CONTO: A Sentença [de Sonia Regina Rocha Rodrigues]

 

A sentença

 por Sonia Regina Rocha Rodrigues

 

Sonia Regina Rocha Rodrigues é escritora. Membro da Academia Feminina de Ciências. Letras e Artes de Santos. Membro do Grupo de Haicai Caminho das Águas. Médica – pediatra, com pós-graduação em Saúde Pública e em PNL; master em PNL – Programação Neurolinguistica. Ativista cultural - coeditora do jornal literário Um Dedo de Prosa e da revista Chapéu-de-Sol, em parceria com as escritoras Madô Martins, Neiva Pavesi e Mahelen Madureira.

Sonia Regina Rocha Rodrigues é escritora. Membro da Academia Feminina de Ciências. Letras e Artes de Santos. Membro do Grupo de Haicai Caminho das Águas. Médica – pediatra, com pós-graduação em Saúde Pública e em PNL; master em PNL – Programação Neurolinguística. Ativista cultural - coeditora do jornal literário Um Dedo de Prosa e da revista Chapéu-de-Sol, em parceria com as escritoras Madô Martins, Neiva Pavesi e Mahelen Madureira.

Por que não morre?
O pensamento passou leve como a lembrança da fala pertencente a uma personagem ausente em um drama distante. Quase a adormecer de cansaço, ela estremeceu. E nunca mais seu coração descansou.
Ela recordava como olhara com prazer e orgulho as bochechas rosadas do caçula no sono profundo dos bebês desejados. À memória vinha também o riso gargarejante, as mãozinhas buliçosas, o olhar curioso do garotinho tão amado até que…
Ele não se sentou na idade em que os bebês costumam sentar-se, começou a engasgar, a respirar mal e o chocalho lhe caía das mãos.
A rotina da casa transformou-se. Os médicos se contradiziam, os exames tardavam, as agendas lotavam-se de fisioterapias, consultas a especialistas, internações.
O nome da doença degenerativa progressiva involutiva crônica ela não entendeu. Só soube que o filho ia piorar, não tinha cura, não passava para os irmãos mas necessitava de cuidados constantes.
Imersa em dor ela nem percebeu que as semanas viraram meses e depois anos. Agora, enfermeira em tempo integral, afastara-se do emprego, privava-se dos benefícios do trabalho. a pós-graduação que iniciara foi abandonada. Evitava os amigos e desestimulava as visitas dos parentes, fosse algum trazer do mundo exterior algum vírus letal ao doentinho.
As crianças mais velhas recebiam beijos apressados e olhares distraídos. Desde o início da doença, o pai passara a levar os maiores para a escola, ia buscá-los e nos fins de semana afastava-se com eles para o futebol. E uma tarde, estando o caçula hospitalizado, ela retornou para uma casa vazia. O marido requereu o divórcio e aa guarda dos filhos maiores, com total apoio dos sogros.
Do leito frio para os corredores silenciosos, ela se consumia entre fraldas, alimentos, remédios e inaladores.
Ora, aconteceu de o garoto da esquina, portador de síndrome de Down, falecer a caminho do hospital. A vizinha se descuidara do médico, atarefada entre entregas de iogurte caseiro e a lavagem das roupas das clientes. Em um ano procurara o pediatra uma única vez e recusara-se a ouvir que o filho, além de diferente também fosse doente cardíaco, apesar de perceber o rosto inchado e da respiração difícil do garoto.
Nesta noite ela soube, conversando com amigos pediatras, que alguns médicos consideram grande parte das mortes acidentais de crianças deficientes como homicídio inconscientemente elaborado.
Esquecendo a torneira da banheira aberta, a panela de água fervente com o cabo para fora, medicamentos em locais de fácil acesso, um janela aberta….um acidente libera os pais daquele pesado fardo. O descaso pelo acompanhamento médico de um garoto Down, segundo estes médicos, enquadrava-se na definição do tal ‘homicídio inconscientemente elaborado’.
Ela ouvia aterrorizada, discordando, pois o coração de qualquer mãe desdobra-se em sacrifícios pela prole! Não é sempre assim?
Aquela noite, ao debruçar-se sobre o rostinho adormecido de seu próprio filho, o pensamento apenas sugerido:
Por que não morre?
Ah, como ela desejava de volta a sua vida – seu trabalho, sua tese, seu lazer, seus cuidados pessoais, seus amigos, seu marido.
Quando ela era uma menina, o professor de catecismo, em uma aula, leu da Bíblia estas palavras cruéis e definitivas:
“Pois eu lhes digo que aquele que olhar com desejo para a mulher do próximo, em seu coração já cometeu adultério.”
Ela escutou as explicações do padre, inconformada por ser tão difícil ser bom! Revoltou-se:
Então, padre, quando a gente pensa em mentir mas conta a verdade e quando uma pessoa pensa em roubar mas não rouba, se segura e faz o que é certo? Então, isto não vale nada?
E o padre confirmou:
Pequena, aquele que pensou no pecado, já pecou em seu coração.
Ela tumultuou a aula. Tanto sacrifício para nada! Jesus era um deus muito exigente!
Desse dia em diante, ela passava o dedo no glacê dos bolos de aniversário às escondidas e roubava biscoitos no pote guardado no armário. Se já pecara mesmo…
O professor de catecismo dizia umas coisas esquisitas, algumas ela jamais entendera, mesmo que estivessem na Bíblia, este livro cheio de mistérios.
A angústia da noite em que ela pensou “por que não morre?” não se aliviou em lágrimas, antes tirou-lhe o sono, o apetite e até a alegria de cuidar do doentinho.
Ela contratou duas enfermeiras para garantir que cada gesto seu fosse vigiado, tal o medo que passara a sentir de adormecer em hora imprópria, misturar os frascos dos remédios, esquecer de agasalhar o menino em uma noite fria.
Nunca o pequeno fora tão bem lavado, penteado, perfumado e enfeitado. Com que capricho ela mantinha seu quarto imaculadamente limpo! Com que cuidado escolhia para ele os legumes mais fresquinhos e as frutas mais saborosas!
Ela ia definhando a cada dia sem que ninguém suspeitasse que, por detrás das olheiras e das faces pálidas, ela agora compreendia como ninguém outra das estranhas afirmações do professor de catecismo:
“Deus não castiga ninguém. É o pecado que traz em seu bojo o seu próprio castigo.”

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