CRÔNICAS: Comunicação e Neurociência

Comunicação e neurociência

Jamil Salloum Jr.

 

A Neurociência moderna já avançou muito no entendimento dessa espantosa máquina que é o cérebro. O que foi até o momento comprovado é a ação eletroquímica através de circuitarias cerebrais, responsáveis pelas mais diversas funções, como a fala, os sentimentos, as necessidades etc. O cérebro humano opera de forma algorítmica, processando informações via sinapses, ou descargas informacionais, que transmitem dados de um neurônio ao outro.

Segundo testes, começa-se a comprovar que a mídia pode provocar alterações eletroquímicas no cérebro. Em outras palavras, assistir televisão, por exemplo, reconfigura nossas trocas eletroquímicas e sinápticas cerebrais, para melhor ou para pior. E em alguns casos o processo é semelhante à ingestão de algumas drogas!

Considere-se uma droga ilegal qualquer, como a cocaína. Sua ingestão continuada, além dos estragos neuronais já comprovados, provocará a criação de “receptores químicos” no cérebro, que o farão entender que aquela substância é vital para o funcionamento das circuitarias de neurotransmissão. Assim, o cérebro cria a necessidade, crescente, da ingestão da droga. É o vício. Além desses receptores, instala-se o que pode ser chamado de “memória neural”, que, ao contrário dos receptores, não poderá ser mais removida. Num trabalho de desintoxicação o que se faz é, paulatinamente, eliminar os receptores para aquele tipo de droga, responsáveis pela exigência cerebral da substância. No entanto, a desintoxicação não elimina a central de memória química formada pela droga e instalada no cérebro. Por isso não existe “ex-viciado”. Assim, explica-se porque um “ex-fumante” ou um “ex-alcólatra” voltará ao vício nos primeiros tragos.

No que tange à mídia, as informações captadas via jornal, rádio, televisão ou internet também podem criar receptores neuroquímicos, que exigirão com freqüência a administração do mesmo tipo de “dose”. Mensagens de toda ordem – violentas, pornográficas, como também culturais, científicas etc. –  propiciarão uma modificação morfo-funcional no cérebro, devido ao fenômeno da plasticidade neural, criando novos receptores. O sucesso de programas tipo “mundo cão”, apesar da lamentável forma com que são conduzidos, deve-se ao fato de que os mesmos criam, independentemente da vontade da audiência, uma necessidade eletroquímica cerebral de renovação do mesmo tipo de mensagem. Narcotizam, viciam. Naturalmente que outras variáveis entram nesse processo, como uma maior ou menor pré-disposição do indivíduo a esse tipo de fluxo informacional. Mas tais informações, depois de um certo tempo, exigirão contínua recarga.

E por que a violência fascina mais do que a cultura? Neurologistas explicam que esse tipo de informação, como também as de ordem erótica, em dose massiva e continuada,  podem excitar o que se conhece como  “cérebro primitivo”, onde estão alojados os instintos básicos do homem como a agressividade (defesa) e a sexualidade (reprodução). A partir daí o estrago passa a ser maior. Em suma, a repetição de filmes violentos, por exemplo, pode, efetivamente, estimular o crime. Relembrando a propriedade plástica do cérebro, recentemente aferida pela neurociência, a mesma será mais evidente quanto mais jovem é o cérebro.

Essas considerações reforçam o alerta, já meio antigo, da grave responsabilidade de se trabalhar com a mídia. A teoria da comunicação deve unir forças com a Psicologia, com a Psiquiatria, com a Neurociência e, sobretudo, com a Filosofia – esta última é meio negligenciada –  para que se amplie o conhecimento teórico-prático dos processos midiáticos. E para que o alerta torne-se mais potente… e urgente.

One Comment

  1. Malu
    Posted 18 agosto, 2009 at 7:33 pm | Permalink

    Excelente artigo.
    Sou graduada em Comunicação Social estou fascinada por neurociencia mas estou encontrando muita dificuldade em ser aceita no curso por não ser da área de saúde visitei aguns sites, li artigos em busca de algo como o que acabei de encontrar.
    Parabéns


Comente

Required fields are marked *
*
*

%d blogueiros gostam disto: