ARTIGO: Parmênides de Eléia – O Poeta do Ser

 

PARMÊNIDES DE ELÉIA

 

– O Poeta do Ser

 

© DE João Batista do Lago

EU, PESCADOR DE ILUSÕES e ÁPORO.

JOAO BATISTA DO LAGO é um poeta e escritor maranhense. Nasceu na cidade de Itapecurumirim. Tem dois livros publicado: EU, PESCADOR DE ILUSÕES e ÁPORO.

Ao iniciar este artigo devo dar conta da apaixonante atração que sinto pelo universo helênico. Trago em mim a concepção, melhor dizendo, a convicção conceitual que, ainda hoje, “sofremos do mal do mundo arcaico” – o mundo Grego -, da conflituosidade do Ser e do não-Ser, assim como todas as suas conseqüências deletérias, insalubres ou mesmo venenosas para o estudo da ontologia ou da metafísica (ambas definem o estudo do ser em geral).

 

Quando digo “sofremos do mal do mundo arcaico” tenho a nítida intenção de dizer, de inferir, que continuamos “atolados” no pântano das incertezas humanas. Ainda hoje nos perguntamos: O quê somos? O quê fazemos aqui (no mundo)? Qual a função e o papel que exercemos? Qual a nossa destinação? Enfim…

Ainda hoje não nos contentamos com quaisquer respostas dadas. Ainda hoje continuamos vasculhando o mais profundo de nossas cavernas na tentativa de nos descobrir, de nos desvendar, de nos desvelar, de nos revelar…

E para isso utilizamos, ao máximo, de nossas faculdades mentais na tentativa de sustentar a superioridade da interpretação racional do mundo e, a negar a veracidade da percepção sensível.

É exatamente neste ponto que Parmênides de Eléia, me atrai, pois, ver, ouvir, escutar, não produz certezas, apenas crenças e opiniões. Vale destacar que, já aqui, ele asseverara que erra quem (como Heráclito, por exemplo) deixara-se enganar pelos sentidos e considerara a realidade em devir, pois a transformação – uma passagem do ser a um não-ser – não é em si pensável: o não-ser não é jamais pensável, não mais do que ver a escuridão (o não-ser da luz) ou escutar o silêncio (o não-ser do som).

Neste artigo – insisto – pretendo debruçar-me sobre uma das figuras arcaicas que mais me chamam atenção no universo helênico: Parmênides de Eléia, a quem defino não como um Filósofo – pura e tão-somente -, mas como um Poeta filosófico, portanto, o Poeta do Ser.

É neste poeta eleata que encontramos, ‘primeira e conscientemente’, a origem do pensamento racional e, ainda, é com ele que vislumbramos a elaboração do método. Ouso afirmar, por inferição empírica, que, Descartes e Shakespeare, para ficar apenas nestes dois exemplos, dele se utilizaram. René Descartes é considerado, universalmente, o “pai” da filosofia moderna e, William Shakespeare é considerado, universalmente, o “pai” do teatro moderno. Em Descartes encontramos a máxima conhecida de todos: “Penso: logo existo”. Em Shakespeare encontramos o aforismo: “Ser ou não-Ser, eis a questão”.

Ora, não é, pois, o ser e o não-ser, por excelência, o tema fundamental da poética [discurso] Parmenidiana? Pois sim!

Podemos dizer assim – e disso falam os filósofos, historiadores, críticos e comentadores do passado e do presente -, sem medo de cometer nenhum erro, que o filho de Eléia era de uma grandeza perturbadora. O rigor de suas argumentações e a profundidade de suas análises levaram Platão a defini-lo como “venerando” e “terrível”. Mas não só isso, o filósofo de Athenas – Platão – viu-se obrigado a dedicar um diálogo específico – o Parmênides – ao filho de Eléia; reconhecê-lo como pai espiritual e confessar que ao discordar de algumas reflexões parmenidianas cometeria uma tipologia de “parricídio”.

Fica clara, assim, a imensa admiração que nutro por este poeta-filósofo (e de resto pelo universo grego) que, infelizmente, e apesar dos inúmeros estudos, pesquisas, escavações histórico-arqueológicas, nos legou, da sua obra, tão-somente 154 versos do poema filosófico Sobre a Natureza. Deste poema proponho, neste artigo, as leituras interpretativas dos versos abaixo, nos quais se discutem Verdade e Opinião como fontes estruturantes para a construção do ser e do não-ser, ou, segundo o meu olhar: para a construção do sujeito.

 

VIAGEM EM DIREÇÃO À VERDADE

– A travessia da ignorância em direção ao saber

 

Nas suas investigações filosóficas Parmênides impusera-se, uma questão até então (hipótese de muitos historiadores) não formulada de maneira tão racional: a busca do conhecimento do que “é” Verdade e do que “é” Opinião. Ele fogira, assim, da visão puramente mítica, religiosa ou teológico-teleológica – muito embora utilizara como campo metafórico o abstracionismo dêitico-mítico tão comum naqueles tempos arcaicos – para inferir a racionalidade da sua abordagem poético-filosófica.

É toda essa densidade simbólica introjetada (e abstraída) no pensamento parmenidiano que cria dificuldades de interpretação do poema, sobretudo na parte primeira quando nos remete à metáfora da viagem. Vejamos:

 

As éguas que me levam até onde meu desejo quer chegar me acompanharam, após me conduzirem e me colocarem no caminho que diz muitas coisas,

que pertence à divindade e que conduz o homem que sabe a todos os lugares.

Para lá fui levado.

 

De fato, para lá me levaram as sagazes éguas, tirando meu carro,

e as jovens a indicar o caminho.

O eixo do meão soltava um silvo agudo, incandescendo-se (porque premido entre dois rotantes, círculos de um lado e de outro),

enquanto apressavam o passo, ao me acompanhar, as jovens Filhas do Sol,

após deixar as casas da Noite, em direção à luz, retirando com as mãos os véus da cabeça.

 

Lá está a porta das veredas da Noite e do Dia,

tendo nos dois extremos uma arquitrave e um umbral de pedra;

e a porta, erguida no éter, é fechada por grandes batentes,

dos quais a Justiça, que muito pune, tem as chaves que abrem e fecham.

 

As jovens, então, dirigem-lhe suaves palavras,

e sutilmente a persuadem a que os ferrolhos

sem tardar removessem da porta. E logo esta, ao se abrir,

dos batentes fez uma vasta abertura, fazendo girar

nos gonzos, em sentido inverso, os brônzeos umbrais

ajustados com pregos e com ombreiras. Logo, por lá, através da porta,

direto para a estrada mestra, as jovens levaram carro e éguas.

 

E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,

e assim começou a falar, dizendo-me:

“Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho

(de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça”.

 

“É preciso que tu tudo aprendas:

o sólido coração da bem redonda Verdade

e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza.

E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.

 

Antes de tudo, porém, isto é, antes de definitivamente aventurar-me na análise do poema do eleata, creio que se faz mister aqui introduzir uma questão que é indispensável para a compreensão da poética filosófica de Parmênides: sua poesia decorre de um processo da formação do universo grego, sobretudo no que consiste à Educação,fundamental para o estabelecimento do conceito grego de Paidéia.

Nesse ponto, Parmênides não foge à regra helênica, qual seja, de considerar que a educação é o princípio por meio do qual o universo grego conserva e transmite para o presente (de) então e para a posteridade as peculiaridades físicas e espirituais do sujeito grego.

Parmênides entende, desde logo e sempre, que o homem, como espécie animal, continua sendo sempre “um” e a mesma coisa, mas ao mesmo tempo raciocina que somente o Homem consegue disseminar sua condição de ser social, tendo por base a vontade consciente e a razão. Assim é Parmênides!

E ouso dizer: aos meus olhos é com Parmênides que fica clara a idéia de que a Educação tem que ser um processo de construção consciente, mesmo quando, apesar de ou a partir de, admitimos que ele fosse oriundo da poética homérico-hesiódica, que já trouxera a preocupação com a formação do Homem grego, a Paidéia, por intermédio de um processo educativo. Mas é preciso dizer que as configurações homérico-hesiódicas eram construídas a partir do campo mítico, quero dizer, a Educação era, em síntese, uma dádiva dos deuses. Desse pensamento parmênico, ouso inferir, Platão teria se utilizado para discutir com Glauco e Adimanto a construção da sua cidade utópica, na República, por intermédio dos discursos do ‘seu Sócrates’, principalmente nos livro II, III, V e X.

O Ser, para esses poetas – Homero e Hesíodo – era um não-ser de si, ao contrário de Parmênides que inferiu a idéia do Ser de si. Idéia da construção consciente de si. Idéia do pensar a si. Idéia do pensar-se como “sujeito” (do discurso) responsável da categoria do existir – ou seja: do Ser. Idéia, afinal, do Antropocentrismo.

E, para se inserir nesse campo ontológico, Parmênides, criara sua metodologia de investigação a partir de duas categorias: Verdade (alétheia) e Opinião (doxa), isto é, para ele era indispensável estabelecer um método dicotômico, onde, Opinião não passaria de mera crença que se baseia em dados sensíveis e perceptíveis, enquanto que a Verdade era a convicção baseada em argumentações racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total oposição às evidências sensíveis. Aqui, chamo atenção mais uma vez para a República de Platão, ou melhor, para sua utópica cidade. Nesta, poetas como Homero e Hesíodo não deveriam fazer parte da polis, pois, eram construtores de uma tipológica não-verdade, ou seja, eram “indignos”, posto que, “imitadores da verdade”. 

 

* * *

 

Faço aqui um (novo) recorte para introduzir uma nova e ousada questão conceitual. Aos meus olhos é com Parmênides que vislumbramos (também) a essência do Discurso e da Retórica, que serão utilizados no futuro próximo e posterior. Os sofistas Protágoras (o mais conhecido dos sofistas, após escrever que não se poderia afirmar que os deuses existem nem que não existem, foi acusado de sacrilégio, condenado e banido de Athenas) e Górgias (viajou por toda Grécia exercendo com sucesso a arte da retórica; era acompanhado de reconhecida fama de dialético, capaz de cogitar raciocínios irrefutáveis como “nada existe”, sua tese mais célebre), por exemplo, tornaram-se mestres nessa arte, a ponto de escandalizarem os filósofos da época ao fazer do saber uma profissão, oferecendo aulas (pagas) de retórica e de eloqüência aos jovens da classe dirigente que pretendiam dedicar-se à carreira política.

Mas, ao mesmo tempo, é preciso inferir que o movimento sofista é duma importância histórica fenomenal, pois geraria um cosmopolitismo serial do pensamento e da cultura grega, e em especial da filosofia – em prosa ou verso -, impedindo que o saber grego ficasse, pura e tão-somente, nos limites das províncias helênicas. Os filósofos sofistas tinham por metodologia de ensino o princípio da Razão. Isto lhes valera o epíteto de iluministas gregos.

Pois bem, a poética de Parmênides (também) introduz segundo essa minha observação empírica, o conceito de Verdade no interior do discurso ao propor veemente contestação da corrupção (discordo daqueles que vêm nisso apenas antagonismo) da verdade pela opinião, isto é, ele criara aí a sua dialética meta-ontológica e sustentara (em minhas palavras) que o Ser é o sentido da Verdade e a Verdade o sentido do Ser. Ou seja, o Ser só “é” quando “é” o Ser.

Assim, no seu discurso poético-filosófico, Parmênides introduz uma tipologia desesperada da necessidade de fazer sentido, de dar sentido, de constituir-se, de impregnar-se da “pura” razão, e então, converte a Verdade na principal figura de linguagem, seja objetiva, seja subjetiva; noutras palavras em Sujeito e em não-Sujeito do seu discurso poético-filosófico. É somente por ela – a Verdade – que estabelecemos enunciados e conceitos. É somente por causa dela que nos insurgimos – ou não – contra ou a favor do dito e do não-dito, e do interdito. É somente por sua representação que criamos as linguagens culturais, sociais, políticas, econômicas, artísticas, poéticas…, etc.

Sem o sentido da verdade ou a verdade do sentido pode-se dizer que tudo o mais não existira. Vida não houvera. E se esta (verdade = ser) não se dera tudo o mais inexistira. Este é o fundamento axiomático antropomórfico do Ser que “é” e do Ser que “não-é”; mas ao mesmo tempo do “Ser que não-é” e do “não-Ser que é”. Essa é a equação complicada do pensamento parmenidiano. Eis a equação! E essa equação virá a ser sustentada ou negada com veemência no futuro por uma plêiade de pensadores – sobretudo por Platão – do mundo antigo, do mundo contemporâneo e do mundo moderno.

Tomando, pois, este axioma como verdadeiro poder-se-á aduzir novos argumentos advenientes – ad valorem – como se fora uma advecção transferencial de um tipo de massa metafísica que se movimenta concretamente em direção a um materialismo não-científico, não-histórico ou historicista, mas metarracional, ou se racionaliza no calor do Logos (saber racional = somente o ser pode ser pensado = Verdade) do locutor e do ouvinte (audiência).

É nisso que compreendo a tentativa desesperada de fazer sentido de Parmênides como práxis constitutiva do real e do não-real, principalmente no caso do discurso da forma (Ser), onde se percebe com mais agudeza essa relação hedonista da verdade como fonte de um determinado tipo de prazer imediato do indivíduo que fala, isto é, do sujeito do discurso verdadeiro, real.

Os primeiros versos de Sobre a Natureza – poder-se-á inferir – são o Prólogo do discurso poético ontológico e antropomórfico de Parmênides, inserido nessa perspectiva a tentativa desesperada de fazer da Verdade o sentido do Ser. A verdade é, metaforicamente falando, uma esfera: homogênea, compacta, única e sempre igual a si mesma. A verdade não pode ser pensada como um corpo oval. Ela é, necessariamente, para o eleata, um corpo redondo… E tudo o que estiver fora dessa imagem não é verdadeiro. Seria, no caso do discurso parmenidiano, uma representação, ou seja, uma imitação da verdade, isto é, uma opinião. E sendo apenas opinião não faz sentido.

Se tomarmos como verdadeira essa minha conclusão empírica veremos que, na outra ponta, por assim dizer, do lado oposto à verdade, ocorre a opinião, que ali se encontra presente dentro de um substrato ideológico (não-verdade), mas que pretende desconstruir a verdade para se dar sentido de verdade. Mais uma vez chamo atenção para o complicado e hermético pensamento parmenidiano, sobretudo nessa parte do poema, onde o autor grego pretende constituir metaforicamente, por definitivo, a verdade como o Ser verdadeiro e imutável, portanto Absoluto, Uno. E é exatamente deste ponto que surge a idéia do monismo parmenidiano.

O complicado jogo de imagens mentais que Parmênides cria para inferir todo o seu conceito de Ser é algo que defino, do ponto de vista estético-semântico – refiro-me especialmente a certo tipo de grafismo visual que permite a audiência “n” significados – de uma beleza incomensurável e está mesmo concentrado dentro do seu rigor meta didático: é homogêneo, compacto, único e sempre igual a si mesmo; noutras palavras, é mono, é um, é único, é absoluto. Portanto a Verdade É.

Leiamos (novamente) o que ele se nos apresenta:

 

E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,

e assim começou a falar, dizendo-me:

“Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho

(de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça”.

 

Temos, nesta estrofe, uma técnica de criação da imagem abstrato-metafórica parmenidiana que se fixa impressa no nosso cérebro como foto, donde se vêm os retalhos de uma construção arquitetônica minuciosamente elaborada para valorizar mais a forma que o conteúdo do Ser.

 

“Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho…”

 

Essa abstração metafórica permenidiana é primorosíssima! Esse artifício é para construir o significado-significante doutra questão (que veremos com mais vagar à frente): a Verdade com Justiça, pois,

 

“É preciso que tu tudo aprendas:

o sólido coração da bem redonda Verdade

e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza.

E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.

 

E essa “forma” vem da inspiração que recebeu de Homero, Hesíodo e das tradições órficas. Contudo, poder-se-á concluir que há aqui (também) certa influência pitagórica: a esfera como figura representacional do Ser verdadeiro. Mas, já aqui, devemos parar para auscultar, imaginar, perceber, sentir e pensar. E, já aqui, implica perguntar: não seria isso incoerência com o discurso parmenidiano?

Pois é! Assim é Parmênides!

Ele nos forçará – desde logo e desde sempre – a nos imbricarmos com a contradição (Ser e não-Ser) entre a Verdade e a Opinião, e dirá mais à frente que nem todos são capazes de atingir a verdade, ou seja, nem todos irão constituir-se em “Ser”, pois continuarão como “homens de duas cabeças” (crentes, sensitivos, perceptivos).

 

“É necessário dizer e pensar que o ser é: de fato, o ser é,

o nada não é: te exorto a que consideres isso.

E, portanto, desse caminho de busca te conservo distante,

Mas, depois, também daquele sobre o qual os mortais que nada sabem seguem vagando, homens de duas cabeças:

De fato, é a incerteza que ao seu peito conduz uma desatinada mente.

 

Estes são arrastados,

Surdos e cegos ao mesmo tempo,

Estupefatos, raça de homens sem juízo,

Para os quais ser e não-ser são considerados a mesma coisa

E a não-mesma-coisa; e, portanto, para todas as coisas, há um caminho que é reversível…”

 

Decodifiquemos: poucos se constituirão em “sujeito”, ou, muitos continuarão sendo meros crentes do senso comum, ou seja, niilistas do Ser. Estes são “homens de duas cabeças”; são conduzidos a lugar nenhum pela opinião que não gera saber e tampouco agrega conteúdo ao Ser, ou seja, é preciso lutar contra o rio de correntezas de meras opiniões, no qual “estes [homens] são arrastados, / surdos e cegos ao mesmo tempo“, como se fora uma “raça de homens sem juízo“, isto é, afastar-se da escuridão do senso comum, da pura opinião; para atingir toda a claridade do Sol, e da luz do dia, ou seja, toda Sabedoria por intermédio do pensamento racional. Mas isso só pode ser alcançado depois de atravessar as portas que dividem os dois caminhos: o caminho da verdade e o caminho da opinião ou “a porta das veredas da Noite e do Dia“.

Enfim, podemos dizer desta primeira parte do poema Sobre a Natureza, de Parmênides, o seguinte: levado num carro em corrida vertiginosa, o herói percorre um caminho que se situa fora das trilhas originais dos seres humanos. São virgens, filhas do Sol, que tomam conta dele em seu percurso para a luz. Abre-se a porta que separa “a estrada do Dia e a estrada da Noite“, e o iniciado chega recebido pela deusa bondosa que o toma pela mão e informa-o de um oráculo duplo: ele saberá tudo da verdade e da crença dos mortais. Por certo se deve ter em mente a aventura do conhecimento que, para além das normas da experiência corriqueira, realiza-se e exprime-se enquanto exprime seu objeto num discurso bem estruturado e corretamente concatenado.

Favorecido assim pela revelação, o herói fica sabendo que existem duas estradas, noutras palavras, dois procedimentos, dois métodos ou dois estilos para o (seu) discurso.

 


Este texto é, pura e tão somente, a primeira parte deste artigo-ensaio.

 

 

 

O autor é colunista deste site. Escreve semanalmente.

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