JOSÉ PACHECO

A chegada de Lampião no inferno

José Pacheco

Há controvérsia sobre o lugar de nascimento de José Pacheco. Para alguns, ele nasceu em Porto Calvo, Alagoas; há quem firme ter sido o autor de A Chegada de Lampião no Inferno, pernambucano de Correntes. A verdade é que José Pacheco, que teria nascido em 1890, faleceu em Maceió na década de 50, havendo quem informe a data de 27 de abril de 1954, como a do seu falecimento. Seu gênero preferido parece ter sido o gracejo, no qual nos deu verdadeiros clássicos. Escreveu também folhetos de outros gêneros.

Há controvérsia sobre o lugar de nascimento de José Pacheco. Para alguns, ele nasceu em Porto Calvo, Alagoas; há quem firme ter sido o autor de "A Chegada de Lampião no Inferno", pernambucano de Correntes. A verdade é que José Pacheco, que teria nascido em 1890, faleceu em Maceió na década de 50, havendo quem informe a data de 27 de abril de 1954, como a do seu falecimento. Seu gênero preferido parece ter sido o gracejo, no qual nos deu verdadeiros clássicos. Escreveu também folhetos de outros gêneros.

José Pacheco – (Correntes, PE, ?-Maceió, AL, 1954) José Pacheco trabalhou em feiras vendendo os seus folhetos e gêneros alimentícios. A aventura, a coragem, o mistério, a crítica social, as “pelejas”, estão presentes nas suas composições (como, de resto, nas de muitos poetas populares). Já dá para notar o caráter jocoso de sua literatura em alguns dos títulos dos seus folhetos: O aparecimento do Pe. Cícero a uma Beata Santa, Dois glosadores Barra-Mansa e Torce-Bola, A festa dos cachorros, Grande debate que teve Lampião com São Pedro, Grinaura e Sebastião, História do cagador que foi ao inferno, Intriga do cachorro e o gato, Os mamadores da Negra dum Peito Só, A mulher no lugar do homem, As Palhaçadas do caboclo na hora da confissão, Peleja de João Ataíde e José Pacheco, Peleja de Vicente Sabiá com Antônio Cogueiro, O prazer do rico e o sofrimento do pobre, A Princesa Rosa Munda ou a morte do Gigante, Propaganda do matuto com o balaio de maxixe, Os sofrimentos de N. S. Jesus Cristo. A Editora Luzeiro, de São Paulo, em sua Coleção Luzeiro de Literatura de Cordel, reeditou há alguns anos A chegada de Lampião no inferno.

* * * * *

 

Um cabra de Lampião,

Por nome Pilão-Deitado,

Que morreu numa trincheira

Um certo tempo passado,

Agora pelo sertão

Anda correndo visão,

Fazendo mal assombrado.

E foi quem trouxe a notícia

Que viu Lampião chegar.

O Inferno, nesse dia,

Faltou pouco pra virar –

Incendiou-se o mercado,

Morreu tanto cão queimado,

Que faz pena até contar!

Morreu a mãe de Canguinha,

O pai de Forrobodó,

Cem netos de Parafuso,

Um cão chamado Cotó.

Escapuliu Boca-Insossa

E uma moleca moça

Quase queimava o totó.

Morreram cem negros velhos

Que não trabalhavam mais,

Um cão chamado Traz-Cá,

Vira-Volta e Capataz,

Tromba-Suja e Bigodeira,

Um cão chamado Goteira,

Cunhado de Satanás.

Vamos tratar na chegada,

Quando Lampião bateu.

Um moleque ainda moço

No portão apareceu:

– Quem é você, cavalheiro?

– Moleque, sou cangaceiro!

Lampião lhe respondeu.

– Moleque, não! Sou vigia!

E não sou seu parceiro –

E você aqui não entra,

Sem dizer quem é primeiro!

– Moleque, abra o portão!

Saiba que sou Lampião,

Assombro do mundo inteiro!

Então, esse tal vigia,

Que trabalha no portão,

, Dá pisa que voa cinza,

Não procura distinção!

O negro escreveu não leu,

A macaíba comeu –

Ali não se usa perdão!

O vigia disse assim:

– Fique fora, que eu entro.

Vou conversar com o chefe,

No gabinete do centro –

Por certo ele não lhe quer,

Mas, conforme o que disser,

Eu levo o senhor pra dentro.

Lampião disse: – Vá logo,

Quem conversa perde hora –

Vá depressa e volte logo,

Eu quero pouca demora!

Se não me derem o ingresso,

Eu viro tudo às avesso,

Toco fogo e vou embora!

O vigia foi e disse

A Satanás, no salão:

– Saiba Vossa Senhoria

Que aí chegou Lampião,

Dizendo que quer entrar –

E eu vim lhe perguntar

Se dou-lhe o ingresso, ou não.

– Não senhor! Satanás disse.

Vá dizer que vá embora!

Só me chega gente ruim,

Eu ando muito caipora –

Eu já estou com vontade

De botar mais da metade

Dos que tenho aqui pôr fora!

Lampião é um bandido,

Ladrão da honestidade:

Só vem desmoralizar

 nossa propriedade –

í eu não vou procurar

Sarna para me coçar,

Sem haver necessidade!

Disse. o vigia: – Patrão,

A coisa vai se arruinar!

Eu sei que ele se dana,

quando não puder entrar!

Satanás disse: – Isso é nada!

Convida aí a negrada

E leve os que precisar!

Leve cem dúzias de negros,

Entre homem e mulher;

Vai na loja de ferragem,

Tire as armas que quiser.

É bom avisar também

Pra vir os negros que tem,

Mais compadre Lúcifer!

E reuniu-se a negrada:

Primeiro chegou Fuxico,

Com um bacamarte velho,

Gritando por Cão-de-Bico

Que trouxesse o pau da prensa

E fosse chamar Tangença,

Em casa de Maçarico.

E depois chegou Cambota,

Endireitando o boné,

Formigueira e Trupezupé,

E o Crioulo-Queté.

Chegou Bagé e Pecaia,

Rabisca e Cordão-de-Saia,

E foram chamar Banzé.

Veio uma diaba moça,

Com a calçola de meia.

Puxou a vara da cerca,

Dizendo: – A coisa está feia –

Hoje o negócio se dana!

E gritou: – Eta, baiana!

Agora o tipo vadeia!

E saiu a tropa armada

Em direção do terreiro,

Com faca, pistola e facão,

Clavinote, granadeiro.

Uma negra também vinha

Com a trempe da cozinha

E o pau de bater tempero.

Quando Lampião deu fé

Da tropa negra encostada,

Disse: – Só na Abissínía!

Oh, tropa preta danada!

O chefe do batalhão

Gritou, de armas na mão:

– Toca-lhe fogo, negrada!

Nessa voz, ouviu-se os tiros,

Que só pipoca no caco.

Lampião pulava tanto,

Que parecia um macaco!

Tinha um negro nesse meio

Que, durante o tiroteio,

Brigou tomando tabaco.

Acabou-se o tiroteio

Por falta de munição,

Mas o cacete batia,

Negro enrolava no chão.

Pau e pedra que achavam,

Era o que as mãos pegavam,

Sacudiam em Lampião.

– Chega atrás um armamento!

Assim gritava o vigia.

Traz a pá de mexer doce!

Lasca os ganchos de caria!

faz um bilro de Macau!

Corre, vai buscar um pau,

Na cerca da padaria!

Lúcifer com Satanás

Vieram olhar, do terraço,

Todos contra Lampião,

De cacete, faca e braço.

O comandante, no grito,

Dizia: – Briga bonito,

Negrada! Chega-lhe o aço!

Lampião pôde apanhar

Uma caveira de boi.

Sacudiu na testa dum,

Ele só fez dizer: – Oi!

Ainda correu dez braças

E caiu, segurando as calças –

Mas eu não sei por que foi!

Estava travada a luta,

Mais de uma hora fazia.

A poeira cobria tudo,

Negro embolava e gemia,

Porém Lampião ferido

Ainda não tinha sido,

Devido à grande energia.

Lampião pegou um seixo

E rebolou-o num cão,

Mas o que arrebentou?

A vidraça do oitão –

Saiu um fogo azulado,

Incendiou o mercado

E o armazém de algodão.

Satanás, com esse incêndio,

Tocou no búzio, chamando.

Correram todos os negros

Que se achavam brigando.

Lampião pegou a olhar –

Não vendo com quem brigar,

Também foi se retirando.

Houve grande prejuízo

No inferno, nesse dia:

Queimou-se todo o dinheiro

Que Satanás possuía,

Queimou-se o livro de pontos,

Perdeu-se vinte mil contos,

Somente em mercadoria.

Reclamava Lúcifer:

– Horror maior não precisa!

Os anos ruins de safra,

Agora mais esta pisa –

Se não houver bom inverno,

Tão cedo aqui, no inferno,

Ninguém compra uma camisa!

Leitores, vou terminar,

Tratando de Lampião,

Muito embora que não possa

Vos dar a explicação –

No inferno não ficou,

No céu também não chegou:

Por certo está no sertão!

Quem duvidar desta história,

Pensar que não foi assim,

Quiser zombar do meu sério,

Não acreditando em mim –

Vai comprar papel moderno,

Escreva para o Inferno,

Mande saber de Caim!

 

(Transcrito de A chegada de Lampião no inferno, pp. 3 – 9 )

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