DO MAIOR E DO MELHOR [de Flávio Moreira da Costa]

Do maior e do melhor

Flávio Moreira da Costa 

SSe a frase de Drummond “Escrever é cortar palavras” faz sentido para alguns escritores, não faz para outros. É, para ficar na metáfora cortante, uma faca de dois gumes. (Imaginem Proust, Joyce ou Guimarães Rosa cortando na própria carne da escrita: seriam os mesmos?) A lâmina de Dalton Trevisan é bem afiada, e ele tem sido admirado e criticado por isso. Quem lê as primeiras edições de Novelas nada exemplares, Guerra conjugal ou O vampiro de Curitiba e vai lê-las de novo, a partir da edições revistas pelo autor, pode ficar confuso. O mesmo livro ou um outro, dizendo a mesma coisa com o mínimo de palavras? Afinal, o velho (neo?) realismo já era (“já conheço os passos desta estrada/ sei que não vai dar em nada…” ― Tom e Chico): é preciso dosá-lo com as tintas do hiperrealismo, chegando às vezes (e aqui entra o humor do autor) à quase caricatura de sentimentos e comportamentos. Ao velho cafageste municipal, com dentinho de ouro, anel de falso rubi no dedo mindinho e bigodinho que disfarça o riso de vampiro suburbano; as Marias seduzidas e abandonadas, “virgens porém grávidas” e que apanham, reclamam, mas gostam.


Quanto aos que o que criticam por isso tudo, ou por isso mesmo, seria como criticar João Gilberto por cantar as mesmas músicas. Sem notar que elas são as mesmas na essência, mas diferentes, porque aprimoradas, tanto nas ressonâncias da própria harmonia quanto nas reentrâncias e significâncias das letras: “Vou te contar: os olhos já não podem ver/ coisas que só o coração pode entender….” (Tom, salvo erro). Mas aqui também a faca-só-lâmina de Trevisan tem dois lados: se um é João Gilberto pela linguagem contida, o outro gume, não menos cortante, é Nelson Cavaquinho ― pelos personagens e o mundinho semi-trágico em que eles estão imersos. Há uma “luz negra de um destino cruel” envolvendo cada um deles, sem esperança e sem futuro: “Sempre só/ eu vivo procurando alguém/ que sofra como eu também…” ― e a conclusão, sem medo do patético, é o choro/chorinho contido (contido?): “estou chegando ao fim…”. 


Os contos de Trevisan são, quase sempre, se não sempre, sobre um desencontro ― de um homem e uma mulher. E a solidão, é “um abismo de rosas”. Aliás, os próprios títulos do autor já inscrevem seu tema: Guerra conjugal, Crimes de paixão, Desastres do amor, A faca no coração, Lincha tarado, A trombeta do anjo vingador, O vampiro de Curitiba, Meu querido assassino.


Dezenas de livros, centenas de contos e um mundo só, cuja capital é uma cidade imaginária chamada Curitiba. Como Nova York (a Broadway dos anos 30) para Damon Runyon. Com a vantagem para esse brasileiro que, aos 83 anos (alô, alô, escritores-blogueiros), é um escritor novo ou um novo escritor. Em dezenas de livros e centenas de contos, um autor surpreendentemente (se isso não for novidade e surpresa, não sei, não…) fiel a um gênero e a si mesmo. Mesmo que fuja da imprensa como seus pequenos meliantes fogem da polícia. Incógnito? Nem a imprensa cultural fala dele como ele merece. 


Impossível é o bom leitor de ficção fugir de um novo título de Dalton Trevisan. Fugir por que, se o melhor é acompanhá-lo? Só agora começo a falar de O maníaco do olho verde? Não, comecei antes: Trevisan não publica livros isoladamente; ele constrói uma obra. Sempre in progress. Como um Tchekhov nosso, primo-irmão de João Gilberto e Nelson Cavaquinho (“Sou um rei destronado/ sou um rei sem coroa…”). Repetitivos os 26 contos deste novo livro? Não, evolutivos; acompanham até a evolução (evolução? Bem…) dos costumes. Antes, o álcool é que infernizava e destruía a vida dos habitantes de seu mundo caído. Agora, o crack, como em “Tem um craquinho aí?”, o primeiro conto. 


O livro é pequeno, mas é amplo seu pequeno mundo. Acanhado, sem poesia, cruel? Vejam os inícios certeiros de alguns contos: “Esta história aí no papel não é verdade. Na época eu tive um caso com uma moça. Sentamos por acaso no mesmo banco da praça Osório. Foi como tudo começou.” (“Amor de machão”). Ou: “Puta, não senhor. Garota de programa. Não sei de nada. Só que fui presa.” (“Garota de programa”). Mais um: “O que aconteceu lá, sem mentira nenhuma, não é nada disso.” (“A guria”). 


Não é nada disso. Sabem aquela história (que o brasileiro adora) do melhor e do maior? Pois é, o nome dele é Dalton Trevisan. 


Nota do Editor

Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em agosto de 2008. Leia também “Deus”.

Flávio Moreira da Costa

Rio de Janeiro, 1/9/2008

####################

Extraído de http://www.digestivocultural.com/ensaios/imprimir.asp?codigo=269

além dos direitos autorais de sua obra, manteve por duas décadas uma oficina de ficção, sem subsidios ou vinculos com qualquer instituição, por onde já passaram nomes de destaque da moderna prosa brasileira. Indicado pela Unesco, passou na França os meses de junho e julho de 2003, vivendo como escritor residente no CAMAC, comunidade artistica internacional em Marnay-sur-Seine, a 110 km de Paris, onde escreveu o romance O pais dos ponteiros desencontrados, lançado pela Editora Agir em novembro de 2004. Em março de 2004, convidado pela Associazione Italia-Portogallo, participou do seminário sobre a Transformação do Espaço Politico e Literário Português pré e pós 25 de Abril, na Universidade de Nápoles, na Itália. Voltou então à França, como bolsista do Centre National du Livre, e passou os meses de abril e maio novamente no CAMAC, onde trabalhou os originais de outro romance e para onde retornou em 2005, em mais uma residência de dois meses.

Flávio Moreira da Costa (Porto Alegre, janeiro de 1942) é um escritor brasileiro. Muito premiado nos anos 90, Flávio Moreira da Costa foi elogiado por Julio Cortázar, Jorge Amado, Antonio Houaiss, Dyonélio Machado, Fernando Namora, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, Fábio Lucas, Benedito Nunes, Otto Maria Carpeaux e Antônio Hohlfeldt, entre outros. Flávio Moreira da Costa vive de literatura há cerca de vinte anos: além dos direitos autorais de sua obra, manteve por duas décadas uma oficina de ficção, sem subsídios ou vínculos com qualquer instituição, por onde já passaram nomes de destaque da moderna prosa brasileira. Indicado pela Unesco, passou na França os meses de junho e julho de 2003, vivendo como escritor residente no CAMAC, comunidade artística internacional em Marnay-sur-Seine, a 110 km de Paris, onde escreveu o romance O país dos ponteiros desencontrados, lançado pela Editora Agir em novembro de 2004. Em março de 2004, convidado pela Associazione Italia-Portogallo, participou do seminário sobre a Transformação do Espaço Político e Literário Português pré e pós 25 de Abril, na Universidade de Nápoles, na Itália. Voltou então à França, como bolsista do Centre National du Livre, e passou os meses de abril e maio novamente no CAMAC, onde trabalhou os originais de outro romance e para onde retornou em 2005, em mais uma residência de dois meses.

Comente

Required fields are marked *
*
*

%d blogueiros gostam disto: