JAMIL SALLOUM JR.

Mistério de Kaspar Hauser

Jamil Salloum Jr.

 

 

jamilsajr@bol.com.br

Jamil Salloum Jr é graduado em Jornalismo (UnicenP), Especialista em Comunicação e Cultura (UnicenP) e Mestre em Filosofia (PUC-PR). Professor, escritor e conferencista. Colunista dos Jornais Diário dos Campos e Jornal da Manhã, de Pontas Grossa-PR. E-mail: jamilsajr@bol.com.br

Em 26 de maio de 1828 algumas pessoas se aglomeravam na parte principal da cidade de Nuremberg, Alemanha. Subitamente, suas atenções foram desviadas para uma estranha figura. Um jovem, de uns vinte e poucos anos, andava com passos vacilantes, como os de uma criança. Vestia-se com roupas rústicas e botas enormes. Apresentava uma feição de sonâmbulo. Só falava duas coisas: “Levar pra casa…” e “Eu queria ser um cavaleiro como meu pai.” Espantados, os moradores da cidade levaram-no à “Torre”, para um interrogatório.

Ainda que não soubesse falar direito, o jovem soube escrever seu nome: Kaspar Hauser. Adotado por um família, logo aprendeu a falar e revelou sua bizarra história. Tinha vivido até aquela idade trancado em um recinto escuro e fechado. Quando foi solto não sabia andar. Exames médicos mostraram que ele nunca tinha ficado em pé antes. Por ter vivido na escuridão, não sabia medir a distância e a profundidade dos objetos. Quando trancado, imaginava que o mundo se resumisse numa sala escura e que ele era o único ser do universo.

 

Mas o que começou chamar a atenção naquele jovem foram suas características. Absolutamente destituído de maldade, vivia em permanente contentamento e inocência. Era tão refratário à violência que quando lhe mostraram um crucifixo, chorou pela dor que estavam causando ao pobre homem. Sua presença acalmava os animais ferozes e podia captar os pensamentos das pessoas, revelando, assim, habilidades extrasensoriais. Hauser dizia que queria saborear cada instante da vida, pois nunca imaginou, em seu cativeiro, que ela pudesse ser tão rica e maravilhosa. Neste estágio já tinha se tornado um fenômeno público e foi chamado de “O filho da Europa”, graças ao seu imenso carisma. Mas Hauser foi assassinado por um misterioso encapuzado. O famoso jurista Von Feuerbach, criminologista, disse na ocasião: “era uma alma repleta de bondade e suavidade infantis, em todo o sentido tão imaculada e pura como o reflexo da eternidade na alma de um anjo.”

 

Algumas hipóteses surgiram sobre a origem de Kaspar Hauser. Seria ele o príncipe herdeiro da dinastia de Baden, cujo reino ficava em Karlsruhe. Sua mãe poderia ser Stéphanie Beauharmais, filha adotiva de Napoleão Bonaparte. Hauser teria sido trancado aos dois anos de idade.

 

Nosso mundo mecânico e materialista, no qual circulamos de forma igualmente mecânica, sofre sacudidas de vez em quando com o aparecimento de figuras como a de Kaspar Hauser. Sua história é associada, até hoje, a conceitos de Psicologia, Psicanálise, Sociologia, Filosofia e Espiritualidade. Por ter vivido apartado do habitat humano, Hauser não foi condicionado pela civilização, pelos vícios, dogmas, preconceitos e costumes desta. Sua realidade não foi turvada pelo prisma artificial com o qual construímos nossa visão mundo. Pensamos que o que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos e degustamos é real. Isso é falso. Como diz o escritor Isadoro Blikstein, o que julgamos ser a realidade não passa de nossa percepção cultural. Ou seja, a “realidade” já foi fabricada para nós. E nós a aceitamos sem questionar.

 

Portanto, vencer os estereótipos e condicionamentos pode ser uma forma de libertação, libertação esta com a qual Kaspar Hauser já nascera. O célebre cineasta alemão Werner Herzog filmou a história de Kaspar Hauser em 1974. O filme chama-se “O Enigma de Kaspar Hauser” e na abertura podemos ler a seguinte frase: “Estes gritos assustadores que nos cercam… é isso o que vocês chamam de silêncio?”.

One Comment

  1. edson
    Posted 22 janeiro, 2015 at 6:13 pm | Permalink

    R+C ?

    Texto muito bom!!!
    Paz Profunda!


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