MICHELINY VERUNSCHK

 

Escritora. Autora de Geografia Íntima do Deserto e O Observador e o Nada. Blogólatra compulsiva confessa. Mãe e aprendiz de feiticeira.

MICHELINY VERUNSCHK, poeta e historiadora, nasceu em Recife (PE), em 1971. Publicou os livros de poesia Geografia Íntima do Deserto e O Observador e o Nada, ambos de 2003. Define-se como: Escritora. Autora de Geografia Íntima do Deserto e O Observador e o Nada. Blogólatra compulsiva confessa. Mãe e aprendiz de feiticeira.

O primeiro, do livro quase pronto ( se é que um dia acharei que um livro meu estará “pronto”), A Cartografia da Noite:

 

Cerco

 

Uma palavra

espreita

e se esgueira

entre todas as frases

não lidas.

Lambe,

com um longo l,

suas próprias letras,

desde as vogais atentas

às consoantes hirsutas de frio.

Salta as armadilhas do poema.

Escapa

a todo laço,

dedos,

canetas,

memória,

dicionário.

Estala,

folha seca.

Mineraliza-se,

sólido concreto.

Respira ofegante

como quem se afoga

ou antecipa o bote.

Transforma-se

em inúmeros bichos

e foge.

 

E esse outro, do livro Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003)

 

Um Canto Obsessivo

 

O que habita este envelope fechado?

Um animal ou uma máquina

que engendra surpresas mal-queridas?

O que se escuta são risadas,

o trabalho de uma usina,

ou serão garras que rasgam papéis,

mapas,

festas gregas em que se quebram pratos?

Que mecanismos trabalham nesta carta?

Seu tic-tac é de bomba,

de conta atrasada,

de contagem regressiva?

Talvez intimação da justiça

ou uma ação de despejo da própria vida.

Talvez nada,

só um convite para a liquidação

da loja mais próxima

ou o coração de um indigente

pingando ainda,

material didático para a aula de anatomia.

Talvez nada,

só uma carta,

papel contra papel,

uma rosa desfolhada

e um amontoado de letras desconexas.

Notícias,

um pedido que morre,

a graça que fica,

a guerra que arde no íntimo amigo.

Talvez tudo,

um bicho traiçoeiro e pardo e mudo

ataviado de selos e outros enfeites,

mas muito ágil em cravar os dentes,

ele todo um ríctus de espinhos

que desfibra a vítima.

Que palavras guardam este cofre?

Que susto de presente?

Que bote?

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