Monthly Archives: janeiro 2009

A Balança

A Balança © DE João Batista do Lago Do palácio das Liberdades Nascem carnes podres Podres de direitos Podres de justiças… E então os direitos Acasalados com as justiças Geram frigoríficos Onde suas carnes são depuradas Para serem vendidas aos homens ___________________________________________________________

ANA CRISTINA CESAR

Olho muito tempo o corpo de um poema   Ana Cristina Cesar Olho muito tempo o corpo de um poema até perder de vista o que não seja corpo e sentir separado dentre os dentes um filete de sangue nas gengivas   Ana Cristina Cesar (1952-1983)

CARLOS NEJAR

Laços       Não tenho parentes tenho filhos de amar o mundo   Sou um rio entre o boi do chão e as estrelas   Não estou só o sangue secou sou um companheiro que partiu   Carlos Nejar

MURILO MENDES [1901-1975]

Poema passional   Fora do tempo eu assistia Ao nascimento das tuas sensações, Ao nascimento dos teus filhos no teu ventre E ao diálogo entre o Criador e o Destruidor.   Foi permitido o sítio e o saque da tua alma, Foi permitido o corte da tua cabeleira pesada, Fizeram uma cicatriz nos braços que […]

VINÍCIUS DE MORAES [1913-1980]

Mensagem à poesia Não posso Não é possível Digam-lhe que é totalmente impossível Agora não pode ser É impossível Não posso.   Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro. Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo Contem-lhe que há uma […]

CRÔNICAS: Convite à Mediocridade

Convite à mediocridade  Jamil Salloum Jr. Querido leitor, se você deseja uma cômoda vida de mediocridade, sem preocupações, desafios e crescimento, aceite esta receita que lhe oferecemos, que se mostrará, não tenha dúvida, um guia seguro: 1 – Antes de pensar, primeiro informe-se sobre o que deve ser pensado. Consulte a sociedade, de preferência as […]

O BOI NA PLATEIA [DE Tonicato Miranda]

O boi na platéia para Vera Lúcia Gonçalves da Silva você Sol, invencível astro nosso amo e senhor aquele que governa a luz o que dita para todos o sono somente a ti invejo neste mundo vejo os rabos dos bois na campina verde e para quem eles balançam senão para ti ouço passarinhos de […]

Ficha [DE Miguel Torga]

Ficha Poeta sim, poeta… É o meu nome. Um nome de baptismo Sem padrinhos… O nome do meu próprio nascimento… O nome que ouvi sempre nos caminhos Por onde me levava o sofrimento… Poeta, sem mais nada. Sem nenhum apelido. Um nome temerário, Que enfrenta, solitário, A solidão. Uma estranha mistura De praga e de […]

Do desejo [DE Hilda Hilst]

Do desejo I Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar alturas Buscando Aquele Outro decantado Surdo à minha humana ladradura. Visgo e suor, pois nunca se faziam. Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo Tomas-me o corpo. E que descanso me dás Depois das lidas. Sonhei penhascos Quando […]

Madrigal muito fácil [De Manuel Bandeira]

Madrigal muito fácil Quando de longe te vi, Quando de longe te via, Gostei logo bem de ti. Como é bonita! eu dizia. Mas por enganar aquilo Que dentro de mim senti, Que dentro de mim sentia, Pensei de mim para mim Que a distância é que fazia Me pareceres assim. Não era a distância […]

8 Flores e a Canção Desesperada [de Tonicato Miranda]

8 Flores e a Canção Desesperada   para a mulher amada/ e tantas mulheres como você   Você, rosa vermelha e um punhal brilhante sobre a mesa do corredor até a mim vem uma canção desesperada Você, um lírio branco e vinte lírios brancos sobre a mesa que nada rivalizam ou contêm dos acordes da […]

Guardar (de Antonio Cícero)

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, […]

História antiga (de Francisco Alvim)

Na época das vagas magras redemocratizado o país governava a Paraíba alugava de meu bolso em Itaipu uma casa do Estado só um soldado que lá ficava sentinela um dia meio gripado que passara todo em casa fui dar uma volta na praia e vi um pescador com sua rede e jangada mar adentro e […]

Germinal

Germinal   Planto com emoção este verso em teu coração.   Mario Quintana (1906-1994)

TRAJETOS

TRAJETOS   44 O dinheiro na carteira exponencia o uso do poder. A utilização da vaidade. A raiva concentrada reúne a oposição deixada ao relento. O dinheiro no bolso consome distâncias e ilusoriamente engana a certeza do trajeto.   (Pedro Du Bois, inédito)