CRÔNICAS – Nosso Cotidiano Urbano

Manhã de um Domingo Dezembrino

por Tonicato Miranda

Curitiba, 7/12/2008.

 

Cronista Tonicato Miranda

Cronista Tonicato Miranda

Um sol radiante se faz presente nesta manhã de domingo de um dezembro que se inicia promissor. Pelo menos no clima. Veja que falo de sol radiante e não sol causticante. Daqueles bons para bebês, velhos e doentes que carregam doenças menos aparentes. Pois é deste eco de palavras, rimas em prosa nada prosaicas, que saem meus passos em direção à rua e na busca da padaria vizinha.

 

Após uns duzentos passos eis que avisto uma cena dominical, destas de causar rebuliço à mente de qualquer cineasta mais criativo. Sentado sob o toldo branco que estende os limites da padaria sobre a calçada está Aloísio, um vizinho. De shorts, camisa de malha e chinelos, uma das pernas sobre outra cadeira, lê seu jornal de domingo. Sobre a mesa, restos do café da manhã, aliás, o nome do estabelecimento “Café da Manhã”, pertencente ao Henrique, da família Braga de Curitiba, meu conhecido há 26 anos, desde que vim morar na vizinhança.

Faço uma escala para uma pequena prosa e discorremos sobre os temas do momento. Falamos de futebol, de política e sobre a crise econômica, e outros assuntos mais pueris, coisas do nosso condomínio. Pergunto se acha que o Atlético cairá ou não. Conta-me que torce pelo “coxa”, mas o filho é atleticano e não gostaria que isto acontecesse. Penso cá com meus zíperes, igualzinho a minha casa, onde sou Fluminense enquanto meu filho torce pelo Flamengo.

Entre os assuntos político/econômicos falamos do Porto de Paranaguá e do Governador que deve estar exultante com o crescimento da demanda em razão dos problemas de Itajaí e das enchentes de Santa Catarina. Também jogamos conversa fora sobre a crise internacional, mas nada avançamos. Logo nossa atenção se desvia para uma mulher que passa com seu cachorrinho de domingo, cheio de mimos e tão coquete. Coisa típica do Bairro Batel, região da cidade outrora tida como chique, mas que vai se tornando um pouco decadente, porto seguro para pessoas mais velhas. Gente que vive de aposentadoria, cujos vencimentos decrescem com a idade, assim como os cabelos e o vigor do olhar.

De volta ao apartamento, com a defectível sacola plástica na mão e dentro dela uma caixa de leite tetrapac (êta nomezinho besta, mas o tetrapac refere-se a quatro partes, quatro pacotes – alumínio, papelão e outros dois que não sei dizer lá o que sejam), um bolo de laranja pronto e outra caixa tetrapac de suco de pêssego. A mulher coloca a mesa e eu coloco Paganini no computador. Em seguida comemos silenciosamente ao som do violino. Do lado de fora da janela o sol ainda é um sol para velhos e bebês. Minha mulher comenta algo sobre o condomínio, algo sobre a família e eu escuto solidário, como somente pessoas que se conhecem há muito tempo têm paciência de escutar. Banalidades.

O domingo avança lento. Mas de repente um choro. De início qual uma queixa, logo uma exigência. É o neto que veio dormir aqui em casa e estranhou a cama, o ambiente e tudo mais. Está xixado e com fome. Corre a mulher, abandona a mim e a Paganini. O tempo pára. Logo o domingo virou uma segunda-feira, fraldas, sucos, hipoglós, tarefas, arrumações, agito geral para todos, avós, tios, pais e uma só criança. Cuidados gerais, cuidados totais. O domingo chegou agora com mais força. O sol já está quente.

Melhor assim, que dezembro seja de sol, que seja verão. Curitiba está calma agora. E chego a conclusão de quem agita mesmo a cidade são os jovens. Ainda todos dormindo às 10h da manhã. A cidade apenas não está mais calma porque meu neto acordou. Agora vamos ao enfrentamento, acabou o horário dos velhos, podem tomar conta da cidade novamente, do apartamento, e do tempo. Acho que vou abrir uma garrafa de vinho, no almoço voltarei à cama. Isto é se o neto deixar, porque hoje é domingo e todos estão nas casas dos pais e dos avós. E tudo isto vai se repetir pelos domingos afora deste Dezembro que está apenas começando.

Comente

Required fields are marked *
*
*

%d blogueiros gostam disto: