ENTREVISTA COM ANTONIO RISÉRIO [de ZUNÁI – Revista de poesia & debates]

Entrevista com Antonio Risério

por Fabrício Marques

 

Zunái – A simples existência de novos meios exige que eles sejam incorporados ao fazer poético? Se da forma nasce a idéia (via Flaubert), do “medium” surge o quê?

Adenor Gondim)

Antropólogo, historiador e poeta baiano. (Foto: Adenor Gondim)

AR – A matéria-prima do poeta é a palavra. Em qualquer sociedade, neandertalense ou informática, o poeta faz a mesmíssima coisa: jogo de linguagem. Marx (veja bem: Marx), que escrevia muito bem, dizia: sou um escritor – a forma é a minha propriedade. Poesia é linguagem formalizada, esteticamente artificializada. Não fosse assim, a Declaração dos Direitos Humanos, como disse Jakobson, seria o melhor poema já escrito. Agora, cada medium faz a sua exigência de linguagem. Compor em vídeo não é a mesma coisa que ver signos se fixando a fogo numa placa de barro. O poeta tem que saber jogar, inteligentemente, com as tecnologias do espírito.

 

Zunái – Uma ênfase no uso de suportes contemporâneos significa deixar o conteúdo em segundo plano? “O artista deve acompanhar o desenvolvimento das forças produtivas”? O “mouse” precisa destronar o bico-de-pena?

AR  O mouse não destrona o bico-de-pena. Para lembrar o título do livro de João Cabral, vivemos, hoje, em meio a um “museu de tudo”. O conteúdo pode ser discutido nos mais variados planos, do político ao ideológico. Mas ninguém deixa de ler Fernando Pessoa porque ele foi “sebastianista”, acreditando na formação futura de um império da língua portuguesa. Em poesia, as coisas ficam bem mais complicadas. Acabamos vendo, em Fernando Pessoa (ou no Fernando Pessoa deMensagem, que é o que interessa), um trato único da língua, como se ela estivesse nascendo e renascendo para ele. E ponto final. Para fazer um trocadilho, do medium brota a encarnação domedium. De Pessoa a Augusto de Campos.

 

Zunái – Os poetas ligados à poesia concreta, de linguagem construtivista, defendem o fim do ciclo histórico do verso. O que você pensa a respeito?

AR – Não existem mais “os poetas concretistas”. Eles mudam, como a história muda. Haroldo de Campos fez Galáxias na década de 1960. E Galáxias não é “poesia concreta”, tensão da palavra-coisa numa num espaço-tempo. Acho um truque safado, tipo Affonso Romano (de Sant’Anna) ou Silviano Santiago, fazer de conta que os poetas “concretos” permanecem idênticos a si mesmos. Não permanecem, nem permaneceram. A “poesia concreta” é uma coisa, os poetas (que foram concretos) é outra. Quanto ao verso, façam-no os que sabem fazê-lo. Na hora em que você está propondo um movimento, é inevitável falar de “linguagem evolutiva”. Foi assim no “concretismo”, foi assim no “tropicalismo”. Depois, isso passa. Passou para Augusto de Campos, passou para Caetano Veloso. O que pode haver de interessante, em ambos, é que eles continuam cultivando uma inquietude essencial.

 

Zunái – Quais os pontos positivos e negativos da criação tipográfica e em computador?

AR – Um escritor norte-americano disse uma coisa básica: quando você está na frente de um computador, não está conversando com uma outra pessoa – está explorando um outro mundo. A pobreza, na minha opinião, é pensar o contrário. Em vez de explorar esse outro mundo, achar que está conversando com outra pessoa. Cabral falava, na década passada, que o poeta tinha que encontrar uma fala que soasse no rádio. Eu penso que o problema continua sendo esse: encontrar. Seja no reino da palavra industrial, seja no reino da palavra eletrônica, o poeta tem que encontrar. Que achar. Troubadour vem de trobar, que significa “achar”. O poeta é quem “acha”. Quem sabe “achar”. A diferença básica entre a palavra tipográfica e a palavra eletrônica é que a primeira é necessariamente estática e a segunda, não. Pode ser palavra em movimento, palavra-evento, coreografia de signos, na medida em que ela não se acha presa a nenhum suporte.

 

Zunái – Você diz, em Fetiche, que a computação gráfica leva a uma espécie de neo-artesanato, sem maquinolatria, tecnolatria ou cienciolatria. Você pode descrever essa sensação?

AR – Diante do computador, você brinca. Há uma opção. Você pode usar o computador como uma máquina datilográfica mais rápida e mais potente, em termos de memória, de estocagem ou armazenagem de informações. Mas para quê? Se eu posso colocar a “venda” de Joyce no meio da vela de uma caravela, vou fazer de conta que isso é impossível? Não, me deixem jogar. A computação gráfica me dá uma liberdade criativa que eu não tive antes. E é um “neo-artesanato” porque eu tenho que decidir. Que procurar a Forma da Letra. A Forma, sou eu quem tem que escolher. É uma neocaligrafia. A caligrafia da Era do Chip, caligrafia de “bits” e fractais.

 

Zunái – No mesmo texto, você diz que teve alguns “rompimentos” com a poesia. Por quê?

AR – De vez em quando, “rompo” com a poesia. Penso que o importante não é isso. Que tenho outras coisas a fazer. Que construir uma escola, fazer um hospital ou abrir uma avenida, é uma coisa social e historicamente mais relevante. Mas quando a noite anoitece, acabo tentando fazer um poema. E há momentos em que acho que a poesia é fundamental. De qualquer modo, o “rompimento” nunca foi definitivo. Posso repetir, para a poesia, o que diz o rock dos Rolling Stones: “when you call my name, is salivate like a pavlov’s dog”.

 

Zunái – No poema What’s new, criticism, você faz a celebração de jovens poetas brasileiros (Arnaldo Antunes, Frederico Barbosa e Carlito Azevedo), “num momento preciso”. Que momento era esse? Além desses, você citaria outros poetas surgidos a partir de 80?

AR – Continuo achando que Fred, Carlito e Arnaldo são os melhores. Fred não quer ser poeta – o que faz, dele, um poeta. Carlito tem o dom da frase, da construção sintática. E Arnaldo aposta todas as fichas no “hipertexto”, na escrita multimídia. O curioso é que, se eu continuar, só vou falar de mulheres. Depois da simbolista Gilka e da modernista Pagu, o que há de mais interessante, na poesia brasileira, são elas – as mulheres. Elas começaram a digitar as regras de um jogo. E fazem isso muito bem, de Mônica Costa a Ângela de Campos, passando por Josely Vianna Baptista, Lenora de Barros e Claudia Roquete-Pinto.

 

Zunái – Em que medida a antropologia aparece em sua poesia, e vice-versa?

AR – Eu não separo as coisas. Não sei exatamente em que momento elas estão atuando. Sinto-me jogando, sempre, numa encruzilhada poético-antropológica. Meu livro Oriki Orixá é um exemplo dessa mescla. Mas não só, é claro. A antropologia está presente em meus poemas computadorizados, assim como o olhar poético está presente em meus estudos antropológicos. Enfim, não sei onde termina uma coisa e começa outra. Um crítico da Folha de S. Paulo dividiu a minha produção poética em duas: de um lado, os poemas interétnicos (que ele achava interessantes); de outro, os poemas visuais (que ele achava desinteressantes). É uma cirurgia completamente arbitrária, feita à revelia dos próprios poemas. Porque boa parte dos meus poemas “visuais” são “interétnicos”. Não dá pra separar.

 

Zunái – Fale um pouco de duas culturas que te interessam, a ameríndia e a africana.

AR – Na verdade, o que me interessa é o Brasil. Me aproximei das culturas ameríndias (da tupinambá, em especial) e das culturas africanas (a nagô-iorubá, em especial) para melhor entender as realidades brasileiras. Agora, é claro que acabei me apaixonando por elas em si mesmas. São culturais, ricas, sofisticadas. A economia sexual da sociedade tupinambá, por exemplo, é uma coisa maravilhosa. Ali, os velhos têm a missão, culturalmente indispensável, de introduzir a juventude no mundo do sexo. E a metafísica iorubá é um primor. Os nagôs dizem que três princípios sustentam e regem o universo: iuá é o que permite que algo ou alguém seja: axé é o que permite que aquilo que é tenha um vir a ser; abá é o que permite que o vir a ser daquilo que é tenha um sentido… São lições e mais lições.

 

Zunái – Como foi traduzir o iorubá, uma língua tonal, praticamente desconhecida entre nós? O que despertou seu interesse por essa língua?

AR – Passei três anos estudando iorubá, e sei que não aprendi. É uma linguagem muito difícil, mais difícil do que o grego. Porque há o problema do tom. O iorubá é uma língua tonal, que se move, aproximadamente, por alternâncias de “quintas”. Para falar iorubá, você tem que ser um bom cantor – e eu, embora cante canções hoje desconhecidas, canto mal. Quanto à tradução, é claro que não tive como recuperar os jogos tonais. Além disso, o trabalho envolvia questões interculturais. Não podia ser pensado em termos puramente lingüísticos. Havia que acionar o olhar antropológico. Como sou poeta e antropólogo, fui na viagem. Assim como a antropologia é uma poética das sociedades, a poesia é uma antropologia do indivíduo.

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Esta entrevista será publicada no livro Dez Conversas (diálogos com poetas contemporâneos), de Fabrício Marques, a sair pela Editora Gutemberg, de Belo Horizonte.

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Leia também poemas de Antonio Risério e um ensaio sobre o autor.

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