CRÔNICAS DO COTIDIANO URBANO

Linguagem

por Rubem Braga

extraída do livro

Crônicas da Guerra na Itália

– Record, 2ª Edição, 1986.

15 de fevereiro, 1945.

Quando os nossos soldados voltaram ao Brasil, as famílias vão estranhar muito a linguagem deles. Já nos quartéis do Brasil, eles incorporaram à linguagem diária uma porção de gíria militar.

__ Esse capitão gosta de traquejar! O sujeito bobeou um pouco, já está enquadrado. Ó tesa!

Dizer que um oficial é “traquejado” não quer dizer, como na linguagem paisana comum, que seja um homem experimentado: quer dizer que gosta de chamar os soldados à ordem, gosta de “traquejar” e, nos casos mais graves, “enquadrar”, isto é, meter o pracinha dentro de algum artigo do RDE, o Regulamento Disciplinar do Exército.

Certos oficiais, não muito simpatizados, são chamados de “cartolas”, e outros, menos importantes, de “chapéu de coco” – isto em contraposição ao “pica-fumo”. O uniforme de brim, que está recolhido ao depósito da Intendência, é o “Zé Carioca”, e o gorro é “bibico”. O camarada que tem prestígio – com um coronel, por exemplo – é “peixinho” do coronel. A turma do 2º. Escalão é a de “nossos aliados”, e o pessoal que acaba de chegar no terceiro é “co-beligerante”.

Outro dia, os homens avançavam para tomar posição, à noite”, e a lua apareceu. A estrada em que estávamos era constantemente batida pelo fogo alemão – e com o luar branco eles poderiam nos enxergar. O comentário que ouvi foi este:

__ Essa lua está “dando uma sopa” medonha ao tedesco!

Assim, também se diz que uma estrada “está dando muita sopa”.

Uma frase que já ouvi mais de uma vez nas estradas noturnas é esta: “Apaga o farol e acende o blackout.”

Isso quer dizer que o motorista deve acender as pequenas luzes que se podem usar nos trechos em que há blackout. Um hábito dos oficiais é de se chamarem de “velho” e “velhinho”, e isto é usado também pelos soldados entre si e de oficial para soldado – mas naturalmente não de soldado para oficial.

Mas não quero me estender sobre a gíria militar, em grande parte igual a do Brasil. O que as famílias dos expedicionários vão estranhar muito é o linguajar italiano.

As primeiras coisas que o soldado aprende é que portar via quer dizer carregar, roubar; andar via quer dizer ir-se embora; e cattivo não quer dizer prisioneiro e sim ruim, ou malvado. Coisa que estranha é que manteiga em italiano seja burro, e mais ainda o prego:

__ Grazie!

__ Prego!

Isso quer dizer “obrigado” e “não há de quê”, mas os italianos pronunciam a palavra prego com tanta energia, que muitos pracinhas costumam responder: “Martelo!”

Depois de um mês, o pracinha chega à conclusão de que falar o italiano é acrescentar um “e” ao infinitivo de nossos verbos – e que o infinitivo substitui perfeitamente qualquer tempo e modo. Ainda ontem, um motorista estava fumando e um italiano lhe perguntou se aquele cigarro era americano. O pracinha comentou:

__ Io non gostare, ma fumare porque me dare.

Abusa-se um pouco dessa maneira de falar, mas alguns verbos são imediatamente adotados. Assim, trovare, mangiare e bisognare (precisar).

__ Eu sei o que é que você bisogna! – dizia outro dia um cabo a um soldado.

O tratamento da pessoa com quem se fala é o mais confuso: misturamos todas as vozes do lei, do voi, e do tu. Ninguém diz mais “chocolate” e sim ciocolata, dando à sílaba o som de “tchô”. Lata é scàtola, e usamos principalmente o diminutivo scatolleta. Conversa comum de soldado com uma ragazza: “Io portare uma escatolleta per te…

E vem então o convite para uma “passeggiata”. Paura no lugar de medo (non bisogna avere – ou tere paura), freddo e caldo no lugar de frio e quente, voglio no lugar de “quero” e sinistra no lugar de “esquerda” são de uso diário no seio da tropa.

No começo, quando a gente pergunta dov’è algum lugar e o italiano responde sempre dirrito, a tendência é para achar que se deve dobrar sempre à direita, e não tocar em frente, como ele quer dizer. O que o soldado estranha é que o italiano que se dirige a ele o chame de paesano – que não quer dizer “paisano”, mas simplesmente “cidadão”. Já vi o relatório de um sargento do Reconhecimento que dizia assim: “do outro lado do monte tem um paesinho, onde vi cinco tedescos…”

Esse “paesinho” é o italiano paesino, pequeno paese, isto é, aldeola. Encontrei um sargento que estava encantado pelo fato de sua lavandaia chamá-lo de maresciallo – que, nesse sentido, nada tem de comum com o nosso marechal, mas designa um posto entre tenente e subtenente no Exército italiano.

Toda história bonita que um italiano conta aconteceu primo la guerra, e nossos homens prometem à fidanzata voltar à Itália dopo la guerra. Um médico me contou que um preto ferido em estado grave, mal podendo falar, respondeu, depois da operação, à sua pergunta sobre como estava passando:

__ Cosi, cosi

Vi, outro dia, um capitão que reclamava, irritado, porque não haviam mandado um caminhão ao seu PC:

__ Já é a segunda vez que peço. Não cabe mais ninguém lá, está cheio de sfollati.

Referia-se aos italianos fugitivos. Eu iria muito longe se quisesse transcrever todas as palavras italianas ou italianadas que o pessoal usa todo dia. O va bene substitui o “está legal” da gíria carioca, e os tenentes que terminavam qualquer frase com um “viste?” adotaram unanimemente o capito?

E o meio universal de negar quando alguém pede uma sigaretta ou caramelle ou ainda quando não se quer atender a qualquer pedido, ou não se quer dar ouvidos a qualquer observação é: “Non capire…

Acho que chega.


BREVE COMENTÁRIO (por Tonicato Miranda)

Diante das linguagens atuais e do avanço da comunicação mundial, onde a todo instante estamos ouvindo “on line” os acontecimentos em todos os quadrantes do planeta, a crônica do Rubem Braga nos soa extremamente ingênua. Está claro que para a gente simples do nosso País, e mesmo para as classes com menor acesso aos veículos da comunicação global, como Internet, TV a cabo etc. estes chistes e tropeços lingüísticos, na maioria das vezes maneirismos dos nossos soldados, são até interessantes. E neste mister a crônica ajuda a mostrar alguns pequenos passos da linguagem italiana e seus significados.

No entanto, para a classe média e aos inúmeros jovens antenados na novilíngua internauta, a crônica tem sabor antigo, de coisa “démoder”. Bobagem grossa. Beber vinhos antigos pode nos trazer prazeres novos.

Rubem com esta sua crônica mostra ao menos um fato curioso sobre nosso traço cultural, o de que embora não saibamos os significados de uma língua diversa da nossa, fazemos de tudo para nos adaptar e buscar a comunicação. E mesmo que enveredemos no ridículo, acabamos conquistando a gentileza dos interlocutores, que entendem o esforço de nossas ignorâncias, além de entender também existir em todo brasileiro dois valores maiores: a sua humildade e sua humanidade no contato. Pelo menos na época do Rubem tais atributos existiam.

One Comment

  1. Posted 6 julho, 2014 at 2:54 pm | Permalink

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