CARTA DOS DIAS… [de Abilio Machado]

Carta dos dias…

Abilio Machado

3º lugar em Salão de Desenho de Campo Largo e 2º lugar no Concurso de Pinturas Psicodélicas da Number One e a honra de pintar dois painéis no Museu Histórico de Campo Largo (Piet e Capela do Tamandui); designer de jóias e ourives-relojoeiro; desconstrutor, mamulengo, ator e diretor; roteirista para cinema e TV; poeta participante da antologia poética ˜O Labirinto de Espelhos. Autor de vários textos teatrais, tendo sua Última participação no I Festival de Teatro de Pinhais recebendo o prêmio de Melhor texto Original no Âmbito Geral do Festival, com o texto MORTE E SUCO DE LARANJA, um texto com poesia do começo ao fim, trabalhado sob a técnica do teatro barroco.

Abilio Machado de Lima Filho Ou Poet Ha, Abilio Machado é natural de Campo Largo, Paraná. Nascido aos 05 de setembro de 1965. Foi sócio fundador do Jornal Campo Cultural, publicação voltada exclusivamente ao movimento cultural da cidade de Campo Largo, onde foi redator e pesquisador. Como artista plástico ganhou prêmios como: 3º lugar em Salão de Desenho de Campo Largo e 2º lugar no Concurso de Pinturas Psicodélicas da Number One e a honra de pintar dois painéis no Museu Histórico de Campo Largo (Piet e Capela do Tamanduí); designer de jóias e ourives-relojoeiro; desconstrutor, mamulengo, ator e diretor; roteirista para cinema e TV; poeta participante da antologia poética ˜O Labirinto de Espelhos". Autor de vários textos teatrais, tendo sua Última participação no I Festival de Teatro de Pinhais recebendo o prêmio de Melhor texto Original no Âmbito Geral do Festival, com o texto MORTE E SUCO DE LARANJA, um texto com poesia do começo ao fim, trabalhado sob a técnica do teatro barroco.

Oi…?! 

Tenho algumas palavras para dizer…
Espero que ainda esteja aí a me ouvir…
Ou para me ler…
A rua está alegre hoje,
as árvores se enfeitaram com suas grandes flores amarelas,
os pássaros falantes tomam seus lugares em seus galhos,
o sol ainda que tímido ilumina este palco de nossa casa,
os cães ladram aos passantes
e meus olhos se jogam ao horizonte na esperança…
Esperança nua e crua de te ver dobrar a esquina…
Ali, quase ao alcance de minhas mãos…

A rua está no mesmo lugar, ao vento o mesmo sentido,
Aquelas árvores renderam-se aos dias
e suas saias amarelas estão forrando o chão,
tamanha tristeza e fim
Os pássaros alardeiam ainda todas as manhãs nos mesmos galhos de ontem
E de antes e antes…
Tentam aliviar a espera do sol, que vem alegre prometendo aquecer meu espetáculo de vida…
Mas em outros, ele o sol, se põe a derramar lágrimas que acompanham as minhas…
Os cães que agora só são dois fazem suas rotineiras corridas pelo quintal
Cansados me abanam os rabos de língua para fora um tanto sorridentes
Vêem quando notam que lá estou eu na varanda
O olhar perdido à esquina
Coração acelerado, mãos suadas e um meio sorriso
Que logo murcha com o cerrar dos olhos
Isso acontece…
Quando me dou conta que você não vem…

Tenho medo de fechar a porta
Tenho medo de me ausentar de mim
Seria plágio citar que dos nossos planos é que tenho mais saudades?
Quando olhávamos juntos a mesma direção…?
Tenho medo de voltar á cama e te procurar também em meus sonhos
Tenho medo de todo dia esperar
Esperar vendo meu barco afundar à beira do cais…
Não consigo mais navegar
Nos meus teus olhos
Minhas lágrimas estão secas
A lembrar…
Da vontade que ainda tenho de você…
Isso acontece…
Quando me pergunto:
__Cadê você que ainda não chegou
Será que não vem…?!

Poet Ha Abilio Machado
* * * * *

One Comment

  1. carmen luiza ziege
    Posted 30 abril, 2012 at 5:33 pm | Permalink

    Sim, ainda estou aqui a ver, ouvir e relembrar…

    … Quando eu era criança lá no bairro de Santa Felicidade, era divertido para os pequenos quando alguém morria e tínhamos de “varar” a noite acompanhando os familiares nos preparativos para a guarda e sepultamento do falecido. O defunto geralmente ficava deitado em sua própria cama enquanto os homens providenciavam as tábuas, muitas vezes arrancadas de algum paiol ou cerca, e passavam a medir e cortar e pregar até montar o caixão. Enquanto os homens martelavam lá fora, “animados” por uma viola, violão ou sanfona e pandeiro, entoando cantigas religiosas, dentro de casa, as mulheres, entre rezas e ladainhas se dividiam em grupos para dar conta da organização do “evento”. Enquanto umas mediam, cortavam e costuravam a mortalha – roxa para os adultos, branca para os “anjos”, rosa para as solteiras e azul para os rapazes -; que cobriria o “ente partido”, outras, auxiliadas pelas mocinhas e crianças, confeccionavam flores de papel-seda coloridas. Havia ainda as senhoras que cuidavam da cozinha e de manter o fogão à lenha a pleno vapor para não faltar o chimarrão que pousava de boca em boca a partilhar daquele momento solene, o café quentinho, invariavelmente fraco e melado que aquecia os ânimos nas madrugadas mais frias de Curitiba. Ainda havia o grupo de senhoras encarregadas de lavar e vestir o defunto, e esta era a única atividade da qual nós, as crianças e as moças-donzelas não participavam. De quando em quando chegava uma “dona” trazendo um pão caseiro, daqueles que para segurar a fatia carecia das duas mãos, enrolado em um pano de saco alvinho. Não demorava, lá vinha a forma pretinha espalhando cheirinho de fubá com erva-doce. O chiado da gordura quente denunciava o mergulho do bolinho-da-graxa salgado ou do bolinho-de-chuva doce, polvilhado com açúcar e canela em pó quando tinha. E assim se seguiam os preparativos madrugada adentro, como se fossem cronometrados para terminarem com o clarear do dia. Quando então o defunto estava finalmente lavado, vestido com a sua roupa de “gala”, ornado com as flores de papel multicoloridas e o véu a separar-lhe do mundo dos vivos, era o momento de expor o falecido à visitação dos parentes que chegavam de viagem, dos conhecidos que moravam mais longe. Vez ou outra íamos dar uma olhadinha dentro do caixão para nos certificar de que nenhuma florzinha estava fora do lugar ou se por ventura alguma ponta do véu houvesse se soltado. Comentávamos entre nós, com indisfarsado orgulho, de como o falecido estava bem arranjado e reiterávamos a participação de cada um nas tarefas de arrumação e “embelezamento” do defunto. Naquele dia, as mães, por questão de respeito, não permitiam que o rádio fosse ligado e que as crianças brincassem com demasiado alvoroço. Tudo era solene. Mas também era leve. Acho que por isso, ainda hoje, aprecio tanto os cemitérios e suas lápides.

    DEFUNTO DE COLÔNIA
    (Carmen Luiza Ziege – 17/3/2008)


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