ODILON MACHADO JÚNIOR

Contista e poeta, tendo sido premiado em vários eventos literários.

Autor de diversas peças para teatro infantil, encenadas sobretudo nas regiões

sudeste e centro-oeste das cidades de Belo Horizonte e Brasília. Mestre em

História pela UNESP, campus de Franca, SP, leciona na Universidade de

Franca, onde ministra aulas de História da Arte, Sociologia e Antropologia.

Ministra palestras sobre História e Literatura, sendo pesquisador da obra de

Guimarães Rosa, e o seu objeto de pesquisa no mestrado foi “A legitimação

do conceito do condomínio da violência em Grande Sertão: Veredas. O

autor é também cirurgião-dentista, especialista em Endodontia. Nasceu em

Ituiutaba, MG, a 07/03/1947.

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O Outro

Odilon Machado Júnior

Voto fiz de não usar ouro

e só beber água de talha,

não me fazer com navalha

até que pudesse ser outro.


Outro que bem seria

nascendo de mim novamente,

portanto, subi à vertente

de onde correm meus dias.


Trancei o cabelo no escuro,

passei o que um homem passa

e sem ser outro nessa farsa

não me basto, não me iludo.


Para em outro me tornar

inda que no sempre corpo,

como se obstinado morto

teimasse por mim respirar,


tornei as noites tranquilas

em turvas missas contrárias,

minha camisa procelária

sozinha flutua e se agita.


Meu dinheiro anda calado

sumido em bolsos de abismo,

mas todo o maior prejuízo

é ainda eu ser meu contrário.


Pois, contrário, não é ser outro!

é se abnegar em avesso,

é sempre o mesmo arremedo

sustentando o seu aborto.


De tudo que homem precisa

até ontem eu fui tribuno.

Hoje, mais posso jejuno

por não querer tais divisas.


Persigo o outro no espelho:

similimun, silêncio e virtude.

Por mais que em vigília estude,

fogem as feições com o segredo.


Ser outro nasceu de-repente

ou foi tijolo sob tijolo?

desde o instante mais novo

que a vida se dá de presente?


Aquele, o Alheio, na sala.

O que torna a mobília radiante,

quem, no desmazelo do instante

me tira parcelas da alma


(que de resto, tão mesquinha,

ao outro se converteu.

Nunca mais escureceu

e nem apagou sua luzinha).


Mas alma não é nada, não é o mar,

e nem mora mais aqui no peito.

Almas, têm o grande defeito

de dissolver, ou desfolhar.


Agora que o outro está pronto

sem as asas, sem a música,

simples em sua túnica

de terminal abandono,


então que foi tão chamado

para ser o que quase fui,

naturalmente ele flui

mais fremente que passado,


mais dono daquela fome

que eu tinha desperdiçado.

O outro está do meu lado

e experimenta o meu nome.


E solta um gesto dobrado

e injustamente sem uso.

Repõe, com um só parafuso,

meu ombro decepcionado;


derrama algumas lágrimas

tão bobamente retidas,

que ao serem permitidas

só molharam umas páginas.


Escuta os órgãos noturnos

resolvendo a sua pasta,

e nem mesmo se afasta

se grita o coração no escuro.


Onde orgulho e talento

e as altas torres acesas,

o outro recolhe estranhezas

que foram ritmo e alento.


E depois de escadarias

que levam a quartos de fúria,

e suportar a penúria

de quantas salas sombrias,


o outro bate em paredes

que nunca serão abertas

por essas imagens desertas

em extremo estado de sede.


Somente quer ir embora,

aquele que me ensaiou

(o outro nem me abraçou,

uma vez aqui de fora).


Abriu as asas dormentes

e se foi, por sobre os telhados,

e porque assim machucado

se afastou também para sempre.


Volto a mim mesmo, sereno,

ciente de não ter mais cura.

E bebo, com alegria obscura

desse meu, sozinho veneno.

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In: Poesia, pp. 30-3, 2006 – Curitiba, Secretaria de Estado da Cultura, 15º Concurso Nacional de Poesia “Helena Koloki” 

One Comment

  1. luiz graco dias
    Posted 8 setembro, 2010 at 6:29 pm | Permalink

    Olá, meu amigo, fiquei feliz por tudo,ainda bem que O Outro se encontrou em si mesmo, foi sempre assim, talvez ainda não tivesse asas mas agora voe amigo, voe…


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