O HOMEM QUE RUMINAVA DÍVIDAS NO FUNDO DO QUINTAL

O homem que ruminava dívidas no fundo do quintal

© DE João Batista do Lago

 

ali estava ele sentado

se guardando de todos os males

ali estava ele

bem no fundo do quintal

ruminando dívidas

dívidas de vidas

todas divididas

no espectro funeral

daquele homem

então morto de tantas vidas

devidas de divididas dívidas

crescidas em cada amanhecer…

 

no pé do sapotizeiro

– único confidente solitário

daquele homem solitário –

a molecada gritava sem medo da vida

ainda não dividida pelas dívidas da vida…

e todo aquele zoeiro era observado

pelos olhos dum vivo-morto

aquele homem já velho e cansado

de tanto e tanto e quanto amargurado

de tanta e tanta e quanta dívida

de quanta e quanta e tantas vidas divididas

soletrava com os olhos o carinho que amava a molecada…

 

mas naquele dia algo estava diferente

sua expressão não demonstrava carinho

tampouco dor ou qualquer horror

não havia como decifrar aquele olhar indecifrável

frágil, distante, com uma pedra de lágrima escorrendo

pelas paredes das narinas até atingir a boca onde ficara parada sem qualquer degustação…

comprendeu-se então que aquele homem

não mais olhava a molecada, não mais sentia

a barriga cheia de dívidas – dor de barriga de dívidas de vidas divididas! –

não mais havia aquele homem ruminando dívidas no fundo do quintal

não mais havia sapotizeiro nem o carinho zombeteiro daquele olhar cheio de dívidas

não mais havia cobrador para dizer: “Ele não está. Saiu. Foi caminhar…”

One Comment

  1. Posted 11 novembro, 2008 at 7:14 am | Permalink

    Gostei muito de sentir este ‘olhar de um homem de barriga cheia de dívidas’. Enquanto a velhice se debruça sobre a vida com o olhar de cansaço a molecada se abriga de uma vida que ainda não é dela e, por isso, vive intensa e sofregamente. Abraço João Batista do Lago, Antero


Comente

Required fields are marked *
*
*

%d blogueiros gostam disto: