POETAS DO ARAGUAIA

Hoje, trazemos do livro POETAS DO ARAGUAIA, com Prefácio de Carlos Rodrigues Brandão, publicado pelo CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação, Rio de Janeiro, 1983, quatro belíssimos poemas de Paulo Gabriel, morador de São Félix do Araguaia – MT, que entre outras auto-definições, nos diz “…Já andei nesta terra por uma porção de lugares // Do Rio de Janeiro eu guardo a alegria de viver // exposta na luz, na pele, na água // Foi em Minas, porém, que aprendi a interpretar o silêncio das coisas, o olhar emocionado // e o coração dos homens. // Ainda tenho saudade do eterno que em Minas se escondeu”.


4 POEMAS DE PAULO GABRIEL


ENCANTOS DO RIO

É preciso navegar despido
pela floresta que ainda existe
para descobrir o que foi a terra no princípio.
E adentrar-se, depois, emocionado,
pelos espaços de luz que o rio oferece
onde a mata e a água se equilibram
governadas sabiamente pelos pássaros.
Pois aqui a terra
não foi ainda profanada
e é por isso que se ignora o medo feio
da morte que o homem gera.
Na praia a “tracajá” desova
contemplada pela garça;
descansa o jacaré na areia
sério
que nem general de farda.
Na mata o jabuti espia;
marrecos e tucanos bebem o vento da manhã
enquanto um bando de borboletas amarelas anuncia
que o mundo é frágil, feito dança.
À beira do rio,
as raízes mostram a direção da vida buscando a água.
Evidentemente a bondade passou pelo mundo
antes de ser pervertida a consciência.
Hoje desejaria não encontrar-me com os homens,
ficar no rio indefinidamente
para avaliar sem mágoa
a verdadeira dimensão da terra.

DA FORÇA QUE NASCE DA MATA,
DO RIO…

Do Araguaia eu bebo
a água da liberdade
e são seus braços imensos
as veias que sangram forte
de todos os corpos mortos
na luta deste sertão.
À beira do rio
a mata verde anuncia
que o coração deve armar-se
de esperança inquebrantável
até a noite findar.
Na garganta o grito firme,
no olhar a paz ritmada,
nas mãos o instrumento certo:
lápis, facão, fuzil, martelo, terço, enxada
para modelar a imagem
do mundo novo a chegar.
Do Araguaia eu bebo
na luz do amanhecer
a vontade de gritar.

O ABSOLUTO DO INSTANTE

Como passou depressa a vida!…
O difícil é suportar a lentidão desta tarde
que não passa.

LAVADEIRAS DO ARAGUAIA

Vou contar a vida
das mulheres do Araguaia,
amantes do rio
senhoras da água,
lavadeiras!
Elas têm a cor morena
tecida de sol, poeira, mato, vento e água,
a pele faiscando sempre
como o metal na luz;
possuem braços firmes como raízes,
largos capazes de amansar a vida,
e os pés sempre descalços,
feito radar sobre a terra em cio
__ lodo de outubro a março
poeira de março a outubro.
Têm olhos escuros
acostumados a ver a fome, os vermes
na barriga dos meninos,
cansados de tanto caminhar,
olhos de amêndoa e vinho
acesos para enxergar os mistérios da noite,
competindo com o luar.
“Passei as minhas vistas pelo mundo,”
disse Albertina, “agora quero paz e sossego”
e fecha os olhos;
“já vi briga de faca,
revólver brilhar e o sangue fervendo sobre a areia,
já vi com estes olhos a traição
e senti medo na bajina” proclama, altiva, Neuza.
Mulheres de gestos rudes
e sensibilidade infinita
capazes de reorientar a vida do mundo
em qualquer homem aflito
com um sorriso lento, sagaz, ingênuo, obsceno.
Cedo acordam,
cedo o rio as espera;
vão chegando, majestosas,
rainhas numa terra decadente;
na cabeça o balde cheio,
requebrando as cadeiras,
os olhos fixos no horizonte de água.
O Araguaia manso se oferece meigo, cúmplice, amante
e elas o abraçam, o invadem e nele se abandonam
nadando sensuais, a roupa grudada ao corpo
antes de começar a luta.
Lavadeiras! Escravas num tempo de negra-liberdade,
libertai a vida como o rio é livre,
lavai a dignidade na água pura.
Fazei que vosso grito invada a terra
para que todos saibam do suor salgado
retido nas camisas dos maridos – peões de Fazenda –
da vida negada nos lençóis dos opressores,
da revolta atalhada nas calças surradas,
nos sonhos frustrados.
Levantai-vos, lavadeiras do Araguaia,
erguei o braço
acostumado a subir no espaço batendo a roupa na tábua lisa.
Quem vos une é o rio,
ele é quem passa os segredos, insuspeito,
e carrega na epiderme das águas sempre o caminho
gritos, prantos, fuxicos, mágoas, sonhos,
a subversão navegando livre entre as águas…
Já é o tempo…chegou a hora de virar espuma,
correnteza, enchente incontrolável…

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