MANOEL CAMILO DOS SANTOS

 

Viagem a “São Saruê”

Manoel Camilo dos Santos

Amada nos altos montes, A bela sertaneja, Choro dos nortistas no Rio, O forte paraibano, A moça que dançou com o Diabo cantando Cintura Fina, A rainha das fadas misteriosas, O terror do banditismo, A vida do Pe. Cicero e Viagem a `São Saruê.

Manoel Camilo dos Santos - (Guarabira, PB, 1905 - Campina Grande, PB, 1987 Thiers Martins Moreira aponta os temas que normalmente são aproveitados por um poeta popular como Manoel Camilo dos Santos: "Os acontecimentos importantes do Brasil, de países distantes ou da localidade, as estórias tradicionais, os elementos folclóricos, personagens reais ou da ficção e das lendas, todo um mundo de tema, de traços de vida, em que se possa colher um interesse sentimental ou o intrincado de uma ação, ou onde, simplesmente, se possa encontrar matéria para curiosidade do ouvinte, o trovador toma para si". Da vasta produção de folhetos de cordel de Manoel Camilo dos Santos, destacamos: Amada nos altos montes, A bela sertaneja, Choro dos nortistas no Rio, O forte paraibano, A moça que dançou com o Diabo cantando Cintura Fina, A rainha das fadas misteriosas, O terror do banditismo, A vida do Pe. Cícero e Viagem a `São Saruê".

Doutor mestre pensamento

Me disse um dia: – você

Camilo, vá visitar

O país “São Saruê”

Pois é o lugar melhor

Que neste mundo se vê.

Eu que desde pequenino

Sempre ouvia falar

Nesse tal “São Saruê”

Destinei-me a viajar

Com ordem do pensamento

Fui conhecer o lugar.

Iniciei a viagem

Às duas da madrugada

‘romei o carro da brisa

Passei pela alvorada

Junto do quebrar da barra

Eu vi a aurora abismada.

Pela aragem matutina

Eu avistei bem defronte

A irmã da linda aurora

Que se banhava na fonte

Já o sol vinha espargindo

No além do horizonte.

Surgia o dia risonho

na primavera imponente

as horas passavam lentas

o espaço encandescente

transformava a brisa mansa

em um mormaço dolente.

Passei do carro da brisa

para o carro do mormaço

o’ qual veloz penetrou

no além do grande espaço

nos confins dos horizontes

senti do dia o cansaço.

Enquanto a tarde caía

entre mistérios e segredos

a viração docilmente

afagava os arvoredos

os últimos raios do sol

bordavam os altos penedos.

Morreu a tarde e a noite

assumiu sua chefia

deixei o mormaço e tomei

o carro da neve fria

vi os mistérios da noite

esperando pelo dia.

Ao romper da nova aurora

senti o carro parar

olhei e vi uma praia

sublime de encantar

o mar revolto banhando

as dunas da beira-mar.

Mais adiante uma cidade

como nunca vi igual

toda coberta de ouro

e forrada de cristal

ali não existe pobre

é tudo rico em geral.

Uma barra d’ouro puro

servindo de placa, eu vi

com as letras de brilhantes

chegando mais perto eu li

dizendo: “São Saruê”

é este lugar aqui.

Quando avistei o povo

fiquei de tudo abismado

era um povo alegre e forte

sadio e civilizado

bom tratável e benfazejo

por todos fui abraçado.

O povo em “São Saruê”

tudo tem felicidade

passa bem, anda decente

não há contrariedade

sem precisar trabalhar

e tem dinheiro à vontade.

Lá os tijolos das casas

são de cristal e marfim

as portas barras de prata

fechaduras de rubim

as telhas, folhas de ouro

e o piso de cetim.

Lá eu vi rios de leite

barreira de carne assada

lagoa de mel de abelhas

atoleiro de coalhada

açude de vinho quinado

monte de carne guisada.

As pedras em “São Saruê”

são de queijo e rapadura

as cacimbas são café

já coado e com quentura

de tudo assim por diante

existe grande fartura.

Feijão lá nasce no mato

já maduro e cozinhado

o arroz nasce nas varzeas

já prontinho e despopado

peru nasce de escova

sem comer vive cevado.

Galinha põe todo dia

em vez de ovos é capão

o trigo em vez de semente

bota cachadas de pão

manteiga lá cai das nuvens

fazendo ruma no chão.

Os peixes lá são tão mansos

com o povo acostumados

saem do mar vêm para as casas

são grandes gordos e cevados

é só pegar e comer

pois todos vivem guidos.

Tudo lá é bom e fácil

não precisa se comprar

não há fome e nem doença

o povo vive a gozar

tem tudo e não falta nada

sem precisar trabalhar.

Maniva lá não se planta

nasce e em vez de mandioca

bota cachos de beijus

e palmas de tapioca

milho, a espiga é pamonha

e o pendão é pipoca.

As canas em “São Saruê”

em vez de bagaço é caldo

umas são canos de mel

outras açúcar refinado

as folhas são cinturão

de pelica preparado.

Os pés de chapéus de massa

são tão grandes e carregados

os de sapatos da moda

têm cada cachos “aloprados”

os pés de meias de seda

chega vivem escangalhados.

Sítios de pés de dinheiros

que faz chamar atenção

os cachos de notas grandes

chega arrasta pelo chão

as moitas de prata e níquel

são mesmo que algodão.

Os pés de notas de contos

carrega que encapota

pode tirar-se à vontade

quanto mais velho mais bota

além dos cachos que têm

cascas e folhas, tudo é nota.

Lá os pés de casimiras

brim borracha e tropical

raiom, brim de linho e cáqui

e de seda especial

já botam as roupas prontas

própria para o pessoal.

Lá quando nasce um menino

não dar trabalho a criar

já é falando e já sabe

ler, escrever e contar

canta, corre, salta e faz

tudo quanto se mandar.

Lá tem um rio chamado

o banho da mocidade

onde um velho de cem anos

tomando banho à vontade

quando sai fora parece

ter 20 anos de idade.

Lá não se ver mulher feia

e toda moça é formosa

alva, rica e bem decente

fantasiada e cheirosa

igual a um lindo jardim

repleto de cravo e rosa.

É um lugar magnífico

onde eu passei muitos dias

passando bem e gozando

prazer, amor, simpatias

todo esse tempo ocupei-me

em recitar poesias.

Ao sair de lá me deram

uns pacotes de papéis

era dinheiro emarçado

notas de contos de réis

quinhentos, duzentos e cem

de cinqüenta, vinte e dez.

Lá existe tudo quanto é de beleza

tudo quanto é bom, belo e bonito

parece um lugar santo e bendito

ou o jardim da Divina Natureza

imita muito bem pela grandeza

a terra da antiga promissão

para onde Moisés e Aarão

conduzia o povo de Israel

onde dizem que corria leite e mel

e caía manjar do céu ao chão.

Tudo lá é festa e harmonia

amor, paz, bem-querer, felicidade

descanso, sossego e amizade

prazer, tranqüilidade e alegria

na véspera d’eu sair naquele dia

um discurso poético lá eu fiz

me deram a mandado do juiz

um anel de brilhante e de rubim

no qual um letreiro diz assim:

– feliz é quem visita este país.

Vou terminar avisando

a qualquer um amiguinho

que quiser ir para lá

posso ensinar o caminho

porém só ensino a quem

me comprar um folhetinho.

Campina Grande, 07/OSl1956.

 

(Transcrito de Literatura Popular em verso, pp. 555 – 558)

Comente

Required fields are marked *
*
*

%d blogueiros gostam disto: