POETAS DO PARANÁ – Tonicato Miranda

 

Tonicado Miranda é um poeta de Curitiba - Paraná. Tem vários trabalhos publicados em em livros de coletânia. Foi um dos mais assiduos amigos da poeta, também Curitibana, Helena Colody. Foi livreiro. Hoje trabalha com citymarketing, principalmente no desenvolvimento de projeto de ciclovias para as principais cidades brasileira.

Tonicado Miranda é um poeta de Curitiba - Paraná. Tem vários trabalhos publicados em em livros de coletânia. Foi um dos mais assíduos amigos da poeta, também Curitibana, Helena Colody. Foi livreiro. Hoje trabalha com citymarketing, principalmente no desenvolvimento de projeto de ciclovias para as principais cidades brasileira.

Com Chet na alma

 

© Tonicato Miranda

ir ao fundo do sonho

não será apenas música

nem apenas uma visita

com chá e torradas calmas

na varanda das almas

 

ir às profundezas do sonho

é tragar fundo um cigarro

bons tempos de fumaça

um piano dedilhando a mão

a voz rouca alisando a canção

 

ir aos baixios do sonho

requer liberdade aos ouvidos

um olhar voltado para o interior

a procura do sabor do prazer

nas cascatas obscuras do ser 

 

ir aos secretos do sonho

exige total entrega ao sensorial

largar objetos ao desleixo

blusas e vestes sobre a cadeira

pular no abismo toda e inteira

 

ir ao sonoro do sonho

é viajar sem mochila e mapas

muda e surda a todos outros sons

o foco apenas no sonho musical

ai de mim, ai de ti: um bem, um mal

 

ir ao âmago do sonho

é movimentar-se no ritmo da calma

nada além de um baixo e do trumpete

o pingo caindo de leve sobre a folhagem

a música transportando tudo, em viagem

 

ir mais longe no sonho

é suicídio da vida, mas também entrega

ficar por lá onde nascem os sentimentos

onde germina a grande paixão animal

tão frágil mas poderosa como um tao

 

ir ao fundo do sonho

pode te matar de amor e de tristeza

pode ser como um Chet na manhã fria

comendo os ouvidos e a vontade dela 

em jogar os compromissos pela janela

Tonicato Miranda

Curitiba, 23/5/2005

* * * * *

Eneacórdio da tristeza

(Para Jane e Tom Jobim)

© Tonicato Miranda

A tristeza não tem brilho, nem é limpa

ela é como a sujeira das cortinas ao léu

das casas da periferia nos poemas do Gerson Maciel

      A tristeza não tem limites ou latitudes

ela está em todos os poros do seu corpo

seja você um manequim ou redondo como um porco

      A tristeza o lança à cela e às grades

ela é prisão sem cor nas paredes, não tem janela

onde reina o silêncio e a luz é sempre de vela

      A tristeza embora solitária é nascida de outro

é sempre uma mulher deixando-nos em abandono

e nosso coração vadio, cão perdido sem dono

      A tristeza é amiga e inimiga

ela é o toque do perigo, o seu próprio irmão

um revólver pode lhe matar por sua outra mão

      A tristeza é quando…

nem mais meu eu consciente está por aqui

há muito partiu numa onda para o Havaí

     É quando emprestamos um poema da Clarice

juntamos uma rosa roubada com muito apreço

enviando pelo correio ao nosso próprio endereço

      É quando viajamos em pensamento a um Cabo Frio

velas e mastros menos navegadores, quase ausentes

quando ficamos a um triz de não estarmos mais dementes

      A tristeza é quando o triste

está maior dentro do que fora de mim

quando, mais do que sentimentos, ela pode ser o fim

Tonicato Miranda

Curitiba, 17/10/2004

* * * * *

Fuga pictórica em rap

© Tonicato Miranda

Vida que passa e não passa

Quando minha cara de passas

Caça o seu olhar e laça

 

O vento sibilando na janela

É a flauta de Bashô

Fabricando músicas, fazendo um dô

 

No sopro que a boca dá

Há açúcar lambuzado na cara

Melado escorrendo do ouvido

O mundo de súbito parido

A lua tinindo seu sorriso

 

Os negros aqui e ali batem tambores

Estalam línguas, dedos e pés

O ritmo exige balanços, muito bis

O coração tem de ir aos quadris

 

Não queria ser assim tão caminhante

Preciso parar no meio do caminho

interromper a viagem, saltar do ônibus

visitar uma casa jamais visitada: este o ônus

 

Por que viajar no tempo tão ligeiro?

É preciso fazer novembro voltar a janeiro

ter um verão no olhar e a perna mais solta

uma voz sem cor, um olhar sem respostas

ter a porta aberta ao novo, ao desconhecido

 

Tudo livre à frente, preparando a volta

para fora de mim, para longe do agora

Quem sabe um gato salte do meu telhado?

Tonicato Miranda

1/11/2003

    * * * * *

Lembrança rouca

© Tonicato Miranda

(para ela)

choro pelos poros

e por todos couros

cobrindo minha pele

onde pulso as memórias

em My Funny Valentine

 

você me abandonou

barco de papel descendo

correnteza abaixo, pela vala

levando minha lágrima

e eu aqui, num jazz ancorado

 

como pode este trompete

desmanchar meu topete

deixando-me prostrado ao rés

do chão, entregue ao soluço

homem abatido e de bruço

 

mas não, não é o trompete

não são os acordes da canção

nem a interpretação do músico

o que me abateu foi sua partida

passos loucos em despedida

 

fiquei aqui sozinho e triste

com o papagaio e uma gaiola

numa prisão de saudades

apenas rouca esta lembrança

sua sandália em minha mão, pra quê?

Tonicato Miranda

Brasília, 5/Ago/2008

* * * * *

Na canção com Tony Bennet e você

© Tonicato Miranda

até que a música nunca se acabe

até que todo meu amor se esvaia

até que todas as pedras desçam à planície

repetidas vezes vou ouvir esta música

ela bailando meus pés paralisados

balançando meu olhar parado

balançando o mais simples dos meus ais

balançando meus vadios pensamentos

encharcando minha dor com suas lembranças

e este piano pingando notas de tormentos lindos

em dó, em sol, fervor e chuva

minha carne dilacerada de saudades

uma vontade atroz de cantar com o cantor

um canto suave quase murmúrio, bem baixinho

como sói cantar aquele que se tortura em silêncio

falando para si mesmo, qual louco de hospício

como um Van Gogh brilhante

com suas cascatas de ventos e cores

e você em meio aos trigais do meu quadro

no meio da música torturante

tocando sem parar, sem parar ou parar

repetidas vezes em mim, como castigo

como amor não resolvido, que jamais se resolverá

como o rabo de um coelho no chaveiro

ali pendurado nem sei mais porquê

como você dentro de mim e da música

se repetindo ad eternum, nessa morte lenta

onde o único abrigo pode ser o choro

a cama, o sonho, os lençóis e um salto

do mais alto edifício desta cidade

construído com toda minha dor.

Tonicato Miranda

Curitiba, 24/11/2008

2 Comments

  1. Posted 27 novembro, 2008 at 6:13 pm | Permalink

    “Com Chet na alma

    © Tonicato Miranda
    ir ao fundo do sonho

    não será apenas música

    nem apenas uma visita

    com chá e torradas calmas

    na varanda das almas

    ir às profundezas do sonho

    é tragar fundo um cigarro

    bons tempos de fumaça

    um piano dedilhando a mão

    a voz rouca alisando a canção

    ir aos baixios do sonho

    requer liberdade aos ouvidos

    um olhar voltado para o interior

    a procura do sabor do prazer

    nas cascatas obscuras do ser

    ir aos secretos do sonho

    exige total entrega ao sensorial

    largar objetos ao desleixo

    blusas e vestes sobre a cadeira

    pular no abismo toda e inteira

    ir ao sonoro do sonho

    é viajar sem mochila e mapas

    muda e surda a todos outros sons

    o foco apenas no sonho musical

    ai de mim, ai de ti: um bem, um mal

    ir ao âmago do sonho

    é movimentar-se no ritmo da calma

    nada além de um baixo e do trumpete

    o pingo caindo de leve sobre a folhagem

    a música transportando tudo, em viagem

    ir mais longe no sonho

    é suicídio da vida, mas também entrega

    ficar por lá onde nascem os sentimentos

    onde germina a grande paixão animal

    tão frágil mas poderosa como um tao

    ir ao fundo do sonho

    pode te matar de amor e de tristeza

    pode ser como um Chet na manhã fria

    comendo os ouvidos e a vontade dela

    em jogar os compromissos pela janela”

    Inicio este mínimo comentário com a certeza plena de que acabo de ler uma belíssima poesia. Um canto autêntico ao mais puro simbolismo do “Simbolismo” já registrado como um movimento estético-literário. Se nada se tivesse dito sobre o Simbolismo, meu caro poeta Tonicato Miraranda, com certeza, esta sua poesia seria o seu manifesto.
    Um grande abraço.
    JBL

  2. Posted 27 novembro, 2008 at 6:52 pm | Permalink

    “Eneacórdio da tristeza

    (Para Jane e Tom Jobim)

    © Tonicato Miranda
    A tristeza não tem brilho, nem é limpa

    ela é como a sujeira das cortinas ao léu

    das casas da periferia nos poemas do Gerson Maciel

    A tristeza não tem limites ou latitudes

    ela está em todos os poros do seu corpo

    seja você um manequim ou redondo como um porco

    A tristeza o lança à cela e às grades

    ela é prisão sem cor nas paredes, não tem janela

    onde reina o silêncio e a luz é sempre de vela

    A tristeza embora solitária é nascida de outro

    é sempre uma mulher deixando-nos em abandono

    e nosso coração vadio, cão perdido sem dono

    A tristeza é amiga e inimiga

    ela é o toque do perigo, o seu próprio irmão

    um revólver pode lhe matar por sua outra mão

    A tristeza é quando…

    nem mais meu eu consciente está por aqui

    há muito partiu numa onda para o Havaí

    É quando emprestamos um poema da Clarice

    juntamos uma rosa roubada com muito apreço

    enviando pelo correio ao nosso próprio endereço

    É quando viajamos em pensamento a um Cabo Frio

    velas e mastros menos navegadores, quase ausentes

    quando ficamos a um triz de não estarmos mais dementes

    A tristeza é quando o triste

    está maior dentro do que fora de mim

    quando, mais do que sentimentos, ela pode ser o fim”

    * * * * *

    Este (aos meus olhos) é um poema intimista. E se poderia mesmo dizer que sua residência é no campo dum simbologismo psicologista, mas com um pé (de saída) de um certo romantismo-realista. Entretanto, nada impede de o qualificarmos como um dos melhores deste conjunto de poesias que aqui estão publicadas.

    Abraços.
    JBL


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