Artilheiros da Infantaria – por Rubem Braga

“(…)

Por acaso, chego para visitar os homens no dia em que registram (eu ia escrever “comemoram”, mas na verdade não houve comemoração de espécie alguma) o milésimo tiro disparado por aquela peça contra os nazistas. Isso aconteceu pela manhã; no momento de minha visita, à tardinha, a conta já estava em 1.066.

O chefe da peça é o sargento Aderaldo Alcoforado de Almeida (Rua 13 de Maio, 637, João Pessoa, Paraíba) e ele ri quando eu pergunto se não é possível parar com aqueles disparos uns 15 minutos para a gente conversar melhor.

(…)”

Clique sobre o texto, ou AQUI, para ler a crônica de Rubem Braga.

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BREVE COMENTÁRIO

(por Tonicato Miranda)

Tonicato Miranda

Tonicato Miranda

Esta e outras crônicas de Rubem Braga, reunidas no livro Crônicas da Guerra na Itália, mostram uma faceta impressionante do cronista. Também revelam as possibilidades do alcance da crônica. Atuando como correspondente de jornais do Rio de Janeiro, Rubem passava, através da nominata dos pracinhas e dos seus endereços no Brasil, a informação de que estavam vivos, mesmo estando no “front” de batalha. Ao mesmo tempo em que passava informações banais do cotidiano da guerra na Itália, transmitia recados de sobrevivência aos parentes dos soldados. Com isto mantinha o leitor brasileiro fora da guerra como assíduo leitor do jornal. Na busca da crônica diária de Rubem a esperança de saber um grão de quase nada de notícia do ente querido. E isto já era muito às incertezas geradas por uma guerra.

Interessante observar que mesmo transmitindo de forma errada os nomes de cidades, como Indaiá – ao invés de Indaial – SC; Ipirama – ao invés de Ibirama – SC, a nominata dos endereços ou cidades ajudavam a ampliar o alcance da informação para além da própria cidade do Rio de Janeiro.

De resto as crônicas do livro trazem assuntos banais, de somenos importância ao leitor, milhas ou milhares de quilômetros distante da guerra. Mesmo assim, Rubem Braga, como um alfaiate costurando de arte um pano mínimo, enviava pelo telex fragmentos da vida dura dos pracinhas. Através desses pedaços de notícias de guerra, revelava que para muitos pracinhas a condição de soldado, assim como a tarefa de atirar para matar, representava um ofício como outro qualquer. E isto fica facilmente revelado quando um soldado descreve os turnos de “trabalho” do pessoal da artilharia pesada.

__ …Atrapalha? Questão de costume, A gente aqui dorme enquanto outra turma está atirando. Às vezes, de manhã, uma pergunta aos que ficaram de serviço durante a noite: “Vocês atiraram esta noite?”

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