ARTIGO: A fênix filosófica

A fênix filosófica

 

Jamil Salloum Jr é graduado em Jornalismo (UnicenP), Especialista em Comunicação e Cultura (UnicenP) e Mestre em Filosofia (PUC-PR). Professor, escritor e conferencista. Colunista dos Jornais Diário dos Campos e Jornal da Manhã, de Pontas Grossa-PR.

Jamil Salloum Jr é graduado em Jornalismo (UnicenP), Especialista em Comunicação e Cultura (UnicenP) e Mestre em Filosofia (PUC-PR). Professor, escritor e conferencista. Colunista dos Jornais Diário dos Campos e Jornal da Manhã, de Pontas Grossa-PR.

Por vezes pergunta-se, dentro e fora dos meios acadêmicos, qual a utilidade da Filosofia. Outrora considerada a “rainha das ciências”, perdeu o título com o desmembramento de vários ramos que, extrinsecamente, passaram a percorrer estradas próprias, não creditando, na sua maioria, sua gênese à velha mater. Will Durant assim se  lamentava no início do século XX: “Por que já não é amada a Filosofia? Por que suas filhas, as ciências, depois de repartirem entre si a herança, lhe voltaram as costas, como as filhas do Rei Lear depois de dividido o reino?”

 

A Filosofia percorre, andrajosa, tortuosas estradas, à margem dos interesses hodiernos. Contudo, nesta era que reprisa muitos acontecimentos que no passado indignaram alguém como Sócrates, o mundo nunca precisou tanto de Filosofia…  Negada por uns, ridicularizada por outros, ou transformada em mero esporte intelectual por aqueles que deveriam vivê-la ao invés de só estudá-la, está a Filosofia condenada?

 

Malgrado as diversas correntes em seu bojo, as preocupações filosóficas não são progressivas – e portanto mutáveis – como ocorre com outras áreas. É sempre com as mesmas preocupações, girando em torno dos mesmos questionamentos fundamentais, que a Filosofia aperta suas volutas em torno do objeto em pauta. O que é o homem?  O que é a vida? Qual a natureza última, ou causativa, das coisas? São as questões nevrálgicas que, consciente ou inconscientemente, todos buscamos, em diversos campos, mas, na maioria das vezes, sem sucesso.

 

Porque à práxis deve anteceder a reflexão, a Filosofia derruba a idéia do teórico abstracionista, sem ligação com o mundo real; do sonhador eólico, perdido em brancas nuvens. Não que estes não existam, mas são, sobretudo, ascetas e não filósofos.  À abundância de céticos e pessimistas em seu meio – tendência fortemente criticada por pessoas como o saudoso filósofo Mário Ferreira dos Santos – a Filosofia, vista sob este ângulo, pode concordar com o dístico atribuído a Louis Pasteur, relativo à Ciência: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito nos aproxima.”

 

 A alienação das pessoas, acertadamente combatida pelo marxismo no plano intelectual e econômico, também está presente – e mais fortemente ainda – no plano filosófico. Multidões de autômatos, com e sem estudo, debatem-se em meio a uma rotina, a uma ritualística cotidiana, a qual, pela sua vertiginosa velocidade e redundância, preenche falsamente o vácuo interior. No fim, nem dinheiro, nem títulos e nem saber teórico respondem às eternas perguntas já apresentadas mais acima. Ao sorriso cínico do cético à luz do dia contrapõe-se seu semblante angustiado na calada da noite, quando, sozinho, não consegue esclarecer os dilemas essenciais de si e do mundo. Mas há o remédio da Filosofia. Ungüento amargo, indigesto, pois obriga a jogar fora conceitos e pré-conceitos antes admitidos como verdade inalterável. Exercício lento, cadenciado. Por vezes ocorrem explosões…

 

Em 1882 foi inaugurado em Haia um monumento a Spinoza, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Segundo Huberto Rohden, contribuições de todo o mundo chegaram para financiar a obra em memória do herético e excomungado pensador judeu, morto na miséria e no semi-esquecimento; transformados mais tarde em louvor e admiração, que nunca mais pararam de crescer, através de uma plêiade de discípulos póstumos. Isso prova que, tal qual a Fênix mitológica, a pessoa naturalmente retorna, nos piores momentos de sua vida, à Filosofia. Quiçá não demore para essa era chegar, uma vez mais, entre os homens.

 

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* O autor é colunista de BICHOS DO BRASIL. Escreve semanalmente toda quinta ou sexta-feira.

3 Comments

  1. Posted 21 novembro, 2008 at 12:21 pm | Permalink

    A filosofia sempre andou na contramão das sociedades totalitárias (sempre foi o inimigo a ser combatido por aqueles déspotas que não desejam que as pessoas desenvolvam seu próprio pensamento). Aqui no Brasil mesmo com o fim da ditadura, essa prática de abolir o pensar e entregar tudo pronto, embalado, nunca teve fim (e acho difícil que algum dia venha a ter!).

  2. maicon
    Posted 4 março, 2009 at 4:17 pm | Permalink

    Po tu tá de bricaidera eu uma coisa tu me fala outra

  3. Jamil
    Posted 20 março, 2009 at 6:22 pm | Permalink

    Sim, Roberto, a filosofia é, muitas vezes, uma “pessoa não grata”, pois destrona a superstição e instaura a reflexão.


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