu pai tinha um cavalo e um chicote; 

No quintal dava pedra e tangerina; 

A noite devolvia o caçador 

Com a perna de pau, a carabina. 

Doou-me a pedra um dia o seu suplício. 

A carapaça dos besouros era dura 

Como a vida — contradição poética — 

Quando os assassinava por ternura. 

Um homem é, primeiro, o pranto, o sal, 

O mal, o fel, o sol, o mar — o homem. 

Só depois surge a sua infância-texto, 

Explicação das aves que o comem. 

Só depois antes aparece ao homem. 

A morte é antes, feroz lembrança 

Do que aconteceu, e nada mais 

Aconteceu; o resto é esperança. 

O que comigo se passou e passa 

É pena que ninguém nunca o explique: 

Caminhos de mim para mim, silvados, 

Sarçais em que se perde o verde Henrique. 

Há comigo, sem dúvida, a aurora, 

Alba sangüínea, menstruada aurora, 

Marchetada de musgo umedecido, 

Fauna e flora, flor e hora, passiflora, 

 

Espaço afeito a meu cansaço, fonte, 

Fonte, consoladora dos aflitos, 

Rainha do céu, torre de marfim, 

Vinho dos bêbados, altar do mito. 

Certeza nenhuma tive muitos anos, 

Nem mesmo a de ser sonho de uma cova, 

Senão de que das trevas correria 

O sangue fresco de uma aurora nova. 

Reparte-nos o sol em fantasias 

Mas à noite é a alma arrebatada. 

A madrugada une corpo e alma 

Como o amante unido à sua amada. 

 

O melhor texto li naquele tempo, 

Nas paredes, nas pedras, nas pastagens, 

No azul do azul lavado pela chuva, 

No grito das grutas, na luz do aquário, 

No claro-azul desenho das ramagens, 

Nas hortaliças do quintal molhado 

(Onde também floria a rosa brava) 

No topázio do gato, no be-bop 

Do pato, na romã banal, na trava 

Do caju, no batuque do gambá, 

No sol-com-chuva, já quando a manhã 

Ia lavar a boca no riacho. 

Tudo é ritmo na infância, tudo é riso, 

Quando pode ser onde, onde é quando. 

 

A besta era serena e atendia 

Pelo suave nome de Suzana. 

Em nossa mão à tarde ela comia 

O sal e a palha da ternura humana. 

O cavalo Joaquim era vermelho 

Com duas rosas brancas no abdômen; 

À noite o vi comer um girassol; 

Era um cavalo estranho feito um homem. 

Tínhamos pombas que traziam tardes 

Meigas quando voltavam aos pombais; 

Voaram para a morte as pombas frágeis 

E as tardes não voltaram nunca mais. 

Sorria à toa quando o horizonte 

Estrangulava o grito do socó 

Que procurava a fêmea na campina. 

Que vida a minha vida! E ria só. 

 

Que âncora poderosa carregamos 

Em nossa noite cega atribulada! 

Que força do destino tem a carne 

Feita de estrelas turvas e de nada! 

Sou restos de um menino que passou. 

Sou rastos erradios num caminho 

Que não segue, nem volta, que circunda 

A escuridão como os braços de um moinho. 

 

 

 

Paulo Mendes Campos 

(1922-1991)

One Comment

  1. jacqueline
    Posted 9 outubro, 2010 at 4:38 am | Permalink

    saudades!!!
    …dele PMC!!!


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