POETAS DO MARANHÃO – Nauro Machado

Nauro Diniz Machado (São Luis, 2 de agosto de 1935) é um poeta e escritor brasileiro. É filho de Torquato Rodrigues Machado e Maria de Lourdes Diniz Machado. É casado com a também escritora Arlete Nogueira da Cruz. Poeta autodidata com vasto conhecimento em artes e filosofia. Comparado por alguns criticos a Fernando Pessoa, é original por ser poeta universal entre seus contemporâneos mais imediatos, como Ferreira Gullar, Lago Burnett, José Chagas e Bandeira Tribuzi. Se Gullar questiona a própria forma poética, Nauro Machado questiona a própria essência e destinação do ser humano, sem deixar de cultivar uma linguagem poética e uma técnica de versos exemplares. Sua obra apresenta traços de reflexão existencial angustiada e violenta que encontra poucas comparações na lirica de lingua portuguesa. Exerceu diversos cargos em órgão publicos entre eles DETRAN e EMATER e também na Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão. Nauro Machado sempre viveu em São Luis, ausentando-se apenas por breves periodos, sobretudo para o Rio de Janeiro para publicar boa parte de suas obras. No entanto, grande parte de sua vida Nauro dedicou à sua grande paixão, a poesia. Recebeu diversos prêmios, dentre eles Academia brasileira de letras e da União brasileira de Escritores; teve varias de suas obras traduzidas para o alemão, francês e inglês.  

Nauro Diniz Machado (São Luís, 2 de agosto de 1935) é um poeta e escritor brasileiro. É filho de Torquato Rodrigues Machado e Maria de Lourdes Diniz Machado. É casado com a também escritora Arlete Nogueira da Cruz. Poeta autodidata com vasto conhecimento em artes e filosofia. Comparado por alguns críticos a Fernando Pessoa, é original por ser poeta universal entre seus contemporâneos mais imediatos, como Ferreira Gullar, Lago Burnett, José Chagas e Bandeira Tribuzi. Se Gullar questiona a própria forma poética, Nauro Machado questiona a própria essência e destinação do ser humano, sem deixar de cultivar uma linguagem poética e uma técnica de versos exemplares. Sua obra apresenta traços de reflexão existencial angustiada e violenta que encontra poucas comparações na lírica de língua portuguesa. Exerceu diversos cargos em órgão publicos entre eles DETRAN e EMATER e também na Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão. Nauro Machado sempre viveu em São Luís, ausentando-se apenas por breves periodos, sobretudo para o Rio de Janeiro para publicar boa parte de suas obras. No entanto, grande parte de sua vida Nauro dedicou à sua grande paixão, a poesia. Recebeu diversos prêmios, dentre eles Academia brasileira de letras e da União brasileira de Escritores; teve varias de suas obras traduzidas para o alemão, francês e inglês.

A Rosa Total

Amo, como 

ilusão do gesto, 

a presença que se desfaz, 

para florescer de novo 

sobre o inexaurível nada. 

Amo, como debalde quero, 

apenas o odor do ser: 

essa presença, breve e etérea, 

logo restrita á eternidade.

Apenas uma Coisa

Existe amor? 

Palpável como o dia, 

como a matéria com que é feito o objeto 

chamado mesa, catedral ou baço 

nitrindo em tantas coisas? 

Como amar 

esta incorpórea substância carnal, 

este lampejo de chão no infinito? 

Existe amor? 

Palpável como a terra? 

Debaixo ou sobre a terra, ainda carne, 

algum finado saberá do amor, 

essa chama votiva a brilhar ainda? 

Amou Torquato a Maria? Amou deveras? 

Digam-nos os anjos corcundas do além, 

a ave agoureira ao céu crucificada, 

o revoar de asas na papal coroa. 

Amou Torquato a Maria, ainda carne? 

Ama Maria a esse pó apenas nome 

legado aos filhos como letra morta, 

como moeda gasta em mão mendiga? 

Chupando um dedo só, o amor se alimenta.

Caxangá

Há um desespero 

real na palavra 

um desespero contra o desespero 

enlouquecido em tudo que é palavra 

incapaz de dizer o real nela, 

e um desespero dentro, um desespero 

da palavra assentada na palavra, 

da palavra assentada nela mesma, 

canal e boca de uma angustia virgem, 

de um dia novo contra a noite fora 

envolvendo de luto os nomes todos: 

antônio, ténis, sonho, árvore, morte. 

sombra dentro de sombra, mas girando 

em rodopio eterno, o pião da sombra, 

o que fazer da voz, senão clamar 

em uivos de absurda sombra , á noite 

geradora de braços e destroços 

vogando intérminos no extinto brado?

Com os dez dedos da mão

Falhei 

de tudo o pouco que ainda pude: 

se o ser real não pôde ser virtude, 

e o irreal ser só pôde , em represália 

dizer ao ser real, sem que o abale a 

vida em mim a ser só da ilusão: 

de ti já sou, por fim, teu falso irmão, 

eis o peso da angústia, o enxofre do ouro, 

onde enterrei meu possível tesouro. 

Feito de quê? De sombra mais que luz, 

na assombração debaixo de uma cruz. 

descobri-me à verdade, enfim capaz 

de oferecer-se a mim – dela incapaz – 

mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto, 

Uma verdade feita de alfabeto.

Contumácia

Maldita a vida me seja, 

três vezes maldita seja 

a vida que me desastra 

e que por ser-me finita, 

três vezes seja maldita 

e amaldiçoada madrasta. 

Quem me fez como um qualquer, 

dormindo aonde estiver, 

saiba deste desprazer, 

para sempre e desde saiba, 

para que o seu Ser não caiba 

na pequenez do meu ser, 

que eu não pedi para estar 

com minhas pernas no andar, 

com minha emoção a sentir 

este universo que tapa 

a minha boca num tapa 

e a minha língua sem Ti, 

essa coisa que fede a iodo, 

como a água do mar ou do 

envelhecimento o rim, 

essa coisa que derrama 

seu púbis velho de chama 

a extinguir-se quase ao fim, 

corpo de Deus! Corpus Christi! 

Viste-O algum dia? Tu O viste 

sequer um dia como tu? 

Integral e à dor exposto, 

desde o cio ao suor do rosto, 

desde impotente até nu? 

Os meus membros são crepúsculos! 

São sangue e iodo os meus músculos, 

é iodo e sangue a minha cruz. 

Por que não nasci não sendo? 

Por que, ao amanhecer, acendo, 

noutra treva, cega luz? 

Se além da terra existe ar, 

se além da terra ainda há 

por menor que seja, um seja, 

como à noite volta o dia, 

como, ao corpo, o que o procria, 

como, em mim, meu ser esteja! 

Dentro ou fora, qual gaveta, 

para que, em mim, o ser meta 

quem, em mim, é este meu ser, 

olho, em volta, à minha volta, 

e olho nada — só o que solta 

de qualquer um: quem ou o quê? 

Nada é, pois tudo se sonha. 

E se alguém me falar: ponha 

tudo o que lhe resta, e resta 

no que, ao pôr-se, se me põe, 

para que em mim meu ser sonhe, 

vivo morto — e a morte empesta! 

Como dar à vida pôde 

o nada ser que sou de 

outro feito pelo ser? 

De outro ser, igual a mim, 

mas de outro início a outro fim, 

noutra vida até morrer? 

Ó envelhecer do meu estar! 

Da leitura de Balzac, 

de La Comédie Humaine, 

se passaram tantos anos 

nos malogros desenganos, 

sem disfarce ou mise-en-scène. 

Bela Eugénie Grandet: 

sois lembrança a anoitecer 

pelas tardes do meu Carmo, 

quem me traz a quem não sou 

na usura do pai Goriot 

que me a mim dá, para dar-mo 

no meu duplo a ser mais dois, 

quais búfalos que são bois, 

ao mar meu a ser mais mar de 

ontem que ao ser-te, alma, foi-te, 

nas noites que são mais noite, 

nas tardes que são sem tarde. 

Só me lembro das andorinhas, 

que hoje são luas-vinhas 

que iam e vinham às seis, 

só me lembro das sequazes 

na imprecisão de alguns quases, 

na distância de vocês! 

Róseas ruas da memória, 

róseas ruas hoje escória 

que a soçobrar mais me sobe, 

afundai-me na lembrança 

hoje cravos da criança 

que meu cadáver descobre. 

Como, à noite, acendo a lâmpada, 

para imitar (rampa da 

noite) uma inútil manhã, 

como o como que mais como, 

assumo, na idéia, o pomo 

da primitiva maçã. 

Assumo o dia original. 

Nascimento à morte igual, 

nascimento em morte assumo 

nesta página onde, em branco, 

minha vida inteira arranco 

do nada em que subi. E sumo. 

E sumo a sós. Mas prossigo: 

“na idéia é bem maior o trigo 

que na boca o próprio pão, 

na idéia janto a sós, comigo, 

o pão real que mastigo 

feito de imaginação”. 

Azul manhã em contumácia! 

Negra noite, azul, te amasse 

a idéia sem pensamento, 

te amasse a própria Idéia 

reduzida a uma hiléia 

sem ar, floresta, rio, vento. 

Locador de um condomínio 

frustrador de um hímen híneo, 

frustrador de um hímem são, 

locador que loca um louco, 

de carne e ossos sou reboco 

deste barro em maldição. 

Tudo é farsa, menor dor. 

Sou, em mim, o que me sou 

desde o ventre que me fez. 

E contemplo a arraia, e raia 

dela, como de uma praia, 

a noite toda. Ei-la aqui. Eis: 

andaime, sucata, ferro, 

vagido, vagina e berro, 

viatura e papelório, 

passa tudo, e é a viatura 

conduzindo à sepultura 

meu ser morto. E sem velório. 

Pois viu a terra e além bebeu-a, 

pois viu o tempo e disse: é meu, à 

solidão cerzindo a roupa 

onde, se me dispo, visto 

o sexo nu de algum Cristo 

que, despido, não me poupa. 

Dez anos de coito cego 

são as metáforas que lego 

à solitária da escrita, 

aonde não chega ninguém 

exceto o vazio que vem 

de uma montanha infinita. 

Ao ouvir da tarde: fracasso!, 

conquanto, vergando, os braços 

dissessem: pára, enfim finda! 

e morre, ó alma desgraçada, 

eu ousei retornar do nada, 

ousei retornar ainda. 

Abandona, ó rei, abandona 

o abono de qualquer cona 

além do sangue e da queixa. 

Cerca a tua casa e a mura 

com o suor da tua estatura, 

e deixa o remorso, deixa-o! 

Senhor do teu sofrimento, 

vai-te com o diabo e o vento, 

vai-te com a noite e o monte. 

E fala, ainda que mudo, 

que, do nada, igual a tudo, 

sobre ambos nasces. E põe-te! 

Elimina todo se 

da pretensão de existir 

na existência que é demérito, 

e no não haver nascido 

elimina-te existido, 

elimina-te pretérito! 

Eliminar o talvez. 

Não saber dia, hora ou mês, 

não saber até o minuto 

em que me vim sendo feito 

plantando a morte no peito 

e o espinhaço no meu fruto. 

Por que o vemeversoverbo 

da herbívora erva que eu erbo 

no meu plantio masculino, 

inverte o chão do seu galho 

arrancado do assoalho 

repicando como um sino? 

Ter olhos-Deus! olhos-sóis 

tem-no o Deus que cego a sós, 

tem-no o horizonte a pôr-se 

como colírio em dordolhos, 

tem-no quem me olha nos olhos 

como se cego eu já fosse! 

Ah!, se a pedra me fizesse 

fazer-me cobrir quem desce 

à região do ser meu se, 

para não haver nascido 

ou o houvesse enfim já sido 

sem que eu dissera: nasci!

Cosa Mentale

Pode-se 

viver de pensar? 

Saber-se coisa dentre um corpo 

Como animal de pensamento? 

Do pó não pode haver nada: 

Apenas mãos, do pó nascidas, 

No pó se chamam mãos…Ó Nada! 

Ó esplendoroso Nada em ti 

na luz do ser após nascido 

para a grande noite depois: 

teu corpo é um quarto mobilado 

sobre quem dispo o pensamento 

de todas as suas gavetas. 

Minha memória te destrói 

 prego por prego – nos ferrolhos, 

para tirar-te inteira ao dentro. 

Pode-se viver de pensar: 

a matéria atrapalha tudo 

pelo hábito de acabar-se.

Dança Herética

Sou ímpar: 

sou par em mim, 

quando em minha alma carrego deus 

transportado num cofo de vísceras 

pelas ladeiras da misericórdia. 

Quem me restituirá ao impar que sou, 

senão a morte que descascará minha pele 

abandonando os braços inutilmente 

à espera do sol? 

Sou ímpar em mim e par em Deus.

Duplo Ruim

Toda existência 

é voraz. 

Todo ser deveria ser só. 

Não unir-se nunca, jamais, 

não enroscar-se a nenhum pó. 

Ter por casa o mundo todo. 

Ter por lar o que é do chão. 

Carne, ó dinheiro de um soldo 

ganho só com maldição! 

Vilipendiar-se? Por quê? 

Unir-se a outro? Mas com qual? 

Ser um só, para mais ser, 

fruto embora de um casal. 

Toda existência é nenhuma, 

Se feita para outra , em dois. 

Role o mar, eterna espuma, 

Presente ontem e depois.

7 Comments

  1. Posted 27 novembro, 2008 at 7:01 pm | Permalink

    Trago em mim a convicção que o maranhense Nauro Machado, sem desmerecimentos quaisquer a outros grandes poetas do Maranhão e do Brasil, é o mais expressivo literato (vivo) brasileiro. Aos meus olhos, sua poética é superior à de Gonçalves Dias ou Sousândrade; à de Ferreira Gullar ou Carlos Drumond de Andrade.
    É um poeta que ainda não recebeu da crítica brasileira o devido reconhecimento. Contudo é, hoje, o poeta brasileiro mais referenciado em França, Alemanha e Portugal, por exemplo.
    Parabéns aos editores por publicá-lo aqui.

    Abraços.
    JBL

  2. Karin Gama Rocha
    Posted 16 junho, 2011 at 1:07 am | Permalink

    De fato Nauro é um grande poeta mas, o poeta Rai Gama autor do livro A Rosa Roubada se tornou o poeta contemporâneo desse século e também é maranhense e começa a se destacar no cenário literário.

  3. Posted 25 junho, 2011 at 8:49 am | Permalink

    Olá, peço que divulguem.

    Concurso Literário de Poesias
    1º Concurso Nacional Novos Poetas
    Prêmio Augusto dos Anjos
    Inscrições Gratuitas
    Até 12 de Julho
    Pelo site:
    http://www.concursonovospoetas.com.br
    Realização Videira Editora

    Obrigado
    Isaac Almeida

  4. jessica
    Posted 2 abril, 2012 at 6:27 pm | Permalink

    a cultura e algo fascinante

  5. Gabrielle
    Posted 29 agosto, 2012 at 2:19 pm | Permalink

    a cultura Maranhense serve muito bem como exemplo para nossa gente

  6. Kimberly de oliveira silva
    Posted 2 setembro, 2012 at 8:33 pm | Permalink

    Brigadoo…precisei fzer um trabalho q envolvia esse assunto e vi q n isso n é so um trabalho e sim fez parte da vida d alguem ou seja,é a vida d alguem…brigado por td sou sua fã……bjbjbjbj

  7. Posted 22 janeiro, 2013 at 10:24 pm | Permalink

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