ARTIGO: Cristianismo Místico [Jamil Salloum Jr.]

Cristianismo Místico

Jamil Salloum Jr.

 

jamilsajr@bol.com.br

Jamil Salloum Jr é graduado em Jornalismo (UnicenP), Especialista em Comunicação e Cultura (UnicenP) e Mestre em Filosofia (PUC-PR). Professor, escritor e conferencista. Colunista dos Jornais Diário dos Campos e Jornal da Manhã, de Pontas Grossa-PR. E-mail: jamilsajr@bol.com.br

As religiões tradicionais iniciaram com dois níveis de ensinamento: privado e público, esotérico e exotérico. Com o tempo o afastamento de ambos foi ficando tão grande, que, finalmente, por razões quase sempre políticas, o primeiro já não foi mais reconhecido, admitido ou tolerado pelo último.  


Todas as religiões possuem os seus “Mistérios”. Esta palavra vem do grego “muô”, significando o ato de fechar a boca. A Iniciação nos “Mistérios Menores e Maiores” pode ser verificada na maioria das religiões, embora muitas hoje neguem terminantemente a presença de Mistérios (no sentido místico) em suas doutrinas. 


O Cristianismo contemporâneo atribui os Mistérios às religiões ditas “pagãs”. Contudo, os místicos sempre apontaram a presença de Mistérios nos ensinamentos de Cristo. Na Bíblia cristã, em Mateus 13, 13, lemos: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem” Aqui “eles” refere-se aos não-iniciados.  Em Mateus 13, 34, temos: “Todas estas coisas falou Jesus às multidões por parábolas, e sem parábolas nada lhes falava.” Já em Marcos, 4,11 e em Lucas, 8, 10, podemos ler “A vós é confiado o mistério do Reino de Deus, mas aos de fora tudo se lhes diz por parábolas.” Interpretando, podemos compreender que “a vós” quer dizer aos discípulos iniciados; os “de fora” são os profanos ou ignorantes, aqueles que não estavam preparados para a Verdade.  Já “o mistério do Reino de Deus” significa a Sabedoria Esotérica.

Na Bíblia, outra comparação interessante entre iniciados e não-iniciados é aquela que aparece em Hebreus 5, 13-14: “Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal.” As palavras “leite” e “crianças” referem-se, novamente, aos profanos ou não-iniciados, que não têm dentes para mastigar alimento sólido, ou seja, preparo para o conhecimento mais profundo, ou esotérico. As “faculdades exercitadas” refere-se ao despertar dos centros psíquicos interiores, que permitem captar as verdades sutis e cósmicas. 

Clemente de Alexandria, um dos primeiros Padres da Igreja, em seu “Stromata” I, cap. XII, após ter feito alusão aos Mistérios, diz: “Ainda hoje temos de, como se diz, lançar pérolas aos porcos, com receio que as pisem com os pés, e voltando-se, nos despedacem. Porque é fácil falar da verdadeira luz em termos demasiado claros e límpidos a ouvintes mal preparados e de natureza porcina.” Clemente alude, é claro, à advertência bíblica em Mateus 7, 6, que diz: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem.” 

Na época do Cristianismo primitivo as pessoas não-iniciadas nos Mistérios, sejam nos do “Reino de Deus” (no Cristianismo) ou nos da “Israel Espiritual” (no Judaísmo) eram freqüentemente comparadas aos animais, pois estes, evidentemente, não tem a consciência desenvolvida do ser humano. Daí a alusão a porcos na Bíblia. Vários nomes eram dados aos conhecimentos esotéricos na época: “Reino”, “Reino de Deus”, “Porta Estreita” etc. E a história comprovou que todo conhecimento lançado a mentes despreparadas sempre foi aviltado, e seu autor injuriado, quando não executado.

No caso da Bíblia, e em geral em todos os grandes livros sacros da humanidade, temos três níveis de leitura: literal, simbólico e místico. O primeiro freqüentemente é absurdo, contraditório e irracional. No segundo começamos a perceber o simbolizado pela interpretação do símbolo. No terceiro adentramos pela “porta estreita” e “vivemos na verdade”. As chaves para o terceiro e último nível de leitura não são divulgadas e para ser conquistadas precisam ser merecidas, após longo noviciado. 


Em Marcos 4, 33-34, temos novamente a indicação de que Jesus ensinava de maneira dual:  “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, conforme podiam compreender. E sem parábola não lhes falava; mas em particular explicava tudo a seus discípulos”. Vejamos agora o que Clemente de Alexandria, já citado, tem a nos dizer em seu “Stromata” I, I. Diz ele: “Eu omito certas coisas propositalmente, exercendo uma prudente seleção (…) Não faço por ciúme, mas por temer ver meus leitores interpretá-los de maneira inexata (…) seria dar uma espada na mão de uma criança. (…) Eu me esforçarei por falar imperceptivelmente, mostrando secretamente e procedendo por demonstração silenciosa. (…) Ainda hoje eu receio, como foi dito, lançar pérolas aos porcos, com medo que eles pisem com os pés e que, voltando-se, nos despedacem.” Ainda no capítulo 1 desta mesma obra, diz São Clemente, referindo-se à Bíblia: “Considerando a Escritura composta de alegorias e símbolos onde se dissimula o sentido, a fim de encorajar o espírito do exame, e preservar os ignorantes de certos perigos…” 


Entre as Doutrina Secretas de Jesus estava a meditação. Na Bíblia uma das alusões à meditação está em Mateus, 6-8. Lá lemos: “Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos.” Na acepção literal deste versículo podemos pensar que Jesus aconselhou orar em um quarto da casa. Mas na explicação mística, “quarto” significa o nosso interior, a região silenciosa da alma. Lá está o “Pai que está em secreto”; secreto porque não é reconhecido pela consciência ordinária. “Fechar a porta” significa que só quando o homem silencia a mente objetiva, e volta-se para dentro, fechando-se para o mundo exterior, “ouvirá o Pai”, pois contatará o seu Mestre Interior, ou seja, Deus em si mesmo.


Em Lucas 17, 20-21, lemos que Jesus, quando interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, lhes respondeu: “Não vem o Reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o Reino de Deus está dentro de vós”

São Paulo também enfatizou que o homem era um Templo de Deus, dentro do qual o Espírito Santo permanecia. Em 1 Cor. 3,16 e 6,19 lemos: “Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…) Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual possuís da parte de Deus (…)” Já em Atos,17,24,  Paulo nos diz: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens…”  Também em Atos, 17, 27-29, lemos: “…para que buscassem a Deus (…) o qual, todavia, não está longe de cada um de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos (…) Sendo nós, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a Divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida pela arte e imaginação do homem.” 

Essas citações exortam, ainda que veladamente, a procurar mais Deus em nós mesmos do que em lugares externos; procurá-Lo silenciosamente, mediante profunda introspecção.

A teosofista Annie Besant, em um estudo sobre o Cristianismo esotérico, diz: “O conhecimento final consiste em conhecer Deus e não somente em adorá-Lo de longe. O homem deve saber que a Existência Divina é real; que fé e esperança vagas não bastam, que no íntimo do seu próprio ser é ele idêntico a Deus e que o objetivo da vida é realizar esta unidade.”

O verdadeiro místico não é inimigo ou opositor das religiões tradicionais. Sabe que mesmo deformadas como ficaram as mensagens originais dos Avatares, ainda assim as religiões, tal como praticadas hoje, carregam um valor oculto que indubitavelmente beneficia os milhões que a elas recorrem. Cabe ao místico, então, apoiá-las em seu trabalho de Luz, sem necessariamente abraçá-las ou aceitar seus dogmas e mesmo superstições. 

—————————————————————————

One Comment

  1. Posted 24 maio, 2010 at 3:49 pm | Permalink

    Os primeiros cristãos seguiam de uma forma muito literal os ensinos de Jesus. As seguintes são passagens dele e outros escritores na igreja primitiva sobre mais do 100 temas diferentes. http://www.aigrejaprimitiva.com/dicionario/dicionario.html


Comente

Required fields are marked *
*
*

%d blogueiros gostam disto: