SITUAÇÃO DA POESIA HOJE [de Affonso Romano de Sant’Anna]

Situação da poesia hoje

Affonso Romano de Sant’Anna

Affonso Romano de Sant Anna (Belo Horizonte MG, 1937) formou-se bacharel em Letras Neolatinas na Faculdade de Filosofia da UFMG, em 1962. Em 1964, tornou-se doutor em Literatura Brasileira pela UFMG, com tese sobre Carlos Drummond de Andrade. No ano seguinte seria publicado seu primeiro livro de poesia, Canto e Palavra. Na época, já trabalhava como colaborador em periódicos como Estado de Minas Gerais, Diário de Minas, Tendência e Leitura. Entre 1970 e 1983 foi diretor do Departamento de Letras e Artes da PUC/RJ, onde organizou a Expoesia (1973), espaço de encontro das novas correntes poéticas da década de 1970. Na década seguinte foi professor na Universidade do Texas (Estados Unidos), na Universidade de Colônia (Alemanha) e na Universidade de Aix-en-Provence (França). Entre 1990 e 1996 foi presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Publicou vários livros de ensaios e crônicas. A poesia de Affonso Romano de Sant’Anna, de tendência contemporânea, é influenciada pela obra de Carlos Drummond de Andrade, Cecilia Meireles, Manuel Bandeira, Mário de Andrade. Para o critico Donaldo Schuller, “a palavra, por construir, por reunir, por contestar, tem nos versos de Affonso ressonância helênica, traço de união entre corpos, entre o corpo e o universo.”.

Affonso Romano de Sant' Anna (Belo Horizonte MG, 1937) formou-se bacharel em Letras Neolatinas na Faculdade de Filosofia da UFMG, em 1962. Em 1964, tornou-se doutor em Literatura Brasileira pela UFMG, com tese sobre Carlos Drummond de Andrade. No ano seguinte seria publicado seu primeiro livro de poesia, Canto e Palavra. Na época, já trabalhava como colaborador em periódicos como Estado de Minas Gerais, Diário de Minas, Tendência e Leitura. Entre 1970 e 1983 foi diretor do Departamento de Letras e Artes da PUC/RJ, onde organizou a Expoesia (1973), espaço de encontro das novas correntes poéticas da década de 1970. Na década seguinte foi professor na Universidade do Texas (Estados Unidos), na Universidade de Colônia (Alemanha) e na Universidade de Aix-en-Provence (França). Entre 1990 e 1996 foi presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Publicou vários livros de ensaios e crônicas. A poesia de Affonso Romano de Sant’Anna, de tendência contemporânea, é influenciada pela obra de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Mário de Andrade. Para o crítico Donaldo Schuller, “a palavra, por construir, por reunir, por contestar, tem nos versos de Affonso ressonância helênica, traço de união entre corpos, entre o corpo e o universo.”.

A atual situação da poesia brasileira me lembra a palavra entropia. Dizem os especialistas que o universo vai desmilinguir-se entropicamente, e que não tem mais jeito. A rigor, pensei também numa expressão até mais apropriada: “dispersão poética”. É também mais sofisticada. E se fosse escrever um ensaio sobre isto, terminaria dizendo que somente uma intervenção crítica que operacionalize a “poética da dispersão” pode aclarar e superar a “dispersão poética”. Alguém o fará?

Comecei falando de entropia e dispersão, mas posso recomeçar de outro modo. Factual. Objetivo. A tal dispersão atinge, especialmente, os últimos 60 anos. Até o modernismo há um certo consenso em torno das grandes obras desse período. Pode haver uma ou outra discrepância, mas o conjunto é basicamente o mesmo. Depois é que a coisa pega. Como essa encrenca se deu, quais os responsáveis, que forças desintegradoras atuaram nisto, é tarefa para estudos e pesquisas. E tornando mais claro o que estou dizendo, avanço: é inadiável uma revisão da Geração 45, das vanguardas entre 56 e 68, da poesia marginal institucionalizada nos anos 70 e de uma série de nomes e autores que surgiram nas últimas décadas. 

Falei de entropia, falei de dispersão e agora sou forçado a retomar a palavra cânone. Nossa geração se vangloriou de acabar com o cânone. O canônico, paradoxal e ironicamente, era ser contra o cânone. Deu no que deu. Brecha para apressados, espertos e placebos. Não se percebia que ser contra o cânone era uma estratégia de poder, entrar no desejado/aspirado cânone pela janela ou porta de trás. Deu no que deu: geléia geral. Tem quem goste. Há gosto para tudo. 

Falo como quem participou ostensivamente nos últimos 50 anos dos caminhos e descaminhos da poesia brasileira. Quando comecei, nos anos 50, o modernismo estava no auge e seus poetas maiores estavam tendo a edição de suas poesias completas. Assisti ao apogeu da Geração 45 que ocupava suplementos, revistas e programas de rádio com seus poetas sendo celebrados. Vi (e participei) da emergência das vanguardas (1956-1968). Vi (e participei) da efervescência lítero-musical dos anos 60 e 70. Vi (e participei) da configuração da poesia marginal nos anos 70 e assisti à sua institucionalização universitária. Vi pessoas e grupos agressivamente aparecerem, alardearem que descobriram a “fórmula da verdadeira poesia”, e desaparecerem. 

Durante todo esse tempo, fui júri de dezenas de prêmios de poesia, fui crítico, ajudei a editar poetas em livros e revistas. Repito, participei dos caminhos e descaminhos da poesia brasileira nos últimos 50 anos denunciando sempre a “luta pelo poder literário” e buscando o diálogo. E acho que hoje as coisas estão muito confusas e têm que ser revistas. Não podemos botar a culpa só na “fragmentação” típica da pós-modernidade e fingir que não é conosco. 

Insistindo na urgência de se passar a limpo o século XX algumas questões me parecem pertinentes em relação à poesia: 

1. Será que não é um erro fazer um pacote e jogar no lixo a Geração 45, livrando a cara apenas de João Cabral? O quanto de pré-conceito, de patrulhamento, de briga de gerações havia na estratégia de descartar tantos autores que são julgados sem serem lidos? Dou exemplo de uma das clamorosas injustiças ― Paulo Mendes Campos. Foi trucidado pela juvenilidade auriverde de Mário Faustino e ignorado pelos que vieram depois. 

2. As “vanguardas” dos anos 50 e 60, graças ao seu charme utópico e à neofilia não teriam sido supervalorizadas? O que restou de tanto messianismo e salvacionismo, o que restou de poesia em tudo isto? 

3. Reconhecendo o papel da música popular no contexto histórico e político dos anos 60 e 70, não teria ocorrido, no entanto, um exagero de teses sobre compositores e músicos juvenilmente transformados em grandes vates? 

4. Será que alguns “poetas marginais” tão institucionalizados são assim tão relevantes? 

5. Enfim, um problema que transcende a poesia. A questão sócio-antropológica da mediação e da legitimação. Até os anos 70 havia uma meia dúzia de críticos de repercussão nacional que funcionavam como instância legitimadora (ou não). O país que tinha 70 milhões hoje tem cerca 200 milhões de habitantes. Aumentou o número de poetas e dissolveram-se as instâncias mediadoras e legitimadoras. Os suplementos, cedendo à sociedade do espetáculo, optaram por resenhas e reportagens. E ocorreu o fenômeno que chamo de “evangelização da crítica”, pastores criam seitas no fundo de quintal e pastoreiam seus fiéis.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no jornalRascunho, na edição de agosto de 2008. Leia também “O poeta em pânico“.

Affonso Romano de Sant’Anna
Rio de Janeiro, 8/9/2008

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Extraído de http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=270

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