CORA CORALINA

Aninha e suas pedrascora-coralina
(Outubro, 1981)
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a sua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Bem-te-vi...  Bem-te-vi...
Que terás visto?
Há quanto tempo tu avisas, bem-te-vi...
Bem-te-vi da minha infância, sempre a gritar,
sempre a contar, fuxiqueiro,
e não viste nada.
Meu amiguinho, preto-amarelo.
Em que ninho nasceste, de que ovinho vieste,
e quem te ensinou a dizer: Bem-te-vi?...
Bem te vejo, queria eu também cantar e repetir
para ti: Bom dia, bem te vejo, te escuto.
Bem-te-vi sobrevivente
de tantos que já não voam sobre o rio,
nem pousam nas palmas dos coqueiros altos...
Mostra para mim, meu velho companheiro de uma infância ultrapassada,
tua casa, tua roça, teu celeiro, teu trabalho, tua mesa de comer,
tuas penas de trocar,
leva-me à tua morada de amor e procriar.
Vamos ao altar de Deus agradecer ao criador
não desaparecerem de todo os Bem-te-vis
dos Reinos de Goiás.
Canta para mim, tão antiga como tu,
as estorinhas do passado.
Bem-te-vi inzoneiro, malicioso e vigilante.
Conta logo o que viste, fuxiqueiro do espaço,
sempre nas folhas dos coqueiros altos,
que também vão morrendo devagar como morrem os coqueiros,
comidos de velhice e de lagartas.
Ofertas de Aninha
(Às lavadeiras)
Tantas conheci, todas tão pobres!
No passado levavam a trouxa de roupa na gamela,
a gamela na cabeça, assentada na rodilha.
Madrugada ainda recolhida na casa de Deus Nossinhor
e a lavadeira desperta, alerta, trabalhadeira.
Sempre a lavar, a trabalhar, a passar, a engomar,
ora no rio, ora no poço.
O poço...
Presente, constante, cantante, gemente.
Subindo e descendo o balde.
Água generosa e pura.
Leve de copo, misteriosa na transformação perene
da roupa suja em roupa limpa...
O veio profundo, abismal, buscado
no ventre fecundo da terra...
Sobe azulada, parcelada, no velho balde.
Sobe e desce, desce vazio, ligeirinho,
sobe pesado, compassado.
A corda, cansada, um dia estoura...
Meu Deus! Lá se foi o balde descansar
de trabalhar no fundo escuro do poço.
Não mais o balde, a corda, o pedaço inútil na mão desolada.
Outra corda mais velha, reservada, um gancho.
O gancho enganchado, a passear, errante, cego,
no fundo profundo do poço.
Sobe, às vezes, trazendo outros baldes cansados,
latas furadas, insuspeitadas.
Afinal, que em festas, a sábia procura do não visto
engancha o gancho.
E volta o balde em triunfo, trazendo seu pedaço de corda
do fundo do poço.
Nó dado de sabe dar nó-cego.
A emenda da corda se faz.
De novo o balde, subindo, descendo, cantante, rangente,
trazendo sua água azulada, sempre aumentada lá no fundo escuro,
na escava redonda do ventre da terra.
As lavadeiras nunca se cansam.
Lavam de dia, passam de noite.
Sua tina d' água, seu ferro de brasa,
seus prendedores, seus anseios, necessidade.
Mantendo, equilibrando a pobreza, até o final.
E uma me exemplou em preceito de fé.
"Graças a Deus que Deus ajuda muito os pobres..."
Foi tão profundo o conceito que fiquei sem entender.

Vintém de Cobre
(Freudiana)
Eu vestia um antigo mandrião
de uma saia velha de minha bisavó.
Eu vestia um timão feio
de pedaços, de restos de baeta.
Vintém de cobre:
ainda o vejo
ainda o sinto
ainda o tenho
na mão fechada.
Vintém de cobre:
dinheiro antigo.
Moeda escura,
recolhida, desusada.
Feia, triste, pesada.
Corenta. Vintém. Derréis
Dinheiro curto, escasso.
Parco. Parcimonioso
de gente pobre,
da minha terra,
da minha casa,
da minha infância.
Vintém de cobre:
Economia. Poupança.
A casa pobre.
Mandrião de saias velhas.
Timão de restos de baeta.
Colchas de retalhos desbotados.
Panos grosseiros, encardidos, remendados.
Vida sedentária.
Velhos preconceitos.
Orgulho e grandeza do passado.
Pé de meia sempre vazio.
E o sonho de ajuntar.
Melhorar de vida, prosperar,
num esforço inútil e tardio.
Corenta, vintém, derréis...
Eu ajuntando.
Mudando de caixinha, mudando de lugar.
Diziam, caçoando, as meninas da escola:
"__ Muda de lugar que ele aumenta..."
Eu acreditava.
Guardava cinquinho a cinquinho
na esperança irrealizada
de inteirar quinhentos réis.
Fui criança do tempo do cinquinho,
do tempo do vintém.
Do antigo mandrião
de saias velhas da vovó.
De cobertas de retalho,
de panos grosseiros encardidos,
remendados.
De velhos preconceitos
__ orgulho e grandeza do passado.
Opulência. Posição social.
Sesmarias. Escravatura.
Caixas de lavrado.
Parentes emproados.
Brigadeiros. Comendadores,
visitando a Corte,
recebidos no Paço.
Decadência...
Tempos anacrônicos, superados.
Fui menina do tempo do vintém.
Do timão de restos de baeta.
Fiquei sempre no tempo do cinquinho.
No tempo dos adágios que os velhos
sentenciavam
enfáticos e solenes:
"__ Quem nasce pra derréis não chega a vintém."
Pessimismo recalcando
aquele que pensava evoluir.
"Vintém poupado, vintém ganhado."
Estatuto econômico. Mote gravado
no corpo de algumas emissões.
"Na pataca da miséria o diabo tem sempre um vintém."
Isto se dizia, quando moça pobre se perdia.
"Quem compra o extraordinário
vê-se obrigado a vender o necessário".
Doía... impressionava.
Era a sabedoria que falava.
E a gente sentia uma lagrimazinha de remorso
no canto do olho.
E se via mesmo de trouxinha na cabeça,
andando de déu em déu,
perseguida dos credores.
A casinha penhorada.
Os trenzinhos dados à praça.
Tudo irrecuperado, perdido,
porque tinha comprado o extraordinário:
um vestido de chita cor-de-rosa
pintadinho de azul.
O tempo foi passando, foi levando:
minha bisavó, meu avô, minha mãe, minhas irmãs.
A velha casa.
Os velhos perconcietos
de cor, de classe, de família.
O tempo, velho tempo que passou,
nivelou muros e onturos.
Remarcou dentro de mim
a menina magricela, amarela,
inassimilada,
do tempo do cinquinho.
Eu tinha um timão de restos de baeta.
Eu tinha um mandrião de uma saia velha
de minha bisavó.
Vintém de cobre:
ainda o vejo
ainda o sinto
ainda o tenho
na mão fechada.
Moeda triste,
escura, pesada,
da minha infância,
da casa pobre.

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