ARTIGO: Seja um herege! – Jamil Salloum Jr.

Seja um herege!

Jamil Salloum Jr.

 

Jamil Salloum Jr é jornalista.

Jamil Salloum Jr é jornalista.

“Por que tudo existe e é como é?” Quem nunca pensou nisso vegeta; e segundo Einstein nem deveria ter nascido.

 

 

 

            A ciência (ortodoxa) responde à questão dizendo que não existe um propósito específico. A existência é o resultado de um aglomerado de causas cegas, que reunidas produziram o universo manifestado. O homem teria como único objetivo a transmissão genética, como diz frequentemente o ilustre médico brasileiro Drauzio Varella. “Cada indivíduo é um experimento único da natureza porque resulta da interação entre uma arquitetura de circuitos neuronais geneticamente herdada…”, escreveu ele. Isto sintetiza bem a posição da ciência ortodoxa, que não admite uma causalidade consciente para a existência.

A Filosofia abriu um leque infinitamente mais amplo do que a ciência puramente tecnicista; aliás, englobava no passado tanto as ciências ditas exatas quanto as humanas, as biológicas etc. O desmembramento foi se dando com o tempo, e a especificidade, e mesmo autonomia, de cada ramo afastou-os tanto entre si que hoje noções de “multidisciplinaridade”, “interdisciplinaridade”, “transdisciplinaridade”, “holismo” etc. tomam força, tentando reunir o que foi fragmentado, sistemas epistemológicos que não dialogavam muito.  Curiosamente, a aproximação entre Filosofia e Ciência, ou melhor, o seu “reencontro,” está se dando a partir de descobertas experimentais em áreas como a Física Quântica e a Biologia. A “Ordem Implícita” do físico David Bhom e os “Campos Morfogenéticos” do biólogo Rupert Sheldrake são apenas dois exemplos. Aliás, nesse campo é imprescindível a leitura de um  livro como “Diálogos com Cientistas e Sábios – A Busca da Unidade”, de Renée Weber (ed. Cultrix).

A área que permaneceu em atraso por mais tempo foi a religiosa. Praticamente todas as religiões com o tempo alteraram e interferiram tanto no substrato original que lhes deu origem, que tiveram que recorrer à força, quando não ao crime e à barbárie, para manter uma posição política conquistada com o tempo; a fim de assegurarem dogmas arbitrariamente estabelecidos. Daí surge o conceito de “herege” (), ou seja, “aquele que escolhe”.  Heresia é definida pela ignorância religiosa como toda e qualquer doutrina que desafie o oficialmente estabelecido como verdade. Assim, o herege é culpado por pensar por si mesmo, por exercer o direito inalienável do ser humano: escolher! O pensamento livre e a pesquisa independente sempre foram inimigos jurados de morte das religiões dogmáticas, pois o conhecimento, como já provado, pode pulverizar dogmas de forma irreversível (vide Galileu Galilei e o heliocentrismo).

            Apenas recentemente algumas religiões resolveram proceder a um saudável “mea culpa” e tentar recuperar o tempo perdido, estreitando os laços entre si e com a Ciência e com a Filosofia, enfim, com o mundo em evolução. Cada uma está fazendo isso a seu ritmo. As mais avançadas até o momento são o Budismo e o Hinduísmo. O Dalai Lama chegou a dizer, recentemente, que está pronto para modificar, ou mesmo suprimir, qualquer conceito teológico do Budismo Tibetano se for provado falso ou inexato pela Ciência. Quantos líderes religiosos teriam a mesma abertura, liberalidade e clarividência? Infelizmente, ranços inquisitoriais ainda se verificam hoje. Não podemos deixar de lembrar de uma professora ponta-grossense que há 15 anos ousou, em um estudo pessoal, questionar o dogma da ressurreição de Jesus. A pobre professora despertou o ódio religioso citadino e, na época, chegamos a pensar que fogueiras seriam acesas nas ruas da cidade, dada a ira de alguns clérigos…                                                                       Podemos nos refugiar na fé não-questionadora ou desenvolver a fé resultante do conhecimento livre, do pensar independente. Este último caminho é mais doloroso, mas com resultados mais autênticos. Ser considerado herege é motivo de orgulho e, afinal, hereges são os que acendem as fogueiras, não os que nela ardem…

3 Comments

  1. Fioravante Furlaneto
    Posted 7 julho, 2009 at 4:45 am | Permalink

    Como é bom ser chamado de herege, em um sentido não pejorativo!
    Tenho 66 anos de idade,filho de pais analfabetos e católicos, onde fiz meus primeiros contatos com a Filosofia e a Religião. Minha mãe, que era uma “analfabeta filósofa”, por questões que não vale e pena citar, me introduziu, primeiro no Kardecismo e depois na Umbanda. Aos 15 anos, tive contato com a Filosofia, com Berkeley, em livro de sebo. Aos 20 me filiei à AMORC

  2. Fioravante Furlaneto
    Posted 7 julho, 2009 at 4:50 am | Permalink

    continuando…
    Aos 30 me filei à Sociedade Teosófica e fiz um cursinho de Kabala. Hoje estou lendo Kant, Schopenhauer, Nietzsche e Jamil Salloum. Bem, não foi por falta de fontes que nada sei. Obrigado pelo “A Ética de Schopenhauer”. Se tiver mais algum trabalho free online, me informe. Infelizmente sou aposentado e não tenho dinheiro para comprar livros. Obrigado.

  3. Antônio Miguel F.R.C
    Posted 5 outubro, 2011 at 12:28 pm | Permalink

    Estivemos aqui!


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