LEMBRANDO A TRIBO [de Millôr Fernandes]

Lembrando a Tribo

Millôr Fernandes

 

A tribo intelectual se reúne. Não é todo dia, mas é quase toda noite.

 

Encontros normais, sempre agradáveis, em que os presentes analisam os ausentes ― os ausentes, é claro, nunca têm razão. Amanhã seremos nós os sem razão. Apesar de tudo, um dia sempre poderemos dizer, saudosamente, como no filme de Monicelli: “Nós, que nos amávamos tanto”.

 

De vez em quando alguém da tribo promove um encontro maior ― o que a periferia chamaria de festa ― para reunir todos e mais alguém. Não há regras, mas há um padrão. Todos são, um pouco mais, um pouco menos, famosos. Entre os famosos, claro, há o famoso da hora ― lançou o último livro, fez o último show, ganhou o prêmio do festival de Calcutá, de Caracala, dos Pireneus, tudo fajuto, saudado como se fosse verdadeiro. Mas há também os prêmios indiscutíveis, a coroa de Berlim, a medalha de Baireux, o ouro do Japão, gozados para esvaziar grandiloqüência. 

 

Não há regras, mas há padrões: mulheres bonitas, um ou mais casais em processo de dissolução, duas lésbicas (uma escritora, outra pintora, uma sapatona, outra sapatilha, não se conhecem), um cantor que está lançando seu primeiro CD, alguém da área rica procurando se afirmar, um muito engraçado (quase todos aqui tentam ser), um que as mulheres não sabem ainda em que time joga, mas “é uma graça”, um diplomata que veio da Coréia, uma quarentona vestida pra matar, muito seio, muita coxa, muita roupa apertada onde (as outras acham) não deve, um casal caçador de aventuras sem risco, uma divulgadora que conhece todo mundo, um casal (suspeita-se que alagoano) que não conhece ninguém, uma cantora de ópera, um analista de mainframes residente no MIT, todos os escritores, todos os cineastas, todos os humoristas. Na arca cabe tudo, exceto crianças e (bebe-se muito, e é bom não confundir) alcoólatras. 

 

As pessoas vêm para euforias e ânsias ― ou inesperados ― vêm para se meter e conferir, para dar vazão, ter comunhão. Todos são íntimos, ou já tiveram algum encontro, um affair, um nariz consertado pelo outro, pequenas intimidades visíveis ou grandes intimidades zelosamente divulgadas. Os que chegam primeiro são mais calmos, mas, à medida que a reunião se amplia, os que chegam já chegam mais quentes. Há gritinhos, beijinhos, beijos mais afoitos, apertões meramente formais, ocasionais, ou mais entregues ― somos todos mui amigos. Cheiramo-nos, esfregamo-nos, lambemo-nos ― momentos fáticos, é só procurar no Aurélio.

 

Bebidas correm, alguns se servem sós, a estrela maior e dona da casa ajuda, sugere, insinua, oferece, conversa-se sobre tudo e qualquer coisa, os assuntos sempre ficam no ar, interrompidos por gente que chega ou se agrega, oferecendo tópico novo sempre inoportuno. A máfia nos assegura, a todos os habitués habituados, e deixa mais ou menos de fora os ianomâmis. Tentamos ajudá-los: “Vocês ainda moram em Pirapora?”. 

 

A reunião é uma tensão permanente ― fracassa se houver demais, fracassa se não houver nenhuma. O novelista de tevê, com quase 2 metros de altura, que surge sem ter sido convidado, triscado e inconveniente, como sempre, agride a atmosfera, e a anima exatamente quando o embaixador em Paramaribo, chato sem galochas, tinha levado a conversa de seu grupo à sonolência. E a gostosona gaúcha que entra ameaçando todas as mulheres e estuprando todos os homens (figuradamente, é claro) abre novo caminho nas relações intersexuais. 

 

Já são 2 da matina, houve conversas de todos os matizes, música, canto, as piadas chegaram ao escabroso, os (muitos) que ainda não partiram têm uma intimidade inimaginável numa reunião de bancários, mas fiquem tranqüilos ― a noite não vai acabar em orgia, fornicação, sexo grupal ou striptease. Isso é no andar de baixo. Aqui é a ilha da fantasia, e, no fim, respeito é bom e todos gostam. Se há algum desregramento visível, insinuado ou combinado, isso será resolvido depois, entre as partes interessadas. Os outros apenas observam e registram para a maledicência telefônica de amanhã de manhã. 

 

Mas a festa tem fecho de ouro quando há surpresa, mesmo pros que já não se surpreendem com coisa nenhuma. Entra inesperadamente, trazido pelo embaixador do grupo, o português timorense, prêmio Nobel da Paz, cercado por seus acólitos, assessores e profetas, todos com muita barba, muito cabelo desgrenhado, dois terços aparentemente sem banho, cheios de proselitismo com justa causa, para comungar com esses intelectuais brasileiros, companheiros, irmãos, artistas da pesada. Entra no exato momento em que Chico Caruso com seu vozeirão (ninguém é Caruso impunemente) começa a cantar o maior hit de sua carreira: “Sou pederasta”.

 

Quié qué isto, ô pá? 

 

Nota do Editor

Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na revista Veja.

Millôr Fernandes

Rio de Janeiro, 22/9/2008

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Extraído de http://www.digestivocultural.com/ensaios/imprimir.asp?codigo=272

 

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Millôr Ipanema É a glória! Textos extraidos de livros do autor, da Internet, do CD Em busca da Imperfeição, de 1999, produzido pela Neder & Associados e dos “Cadernos de Literatura Brasileira – Instituto Moreira Salles.

SUPERMERCADO MILLÔR - REVISTA VEJA - ANO I - N.º 1 - (Autobiografia De Mim Mesmo À Maneira De Mim Próprio): E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras — reco-reco, tatibitate, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada. Quem é que sou eu? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois, as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda com o destino, e ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.” "... Dou um boi pra não entrar numa briga. Dou uma boiada pra sair dela....Aos quinze (anos) já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil. Venho, em linha reta, de espanhóis e italianos. Dos espanhóis herdei a natural tentação do bravado, que já me levou a procurar colorir a vida com outras cores: céu feito de conhas de metal roxo e abóbora, mar todo vermelho, e mulheres azuis, verdes ciclames. Dos italianos que, tradicionalmente, dão para engraxates ou artistas, eu consegui conciliar as duas qualidades, emprestando um brilho novo ao humor nativo. Posso dizer que todo o País já riu de mim, embora poucos tenham rido do que é meu.” ”Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. ...Creio que a terra é chata. Procuro não sê-lo. ...Tudo o que não sei sempre ignorei sozinho. Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos.” ”A esta altura da vida, além de descendente e vivo, sou, também, antepassado. É bem verdade que, como Adão e Eva, depois de comerem a maçã, não registraram a idéia, daí em diante qualquer imbecil se achou no direito de fazer o mesmo. Só posso dizer, em abono meu, que ao repetir o Senhor, eu me empreguei a fundo. Em suma: um humorista nato. Muita gente, eu sei, preferiria que eu fosse um humorista morto, mas isso virá a seu tempo. Eles não perdem por esperar.”• Ainda em 1968 escreve o texto do show “Momento 68”, promovido pela empresa Rhodia, que contou com a participação de Caetano Veloso, Walmor Chagas e Lennie Dale, entre outros. No ano seguinte, participa do grupo fundador de “O Pasquim”. Fernanda Montenegro estrela “Computa, computador, computa”, no Teatro Santa Rosa, no Rio, em 1972. Lança o livro “Esta é a verdadeira história do Paraíso” e também “Trinta anos de mim mesmo”, numa sessão de autógrafos denominada “Noite da contra-incultura”. Em 1975, faz exposição de 25 quadros “em branco, mas com significado”, na Galeria Grafitti, no Rio. No ano seguinte, escreve para Fernanda Montenegro a peça “É...”, que se tornou o grande sucesso teatral de Millôr ao ser encenada no Teatro Maison de France, no Rio. Em 1977, realiza nova exposição de seus trabalhos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Adapta, no ano seguinte, para o formato de musical a peça “Deus lhe pague”, de Joracy Camargo, que contou com Bibi Ferreira na direção e com músicas de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. É homenageado pelo 5º Salão de Humor de Piracicaba (SP), mas “exige” que a honraria seja “para todos os humoristas na pessoa de Millôr Fernandes”. Em Brasília, para o Museu da Moeda, localizado no Banco Central do Brasil, produz quatro painéis que contam a história do dinheiro. Estréia no Teatro dos Quatro, Rio, a peça “Os órfãos de Jânio”, em 1980. Publica “Desenhos”, uma compilação de seus trabalhos gráficos, com textos de apresentação de Pietro Maria Bardi e Antônio Houaiss, em 1981. O ano de 1982 é de muito trabalho. O autor escreve e publica a peça “Duas tábuas e uma paixão”. Traduz a opereta “A viúva alegre”, de Franz Lear, apresentada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Tetê Medina monta “A eterna luta entre o homem e a mulher”, no Teatro Clara Nunes – Rio. Escreve a adaptação de “A chorus line”, encenado por Walter Clark. Estréia “Vidigal: Memórias de um sargento de milícias”. São dele, nessa peça, os cenários, figurinos e letras, musicadas por Carlos Lyra. Com Flávio Rangel, escreve e representa o espetáculo “O gesto, a festa, a mensagem”, na TV Record de São Paulo. Deixa a revista “Veja”. Em 1983, é homenageado pela Escola de Samba Acadêmicos do Sossego, de Niterói (RJ). Millôr não comparece ao desfile. Passa a colaborar com a revista “Istoé”. Lança “Poemas”, em 1984. Estréia o musical “O MPB4 e o dr. Çobral vão em busca do mal”. No ano seguinte, colabora com o Jornal do Brasil. Lança o “Diário da Nova República”. É montada a peça “Flávia, cabeça, tronco e membros” no Teatro Ginástico – Rio. Passa a usar o computador para escrever e desenhar, em 1986. Escreve, com Geraldo Carneiro e Gilvan Pereira, o roteiro do filme “O judeu”, dirigido por Jom Tob Azulay, baseado na vida de António José da Silva. Rodado em Portugal, só seria concluído em 1995. ”L’anné 82 au Brésil: le regard critique de Millôr Fernandes” (O ano de 82 no Brasil: o olhar crítico de Millôr Fernandes), é o tema de tese de doutoramento de Françoise Duprat na Universidade de Toulouse-Le Mirail II, França, em 1987. No ano seguinte, lança “The cow went to the swamp / A vaca foi para o brejo”. Na Universidade de São Paulo (USP), Branca Granatic defende, na dissertação de mestrado, “Os recursos humorísticos de Millôr Fernandes”. Em 1990, nasce seu neto, Gabriel, filho de Ivan. Deixa a revista “Istoé” e o Jornal do Brasil, em 1992. No ano de 1994, lança “Millôr definitivo — A bíblia do caos”. Escreve a peça “Kaos”, Adapta para a Rede Globo “Memórias de um sargento de milícias”. A partir de um argumento de Walter Salles, escreve o roteiro “Últimos diálogos”, em 1995. Em 1996, passa a colaborar nos jornais “O Dia” (RJ), “O Estado de São Paulo” (SP) e “Correio Braziliense” (DF). Neste último, trabalharia somente até o fim do ano. Em 1998, em parceria com Geraldo Carneiro e Jom Tob Azulay, assina o roteiro de “Mátria”. No ano seguinte, começa a adaptar “Os três mosqueteiros”, de Dumas, para o formato de musical, trabalho que não chegou a ser concluído. Em 2000, escreve o roteiro de “Brasil! Outros 500 — Uma PoopÓpera”, que teve sua estréia no Teatro Municipal de São Paulo. O espetáculo contava com músicas de Toquinho e Paulo César Pinheiro e arranjos de Wagner Tiso. Deixa de colaborar com “O Estado de São Paulo” e “O Dia”. Passa a colaborar com coluna semanal na “Folha de São Paulo”. Lança o site “Millôr On Line” (http://www.millor.com.br). No ano seguinte, deixa a “Folha de São Paulo” e volta ao “Jornal do Brasil”. Em 2002, publica “Crítica da razão impura ou O primado da ignorância”, em que analisa as obras “Brejal dos Guajas e outras histórias”, de José Sarney, e “Dependência e desenvolvimento na América Latina, de Fernando Henrique Cardoso. Deixa de colaborar, em novembro, com o “Jornal do Brasil”. Em 2003, ilustra “O menino”, volume de contos de João Uchoa Cavalcanti Netto, e faz cem desenhos para uma nova compilação das “Fábulas fabulosas”. Em 2004, lança pela Editora Record, “Apresentações”. Em meados de agosto de 2004 é anunciado seu retorno às folhas da revista semanal “Veja”, a partir de setembro daquele ano. Tempos atrás um jornal publicou que Millôr estava todo cheio de si por ter recebido, em sua casa, uma carta de um leitor com o seguinte endereçamento: "Millôr Ipanema" É a glória! Textos extraídos de livros do autor, da Internet, do CD "Em busca da Imperfeição", de 1999, produzido pela Neder & Associados e dos “Cadernos de Literatura Brasileira – Instituto Moreira Salles.

3 Comments

  1. Posted 5 março, 2009 at 3:44 pm | Permalink

    eu tenho esse trabalho para entregar segunda-feira
    mais agente não estar conseguindo encontrar todos emeios fabulas
    sera que o senhor ou a senhora poderia nus ajudar a prorcurar pq eu wendria sou 6ª a
    a professora:jaqueline
    passou esse trabalho para mim.
    mais eu queria muito guanhar 10 pontos para chegar 24 pontos .
    eu wendria tenho 12 anos e eu te pago para isooo bjs

  2. Posted 14 fevereiro, 2013 at 10:55 am | Permalink

    Silicone tends to be very resilient and because of the flexible nature of silicone it does not crack or break.
    Certainly remember to think about the manufacturing
    technology of the casing. User may charge their mobile in car
    too by connecting a car charger with their mobile.

  3. Posted 5 agosto, 2014 at 8:54 pm | Permalink

    Yes! Finally someone writes about candy crush hile.


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