PEDRO NAVA

 

Noturno de Chopin

...possuia essa capacidade meio demoniaca meio angélica de transformar em palavras o mundo feito de acontecimentos. Nava também possuia grande talento de pintor, e só não o foi profissionalmente por opção. Cometeu suicidio com um tiro na cabeça aos 80 anos, por razões desconhecidas, numa praça do bairro da Glória, após ter atendido, em seu apartamento, a um misterioso telefonema. Hoje cogita-se que Nava vinha sendo chantageado por um garoto de programa, informação encoberta pela imprensa à época. Mas Ricardo Setti, em artigo publicado em Observatório da Imprensa, afirma que Zuenir viu-se intensamente pressionado pelo meio cultural. De sua parte, considerava que o relato provinha de fonte pouco confiável. No final, passou as informações para a sede da revista em São Paulo, enviou a reportagem, contendo um curto parágrafo com a hipótese de chantagem sexual, mas manifestou vigorosamente sua oposição a que o parágrafo fosse publicado. Há de se considerar, no entanto, que Zuenir não colheu pessoalmente o relato do garoto de programa; mas os jornalistas que o fizeram, consideraram o testemunho bastante verossimil.

Pedro da Silva Nava (Juiz de Fora, 5 de junho de 1903 — Rio de Janeiro, 13 de maio de 1984) foi um médico e escritor brasileiro. Formou‐se em Medicina na Universidade de Minas Gerais em 1927 e participou da geração modernista de Belo Horizonte. Como escritor se tornou o maior memorialista da literatura brasileira, autor de seis livros. O primeiro, Baú de Ossos, e ainda Chão de Ferro, Beira Mar, Galo das Trevas e, por último, O Círio Perfeito. Pedro Nava traçou nestas obras um completo painel da cultura brasileira no século XX, além dos costumes familiares e sua cultura popular. Suas páginas sobre a medicina figuram como das maiores que se tenham escrito na literatura brasileira. A Belo Horizonte de seus anos vinte e o Rio Antigo passeiam em suas narrativas como uma força poética e uma profundidade observacional que muitas vezes se transformam em pura poesia, levando o leitor a um mundo mágico. No dizer de Carlos Drummond de Andrade: "...possuía essa capacidade meio demoníaca meio angélica de transformar em palavras o mundo feito de acontecimentos." Nava também possuía grande talento de pintor, e só não o foi profissionalmente por opção. Cometeu suicídio com um tiro na cabeça aos 80 anos, por razões desconhecidas, numa praça do bairro da Glória, após ter atendido, em seu apartamento, a um misterioso telefonema. Hoje cogita-se que Nava vinha sendo chantageado por um garoto de programa, informação encoberta pela imprensa à época. Mas Ricardo Setti, em artigo publicado em Observatório da Imprensa, afirma que "Zuenir viu-se intensamente pressionado pelo meio cultural. De sua parte, considerava que o relato provinha de fonte pouco confiável. No final, passou as informações para a sede da revista em São Paulo, enviou a reportagem, contendo um curto parágrafo com a hipótese de chantagem sexual, mas manifestou vigorosamente sua oposição a que o parágrafo fosse publicado". Há de se considerar, no entanto, que Zuenir não colheu pessoalmente o relato do garoto de programa; mas os jornalistas que o fizeram, consideraram o testemunho bastante verossímil.

Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim…
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim…

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor…

O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor…)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.

Pedro Nava
(1903-1984)

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