POETAS DO PARANÁ – Gerson Maciel

Poemas extraídos do livro VARANDAES,

editado em 1984, em Curitiba.

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Não fiquem assustados

se qualquer dia desses

eu colocar uma bomba

no lado esquerdo da cidade

banhar a Estátua da Liberdade

no Rio Jordão

virar cowboy de brinquedo

e duelar com Tio Sam

aí sim não serão vãos

os versos cantados neste lugar

porque vocênão passou

por aqui impunemente

 

* * * * *

 

agora estou construindo

cemitérios de papel de seda

onde fantasmas empinam papagaios de mármore

mais pesados que a fuselagem dos 747

que sobrevoam tua cabeça

muito acima do corcovado dos teus sonhos

e do farol

onde as sereias

observam o ocenao

sem peixes

sem água

sem estrelas do mar

 

* * * * *

 

OUTROS de mais

OUTROS de menos

OUTROS de medo

EU, ANTES E DEPOIS

AQUI NESTE LUGAR

FUI CHEGANDO CALABAR.

 

* * * * *

 

Aquela multidão que nunca foi

agora está voltando

como menino ao final do dia

cansado das buzinas dos automóveis

da semana que há muito já passou em mim

igual aos feriados e os dias santificados

Cansados dos caminhos que nunca percebi

desigual de todos que explicaram

para mim

Cansados de tropeçar em borboletas

absolutamente distraídas

ao final da tarde da noite, da vida

que passa velocíssima

equivocando destinos

meus versos

minha memória

 

* * * * *

 

A CIDADE NÃO DORME

E ME TRAZ MOTIVOS

QUE NÃO VÃO ABSOLUTAMENTE

DESVIAR A TRAJETÓRIA DAS MINHAS CONEXÕES

MAS, ACREDITO ABSOLUTAMENTE

NA RECÍPROCA DE JÁ TER VOADO EM SEU CÉU AZUL

E DE TER POUSADO AQUI

COM ARES DE OFICINA

ALIÁS

BEM ANTES QUE VOCÊ.

 

* * * * *

 

Retrato em Preto e Branco

 

Era o último do mês

O homem levantou-se

escovou os dentes, tomou café

beijou os filhos a mulher

e saiu

No caminho cumprimentou

os vizinhos conhecidos

acendeu o último cigarro

foi fumando

até chegar o ônibus

deu mais uma tragada

jogou o toco de cigarro

ao lado do paraleleípedo

Entrou no coletivo apertado

foi pedindo licença

àquele povo desconhecido

Puxou o fio da campainha

e desceu um ponto antes

do ponto final

O sinaleiro estava fechado

aguardou um pouquinho

depois seguiu em frente

nas próximas avenidas

não havia mais sinaleiro vermelho

para lhe atrapalhar

Chegou ao escritório

tirou o paletó

a gravata

a camisa

foi se despindo como nunca

havia feito antes

Deu um beijo no telefone

e naquele negocinho de prender papel

abriu para sempre todas

as gavetas da escrivaninha

tocou fogo em todos os memorandos

que passaram em sua vida

pegou uma caronha

na veia da esquina

e sumiu no último dia do mês

 

* * * * *

 

NÃO IMPORTA

OUTROS

OUTUBROS

QUE NÃO CONHECI

MAS QUANTO TEMPO FAZ

QUE VOCÊ NUNCA VOLTA

APENAS COMO AGORA?

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